Língua, linguagem e linguística em “A Chegada”

Língua, linguagem e linguística em “A Chegada”

Desde as primeiras obras da ficção científica, ela se empenha em explorar os mais extremos e delicados questionamentos da nossa espécie. Tudo é sempre muito humano no sci-fi: quando o planeta importa, é porque ele é o nosso lar. Quando é a percepção de tempo e espaço, é porque, para nós, isso é limitado. No geral, esse gênero se debruça sob a insignificância da existência humana, as beiras dos limites do nosso conhecer e ser. Nesse sentido, A Chegada é ficção científica em sua essência. Sem explosões, vilões ou heróis. Mas há uma grande cientista e o desconhecido para desbravar.

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O filme recebeu 8 indicações ao Oscar, incluindo de Melhor Diretor para Denis Villeneuve (Duna, Blade Runner 2049) e Melhor Filme. Sua beleza não se encontra apenas na narrativa bem desenvolvida e profunda, mas em sua estética enquanto produção do audiovisual. É uma obra que será lembrada por desconstruir a linguagem e nela dedicar-se não a entender, mas a apreciar.

ATENÇÃO: O TEXTO CONTÉM ALGUNS SPOILERS DO FILME!

Cena do filme “A Chegada” | Imagem: Reprodução

SOBRE A LINGUAGEM ALIENÍGENA

O filme de 2016 foi baseado na obra de Ted Chiang, História da Sua Vida, e narra a chegada de naves alienígenas ao redor do mundo. Na tentativa de se comunicar com os seres dessas naves, a linguista Dra. Louise Banks (Amy Adams, indicada ao Oscar de Melhor Atriz por seu trabalho nesse filme) é convocada por militares estadunidenses a traduzir uma série de sons emitidos pelos extraterrestres.

Como todos os seres, os chamados “heptapodes” do filme também possuem seus meios de comunicação. No caso da fala, uma linguagem que lhes é natural. Os sons emitidos são muito semelhantes ao canto da baleia-jubarte (Megaptera novaeangliae), mas outros animais também utilizam as cordas vocais para se comunicar com outros de sua própria espécie. A maior diversidade desses estudos se direciona aos primatas, por exemplo. O desafio para os pesquisadores é, portanto, compreender qual sequência de som, em qual frequência e em qual ritmo representa o que, para quem e quando.

Ou seja, a língua poderia ser definida como sendo uma sistematização de uma linguagem que é criada em conjunto por sociedades (até o que se sabe, sociedades humanas, mas no caso do filme, dos heptapodes também) e que é aprendida de maneira natural. Os sons em si, bem como a forma das letras e palavras (em línguas que possuem alfabeto) não possuem um significado, até que alguém as dê. E Louise, no longa, faz esse trabalho de transmitir uma palavra do inglês e o conceito que ela representa e, em contrapartida, compreender qual conceito cada som e imagem na língua dos heptapodes representa.

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A linguagem alienígena em "A Chegada"
Cena do filme “A Chegada” | Imagem: Reprodução

COMO FALAMOS E COMO VIVEMOS: A TEORIA SAPIR-WHORF

Mas, a trama do filme não se baseia simplesmente na compreensão da língua dos heptapodes (isto é, o sistema dos sons vocálicos que eles emitem, bem como os símbolos emitidos). Isso por si só já renderia muito assunto, mas a história do longa vai além. Há um teoria na linguística chamada Teoria Sapir-Whorf. Essa teoria, também reconhecida como Relativismo Linguístico, tinha como principal hipótese a ideia de que a língua interfere diretamente na maneira como vemos o mundo. Mas não apenas interfere, como a determina.

A vertente da Teoria Sapir-Whorf, chamada de “determinismo” (que não é exatamente uma vertente, mas um conceito por ela desenvolvido) baseia grande parte do que se é apresentado de mais extraordinário no filme: a ideia de que uma língua, sendo esta sem começo ou sem fim, possa determinar que vejamos o mundo assim também. Ou seja, uma percepção de espaço-tempo não linear.

Em línguas não ficcionais há alguns exemplos interessantes dessas diferenças na visão de mundo dos falantes: algumas línguas não possuem nomes para definir as cores como o português define (portanto, o reconhecimento entre as tonalidades é diferente para aqueles que possuem um nome especifico em seu idioma); ou, algumas línguas utilizam marcadores de tempo diferentes do português (exemplo que se assemelha mais à ideia do filme) e, portanto, não somente a tradução é difícil, como a compreensão dos não falantes sobre a lógica comunicativa também será mais demorada.

