Perto do Coração Selvagem: Clarice, Joana e a sede de liberdade

Perto do Coração Selvagem: Clarice, Joana e a sede de liberdade

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Perto do Coração Selvagem“, publicado pela primeira vez em 1943, foi o primeiro romance publicado pelo ícone da literatura brasileira Clarice Lispector. Nessa época, ela tinha apenas 23 anos. O livro retrata a vida de Joana, talvez uma das personagens mais icônicas e representativas da autora. Durante a obra somos apresentados à sua história e identidade através de capítulos intercalados, de maneira não linear, sobre a sua infância, juventude e sua vida adulta.

Clarice, por ser essa grande figura no imaginário nacional causa divergentes opiniões sobre seus livros. Tal reputação lhe é atribuída principalmente porque suas histórias se tratam quase sempre de um passeio sobre a mente humana. Eles também relatam temas e situações bastante comuns, mas que são incrivelmente difíceis de descrever, como a solidão, o abandono, a ideia de felicidade – ou de não a possuir. Em seu romance inaugural já é perceptível todos esses traços, o que foi bem notado pela crítica da época, que inclusive a rendeu o prêmio da fundação Graça Aranha. 

“Sim, ela sentia dentro de si um animal perfeito. Repugnava-lhe deixar um dia esse animal solto. Por medo talvez da falta de estética. Ou receio de alguma revelação… Não, não – repetia-se ela –, é preciso não ter medo de criar. No fundo de tudo possivelmente o animal repugnava-lhe porque ainda havia nela o desejo de agradar e de ser amada por alguém poderoso como a tia morta”.

– Perto do Coração Selvagem

O pioneirismo de Clarice Lispector

Logo nos primeiros capítulos de “Perto do Coração Selvagem”, Clarisse delimita que aquela experiência que a leitora terá a partir de então não será nada parecida com qualquer outra de qualquer livro. Isso se dá ainda mais forte, pois a autora procura desenvolver o que o crítico Antônio Cândido ressalta como um “romance de aproximação”. Clarice, portanto, faz com que a leitora tenha uma relação muito única e próxima com o personagem principal.

A autora tenta a todo momento acabar com essa pretensa distância que existe entre o narrador e seu objeto, isto é, a vida de Joana. Tal escolha foi muito revolucionária, e é até hoje. Portanto, conhecemos profundamente todos os sentimentos e vivências da personagem principal: seus amores, seus demônios e suas inseguranças, por meio de uma escrita poética, lírica e muito intensa que Clarice desenvolve.

Para que essa aproximação entre a leitora e o personagem principal seja ainda mais efetiva, a autora emprega uma técnica chamada fluxo de consciência. Essa técnica consiste na capacidade do narrador de exprimir diretamente os pensamentos que o personagem narrado, o objeto, está pensando e sentindo no momento em que eles estão acontecendo. Portanto, temos acesso direto no que se passa na mente do personagem, dando uma sensação de intimidade e profundidade muito grande. Essa percepção não acontece apenas com Joana, mas também com outros personagens, como Otávio, seu esposo e Lídia, a ex-noiva de Otávio. 

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Mas, apesar desse impacto da proximidade, isso não significa que seja fácil de ler as coisas que nos são apresentadas. A linguagem e a forma que Clarice se expressa ao longo do livro, através de seus personagens, causam uma coleção de estranhamentos no leitor. Isso não ocorre somente por conta da técnica apresentada, mas do próprio reflexo da figura da Clarice na sua escrita. Quando vemos suas entrevistas ou algum material que fala sobre a história e as emoções da autora ao longo da vida, percebemos essa sensação de neurose, de nervosismo e incômodo que ela tinha com ela própria e com a vida de maneira geral. 

“Perto do Coração Selvagem” perpassa muito pela ideia de fragmentação de identidade, de não sabermos quem somos, de não sabermos qual o próximo passo, o que queremos construir com a nossa passagem pela sociedade. Isso é algo que todos nós sentimos sempre, mas é muito difícil de achar um livro ou qualquer forma de arte que expresse significativamente esse incômodo, essa forma de perceber a vida. Portanto, consideramos que essa obra parece tornar, ou pelo menos aparenta tornar, essa tarefa de compreender a existência, do ser e do estar, muito fácil. Clarice compreende exatamente a vida humana como ela é, a nossa mente, os nossos sentimentos, os nossos não-pertencimentos e etc.. 

