Octavia Butler: o que seria da ficção científica sem o seu legado?

Octavia Butler: o que seria da ficção científica sem o seu legado?

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Ah… A ficção científica! Que gênero literário fantástico, capaz de nos fazer imaginar tanto e, ao mesmo tempo, especular o futuro de forma tão carismática. Não se sabe ao certo quantos livros de sci-fi foram escritos até agora, e seria impossível ter um número exato da quantidade de autores do ramo, mas só neste ano, mais de 10 filmes de FC mainstream, com grande bilheteria, nome e avaliação crítica foram lançados nos cinemas brasileiros. Poderíamos ficar horas debatendo qual o papel da ficção científica na humanidade. São muitos os ganhos que esse gênero nos trouxe, é verdade, mas entre os mais notórios, é importante dizer: o que seria do sci-fi sem as mulheres? Ainda mais sem Octavia Butler?

Quando são relembrados os autores mais memoráveis do gênero, destacam-se Isaac Asimov, John W. Campbell, Robert A. Heinlein e Arthur C. Clarke. Mas não há ficção científica sem que comecemos a falar de “Frankenstein“, por exemplo. Sem Mary Shelley, talvez nem saberíamos da existência da união entre o sobrenatural e a ciência da forma como foi desenvolvida por tantos outros autores. O mesmo acontece com a escrita sobre a colonização espacial e a viagem no tempo de Octavia Butler.

Octavia Butler: a primeira autora negra de sci-fi a receber o MacArthur Foundation Award 

Octavia Butler
Octavia Butler (Foto: Divulgação)

Nos anos 1970, uma escritora negra mostrou uma visão que foi deixada de lado na maioria dos livros de ficção científica. Era necessário olhar para as personagens, para a trama e, sobretudo, para a própria sociedade de outra maneira — e a melhor forma de representação veio pela literatura. Octavia Butler participou de alguns de workshops de escrita antes de escrever “Kindred – Laços de Sangue (1979), seu bestseller, e os demais livros que se seguiram deste. 

Em 1995, Butler marcou a história como a primeira mulher negra e escritora de ficção científica a receber o MacArthur Foundation Award. Cinco anos mais tarde, a PEN American Center concedeu a ela um Lifetime Achievement Award, em reconhecimento pelo conjunto da obra. Finalmente, em 2001, Octavia teve seu nome incluído no Science Fiction Hall of Fame, fundado em 1996 pela Sociedade de Ficção Científica e Fantasia de Kansas City e pelo Centro de Estudos de Ficção Científica (CSSF) da Universidade de Kansas (KU), criado para destacar autores do gênero. 

Foi também de Butler a criação do conceito de “Afrofuturismo”, que combina características de ficção científica, história, geografia, fantasia e arte com a cultura africana e o afrocentrismo.

Kindred: uma outra forma de enxergar a viagem no tempo

Kindred - Laços de Sangue, Octavia Butler

Em “Kindred – Laços de Sangue”, pelos olhos de Dana, a autora usou o recurso da viagem no tempo para explorar a época escravagista no sul dos Estados Unidos e misturar uma visão nunca antes vista do papel social do negro, tanto na atualidade quanto anos antes da Guerra da Secessão.

Quando volta para o passado, Dana (escritora negra e protagonista do livro) se vê obrigada a garantir que a própria existência aconteça, uma vez que se conecta diretamente com seus bisavós e percebe que sua família foi consequência de um estupro. Cada vez que Ruffus (branco, filho do dono da fazenda e seu bisavô) entra em perigo, Dana é enviada ao passado para interferir. 

É também nesse contexto que a personagem tem que enfrentar uma sociedade baseada na legalidade e nos costumes da escravidão, sendo uma mulher negra livre, que vive originalmente nos anos 1970. E percebe que sua família foi feita em decorrência de um estupro de Ruffus sob Alice, uma jovem negra forçada à escravidão. 

A viagem no tempo é um tema comum ao gênero, e já passou por uma série de grandes autores de ficção científica. H. G. Wells, um dos pioneiros, escreveu “Máquina do Tempo”, que é considerada a primeira história a falar sobre o tema. Dele, vieram Jack Finney, Ken Grimwood e tantos outros homens brancos. Mas nenhum deles contou uma história pela mesma perspectiva de Octavia Butler, que já nos anos 1970 falou tão abertamente sobre o racismo e o machismo em uma obra de ficção científica.

Trecho de "The Time Machine", filme baseado na obra de H. G. Wells
Trecho de “The Time Machine”, filme baseado na obra de H. G. Wells. (Imagem: reprodução)

Outra diferença marcante foi se utilizar da viagem no tempo como consequência sobrenatural e fora do controle do viajante. Em “Kindred”, voltar para o passado não é uma opção de Dana, e sim algo repentino e doloroso, que coloca a vida da personagem constantemente em risco. E não apenas isso, Butler também coloca a relação entre Ruffus e Dana em diferentes níveis de submissão e escravidão, uma vez que, quando mais velho, o personagem é proprietário temporário de Dana. 