Assim sendo, a língua dos heptapodes é inseparável de sua forma de ver o mundo. E as línguas humanas não são diferentes disso. Embora, atualmente, entenda-se que a língua não determina tal percepção de realidade, apenas influencia (vertente “fraca”).

A CHEGADA: ATÍPICA FICÇÃO

A relevância de histórias como A Chegada se demonstra pela recepção do público. Não apenas foi um filme reconhecido pelos críticos, sendo indicado ao Oscar, mas, o mais importante, foi um filme que causou impacto naqueles que assistiram. Existe uma quantidade consideravelmente vasta de conteúdos na internet que buscam explicar a obra, criar teorias e divulgar a ciência usada como base para o roteiro.

A procura do público para compreender a linguística em que a história se baseou, comprova que obras cinematográficas podem sim contribuir para o interesse da população geral em temas científicos (um adendo: a divulgação científica deve ser embasada em… ciência. Sempre).

E nota-se, ainda, uma representação importante de dois elementos muito desprezados pelo gênero da ficção científica: o diálogo com uma ciência humana e realizada por uma figura feminina. Acompanhamos, afinal, Louise a dar aulas, pesquisar e estudar. Não com o típico jaleco dos arquétipos, muito menos à sombra de uma figura masculina.

Cena do filme “A Chegada” | Imagem: Reprodução
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A Chegada é um passo grandioso na exploração de outras ciências no sci-fi. É uma maneira nova de fazer histórias de um gênero antigo. Ao mesmo tempo que é um filme com temas extraordinários demais (e até complexos de se entender, se não estivermos atentas) é um filme que mais se assemelha a como as coisas são. Designers e linguistas fizeram, de fato, parte da equipe de produção, para que os desenhos do alfabeto tivessem um fundamento e parecessem o mais crível possível.

E assim, a emoção de desvendar o novo (não somente a língua, mas uma nova espécie, uma nova cultura e nova maneira de se viver a vida) é algo imersivo para todas nós, não apenas aos personagens.

O CONHECIMENTO COMO UM FARDO

Mas o que parece um dilema distante, se encontra, na verdade, a cada momento de nossas vidas. Não é preciso um alfabeto alienígena ou visões do futuro e passado, como sendo um só, para sentir o poder da linguagem. E acompanhado desse poder, há maravilhas que mais parecem sonhos delirantes de ficção científica, mas que podem ser condensadas em literatura, arte e nas diversas formas de cultura que produzimos e compartilhamos.

A língua é o construto mais humano da linguagem, enquanto que é também humanizadora. Dependemos dela, mas ela depende de nós para permanecer viva. E ainda que se dedique uma vida inteira para compreender a linguagem, ela permanece envolta de mistério.

Foi dito não haver atos heroicos em A Chegada. Mas é claro que, para toda grande história, há um grande ato de bravura. E um grande fardo para se carregar. No caso de Louise, esse ato de bravura é tão simples quanto é doloroso: apreciar – como já foi citado – ao invés de entender completamente. O amor, antes de tudo, inclusive do medo de perdê-lo. Parafraseando Homem-Aranha: com grandes poderes vem grandes responsabilidades.

Quem, ao vislumbrar seu futuro, não se sentiria um prisioneiro de seu próprio destino?

“Se você visse sua vida toda, do começo ao fim… Você mudaria algo?”

"A Chegada" e o conhecimento como um fardo
Cena do filme “A Chegada” | Imagem: Reprodução

Para saber mais:

  • CUNHA, Adan Phelipe. A emergência da hipótese do relativismo linguístico em Edward Sapir (1884-1939). 2012. Tese de Doutorado. Universidade de São Paulo.
  • FERREIRA, Renan Castro; MOZZILLO, Isabella. Transferência conceitual: o relativismo linguístico na aprendizagem de segunda língua. Alfa: Revista de Linguística (São José do Rio Preto), v. 65, 2021.
  • VIELLIARD, Jacques ME. A diversidade de sinais e sistemas de comunicação sonora na fauna brasileira. Seminário Música Ciência Tecnologia, v. 1, n. 1, 2004.
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Autora:

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Estudante de Letras na Universidade de São Paulo, apreciadora de boas histórias e exploradora de muitos mundos. Seus sonhos variam entre viajar na TARDIS e a sociedade utópica onde todos amem Fleabag e Twin Peaks.
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