Foto em preto e branco de Clarice Lispector sentada.
Clarice Lispector (Foto: reprodução)

“Tudo o que foi distancia-se de mim, mergulhando surdamente nas minhas águas longínquas. Ouço-a, a queda. Alegre e plana espero por mim mesma, espero que lentamente me eleve e surja verdadeira diante de meus olhos. Em vez de me obter com a fuga, vejo-me desamparada, solitária, jogada num cubículo sem dimensões, onde a luz e a sombra são fantasmas quietos.

No meu interior encontro o silêncio procurado. Mas dele fico tão perdida de qualquer lembrança de algum ser humano e de mim mesma, que transformo essa impressão em certeza de solidão física. Se desse um grito – imagino já sem lucidez – minha voz receberia o eco igual e indiferente das paredes da terra.”

– Perto do Coração Selvagem

A construção da identidade e personalidade de Joana

A personagem Joana é muito confusa sobre sua própria identidade e existência. Isso é exprimido através de uma sinceridade e uma franqueza, quase em um tom confessional, muito presentes ao longo de todo o livro. Em meio a paixões, conquistadas e outras decepcionadas, em seu amor pelo pai, sua revolta com seus tios, sua relação com o mar e a água no geral, Joana manifesta sua sede pela vida e como ela mesmo menciona, sua sede de estrelas. 

Às vezes seus sentimentos são descritos quase que animalescos, marcados pela raiva e uma ansiedade constante. Há um desejo, de aparente insaciedade, de conhecer o mundo. De conhecer as estrelas, os montes, as terras desconhecidas. Em alguns momentos de demarcado fluxo de consciência é possível inclusive sentir uma espécie de grito abafado dentro de si. Joana se perde em si mesma, e nós enquanto leitores de sua consciência e pensamentos nos perdemos nos desejos conscientes e inconscientes dela. 

Dessa maneira, há durante o livro uma sensação muito desconfortável e incômoda ao deparar em Joana nossos próprios pensamentos, ao mesmo tempo em que ela é tão distinta e única que parece não haver qualquer pessoa parecida. É difícil compreender Joana em diversos sentidos. Ela é complexa, densa, cheia de lados que se contrapõem, inclusive em sentimentos que parecem tão simples e comuns como o amor.

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O amor se confunde muito com a dor. Amar é muito doloroso para Joana. Ela não sabe como vivenciar tanto o amor como a felicidade, principalmente devido sua vida ser marcada pela perda de seus pais e de sua primeira paixão, pela incompreensão que seus tios tinham de sua responsabilidade e muitos outros acontecimentos. Não apenas em relação ao amor, mas à tudo, desde criança Joana já demonstrava ser esse espírito livre e questionador, não conformada com o que diziam.

Essa questão causa espanto a leitora, inclusive quando ela pergunta “Ser feliz é para conseguir o quê?”. A felicidade não tinha uma receita perfeita como para muitas pessoas pareciam ter. Para algumas casar e ter filhos, para outros ter o emprego sonhado. Mas o livro faz questão de dizer que não há qualquer resposta para isso. Por mais que você pense que tenha uma resposta específica, talvez quando você chegue lá não seja bem o que você pensou. 

Mas, para além de Joana, temos também acesso aos pensamentos diretos de outros dois personagens. Eles são profundamente importantes para a construção da própria ideia de quem é Joana, devido aos contrastes, que é o seu marido Otávio, e a ex-noiva e amante dele, Lídia. Eles, ao contrário de Joana, apesar de ainda incomodados com a existência de si próprios, parecem ter identidades bem mais delimitadas do que a de Joana, sempre tão perdida em devaneios e questionamentos.

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Acreditamos que essa escolha da autora tenha sido justamente para dar ainda mais tom às reflexões da personagem principal, criando opostos. No entanto, isso também não significa que eles são menos complexos ou menos importantes. Mesmo os personagens menores e que aparecem muito pouco são extremamente bem colocados. Nós sabemos exatamente sua personalidade, como eles afetam Joana, como eles se posicionam no mundo, mesmo com poucas palavras ou poucas aparições.

Clarice em frente à uma estante de livros - imagem colorida (Foto: reprodução)
Clarice Lispector (Foto: reprodução)

“Como ligar-se a um homem senão permitindo que ele a aprisione?”

Perto do Coração Selvagem e o reflexo sobre o dever-ser mulher

A vida, para Joana, é quase que tediosa. Ela vê uma necessidade de ir além do que se está naquele momento, por mais que aparentemente, pelas expectativas da sociedade do ser-mulher ela estivesse encaminhada para a vida feliz e perfeita. Estava na idade para procriar, estava casada com um homem que aparentemente a amava e que tinha uma carreira jurídica pela frente, estava estável financeiramente. Mas tudo isso não é o bastante, e nunca vai ser.