Ao decorrer da trama, a autora mescla a ficção científica com a situação histórica dos negros na época escravagista, e evidencia a visão do racismo e da misoginia às mulheres negras. Dana passa por diferentes experiências de racismo tanto no passado quanto no presente.

Lilith’s Brood: a colonização espacial ou pós-apocalíptica vista pelo outro lado da moeda 

“Kindred” não foi a única história qual Butler trabalhou o conceito de colonização e superioridade de uma raça perante outra. Em “Lilith’s Brood” (originalmente intitulado “Xenogenesis”), a autora fala abertamente sobre uma condição em que a Terra foi destruída por uma guerra nuclear e a humanidade está praticamente extinta, mas foi “salva” por alienígenas com material genético distinto dos humanos, e por isso percebem o mundo de maneira diferente. 

Neste sentido, a grande mudança e estranheza está justamente no gênero biológico da raça, chamada Oankali. Para eles, existem o feminino, masculino e Ooloi, que manipula o próprio DNA para transformar outros seres e criar filhos a partir do material genético de seus companheiros.

Lilith’s Brood (Xenogenesis), Octavia Butler
“Lilith’s Brood” foi publicado no Brasil pela editora Morro Branco nas edições “Despertar” (2018) e “Ritos de Passagem” (2019).

É nesse contexto que Lilith, personagem principal, envolve-se com um dos alienígenas e vê sua própria espécie obrigada a se reproduzir em fusão com os Oankali. Uma vez que foram eles os responsáveis por tornar a Terra habitável novamente, a imposição dada em troca da sobrevivência dos seres humanos foi que a humanidade tivesse de cruzar com os Oankali para misturar suas raças. Para eles, esse era um imperativo biológico comparável à necessidade de respirar.

A princípio, a proposta não parecia tão ruim, muito porque alguns dos problemas humanos, como o câncer, por exemplo, seriam erradicados durante a troca de DNA. Mas, durante o processo, a humanidade resiste. E os Oankali, então, criam à força o primeiro humano híbrido.

Por meio dessa trama de “Lilith’s Brood”, Butler deixa traços na trilogia de uma nova colonização realizada por alienígenas. Diferente de seus antecessores no tema — como Arthur C. Clarke, por exemplo, que entre os mais de 50 livros publicados, trabalhou o conceito de colonização de outros planetas e civilizações de forma única —, nossa autora trabalha justamente com o lado de quem é colonizado.

Veja bem, uma comunidade que se diz superior chega na pretensão de “salvá-los”, estupra seus originários e aproveita de tudo o que aquela civilização produziu e criou, impõe suas vontades a outro povo e constrói uma nova forma de mundo. Soa familiar?

No início do século XIV, os portugueses navegaram pelas águas do Oceano Atlântico até encontrarem as Ilhas Canárias. Homens brancos, diferentes dos negros que viviam no continente africano, trouxeram a premissa de uma sociedade melhor, com uma proposta desigual de exploração não apenas da terra, como também dos humanos. E, assim, os negros foram legalmente definidos como uma mercadoria à mercê dos brancos.

A escravidão durou séculos, e vale lembrar que o Brasil foi um dos últimos países a aboli-la. Ainda hoje, o racismo é um dos principais motivos diretamente relacionados a grande parte dos homicídios pelas mãos da polícia, que atira antes e pergunta depois.

Lei Áurea, assinada por Isabel.
Lei Áurea, assinada por Isabel.
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Em “Lilith’s Brood”, no entanto, há uma diferença marcada da literatura que Butler pensou. O último e menor livro da saga, traz à leitora uma visão do que se tornou a nova civilização humana e híbrida com os Oankali. Muito do que acontece ainda nos dias de hoje, uma sociedade mista e recriada a partir do passado.

A importância de Octavia Butler e seu legado para autoras negras

Disso, fica a pergunta: com toda o talento e experiência de Clarke, um autor tão renomado e tão importante não só para o gênero, mas para a humanidade, será que ele conseguiria escrever algo assim? Com tanto sentimento e com tanta afinidade ao tema? Qual é o espaço que uma mulher negra ocupa dentro da ficção científica? 

Perceber a importância da existência de Octavia Butler neste sistema é algo que não cobra explicações: um homem branco jamais conseguiria escrever algo com que nunca conviveu, ou pelo menos não com a mesma firmeza de alguém que não só vive numa sociedade racista, misógina e desigual, mas tem antepassados que sofreram a escravidão na pele. 

É verdade. Sem Asimov, Campbell, Heinlein, Clarke e Shelley não haveria ficção científica. Mas sem Octavia Butler, talvez nenhuma mulher negra tivesse a possibilidade de escrever dentro do gênero.


Edição e revisão por Isabelle Simões.

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Quase jornalista, nerd, feminista, pesquisadora de minas nos quadrinhos, criadora do Phantom Ladies e do podcast Pauta Nerd, da Rádio Brasil de Fato. Não sei desenhar uma linha reta e sou movida à chá mate com limão.
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