A figura de Joana pode, inclusive, ser elevada para a figura da mulher branca de classe média dos anos 40 que era muito marcada pela ideia de mística feminina, a mulher-esposa, mãe e filha. Dona de casa. Feita para procriar e sedimentar os lares e os homens ao seu redor. Clarice, brilhantemente, aponta como essas expectativas totalizantes e absolutistas das mulheres eram danosas, e ainda são em certo grau, pro psicológico das mulheres. 

Por mais que Clarice não usasse a palavra feminismo, nem militasse ou se posicionasse para tanto, é perceptível em sua literatura a forma como ela refletia sobre a condição das mulheres, mesmo que esta visão fosse muito marcada por sua própria vida e por seus privilégios. Mas esse também é um traço em que demonstra a genialidade de seus escritos.

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Parece que a escrita era a sua forma de se rebelar, de demonstrar o que era sentido diariamente com a sua vida e suas experiências. E em nenhum momento ela coloca sua vivência de maneira totalizante, ou como um exemplo absoluto do que era ser mulher nessa época. É sentido, na verdade, um tom muito confessional, individual e único através de Joana, por mais que quando lemos sentimos um certo grau de aproximação, se não conosco, com mulheres próximas, conhecidas, ou com histórias de vidas passadas das mulheres de nossas famílias. 

Portanto, Joana não é simplesmente uma esposa nos moldes patriarcais. A sua própria descoberta sobre a feminilidade é muito complicada e dolorosa para ela, tanto na adolescência quanto na idade adulta. Joana não vê o sentido de se portar daquela maneira, ela não visualiza as estruturas que tentam moldá-la como algo normal e isso a irrita profundamente. Ela menciona “Ser livre era seguir-se afinal, e eis de novo o caminho traçado. Ela só veria o que já possuía dentro de si”, bem como, “há impossibilidade de ser além do que se é – no entanto eu me ultrapasso”. A personagem em questão tenta, a todo momento, fugir do que se esperam dela e ser livre da sua própria maneira.

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E isso é um contraste muito intenso com a personagem Lídia, a qual também temos acesso aos pensamentos e anseios. Lídia, ao contrário de Joana, anseia a vida de casada, de ser mãe e amada, admirada, mais do que qualquer outra coisa. Ela vê na figura de Otávio o fim, no sentido de finalidade, de sua felicidade. Ela se conheceria mais, sentiria-se mais ela mesma no momento que estivesse ao seu lado. Por mais que sua insegurança em relação a Joana e a própria forma de Otávio se relacionar com as mulheres fosse um obstáculo, é perceptível o desespero em se sentir reconhecida na figura do ser-mulher para a sociedade, em oposição a Joana.

Elas são a completa dualidade. Joana tão fugaz, volátil, imprecisa, enquanto Lídia é de todo estabilidade. Há, inclusive, um momento em que elas se encontram e refletem sobre suas posições, sobre casamento, ser mulher, ter filhos. Para mim, esse foi o capítulo mais memorável de todo o livro. Não apenas pela temática, mas pela habilidade da autora em construir mulheres tão complexas, tão densas, e em completa oposição. Clarice, portanto, traduz aqui uma nova forma de escrever para a literatura brasileira. O ser mulher para Clarice é ir além.

Perto do Coração Selvagem

“Liberdade é pouco. O que desejo ainda não tem nome. – Sou pois um brinquedo a quem dão corda e que terminada esta não encontrará vida própria, mais profunda”.

Assim, Joana, é uma personagem icônica não somente por retratar muito bem a personalidade de Clarice, mas por ser muito intensa, complexa, e múltipla. Ela não era, ela estava. A sua identidade não é constante, a todo momento ela está fluindo, construindo e desconstruindo, transformando-se, para o bem e para o mal. Ela quer tudo ao mesmo tempo que quer nada, ela vivencia a vida perto do coração selvagem da vida, isto é, a vida em todos os seus riscos, problemas, amores e desamores, dor e a busca constante por liberdade. Ela continua a se ultrapassar e a não se definir pelas suas relações, e continua com sua voz ecoando depois de todos esses anos. Livro obrigatório.


Perto do Coração Selvagem 

Clarice Lispector

203 páginas

Editora Rocco

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Edição por Isabelle Simões e revisão por Mariana Teixeira.


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Autora

Estudante de Direito, nordestina, pode falar sobre Studio Ghibli e feminismo por horas sem parar, amante de cinema e literatura (ainda mais se feito por mulheres), pesquisadora, acumuladora de livros e passa mais tempo criando listas inúteis do que gostaria.
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