Literatura (Taylor’s Version): a ascensão literária de Taylor Swift

Literatura (Taylor’s Version): a ascensão literária de Taylor Swift

Taylor Swift é uma cantora com quinze anos de carreira consolidada e ascendente. Sua base de fãs cresce a cada novo álbum lançado, e nos últimos anos, com os relançamentos de álbuns antigos, a cantora estadunidense testemunhou um crescimento extraordinário em sua base de fãs. Contudo, se engana quem pensa que os Swifties consomem apenas as canções da loirinha.

Desde o início de sua carreira, Taylor não mediu esforços para contar histórias por meio de suas músicas. As letras emotivas e narrativas complexas têm raízes profundas na literatura clássica e contemporânea. A cantora entrelaça influências literárias em suas composições, criando um universo sonoro que ressoa para uma audiência global cada vez mais vasta.

A relação dos ouvintes de Swift com a literatura é estreita. Muitos de seus fãs, especialmente os jovens adultos, encontram nas letras da cantora uma forma de identificação. Além do uso de tons profundos e pessoais, suas composições estão repletas de referências a clássicos escritos por autores renomados, como William Shakespeare, Lewis Carroll e Charlotte Brontë.

Um exemplo já explicado por Taylor é tolerate it, do álbum evermore, que foi inspirada no romance Rebecca, da autora britânica Daphne Du Maurier. A música fala sobre alguém que se esforça ao máximo para agradar o parceiro, mas não recebe mais do que tolerância, a mesma narrativa da obra de Du Maurier.

Quando eu estava lendo ‘Rebecca’, de Daphne Du Maurier, pensei: ‘Uau, o marido dela apenas a tolera. Ela está fazendo todas essas coisas e está se esforçando muito e tentando impressioná-lo, e ele está apenas tolerando-a o tempo todo. Havia uma parte de mim que se relacionava com isso, porque em algum momento da minha vida, eu me senti assim.”

– Taylor Swift para o Apple Music Award em 2020

As referências citadas nas canções de Taylor Swift fomentam o hábito de leitura dos ouvintes

Não é novidade para os leitores deste site que Taylor Swift é uma das maiores compositoras da nossa geração. Para quem já está na casa dos vinte e poucos anos, acompanhou a trajetória da cantora desde o começo (ou quase) e já conhece clássicos da literatura mundial, sua habilidade de mesclar experiências pessoais com obras renomadas é quase como assistir a um crossover de filmes da Marvel.

Porém, o fandom tem aumentado consideravelmente nos últimos anos, e cada vez mais adolescentes e pré-adolescentes se mostram interessados nas letras cheias de referências escritas pela cantora. Consequentemente, procuram de onde vêm suas inspirações e querem saber mais sobre os personagens e histórias abordadas nas músicas que embalam suas vidas. Dessa forma, a comunidade literária aumenta gradativamente, e podemos assumir que, sim, isso faz parte do fenômeno Taylor Swift.

Para a mexicana Nisa Cedillo, uma leitora e fã de Taylor Swift, de 18 anos, o crescimento do fandom e o aumento do interesse de jovens pela literatura estão totalmente interligados.

“Muitas pessoas se interessaram pelos triângulos amorosos abordados em ‘folklore’ e começaram a ler livros que têm a mesma energia.

A comunidade literária começou a se parecer mais com a Taylor Swift, então muitas pessoas que falavam sobre online sobre livros, começaram a falar sobre a Taylor e muitos fãs começaram a seguir essas pessoas e consumir esse tipo de conteúdo relacionado a livros, é como se fosse um efeito dominó.

Comecei a ler as poesias de William Wordsworth por causa da Taylor. A comunidade cresceu muito desde o lançamento dos álbuns ‘folklore’ e ‘evermore’, provavelmente também por conta da pandemia, mas pude notar um número maior de pessoas falando sobre os livros e autores que ela menciona em suas canções”.

Taylor Swift para campanha de incentivo à leitura da Associação Americana de Bibliotecas (2014)
Taylor Swift para campanha de incentivo à leitura da Associação Americana de Bibliotecas (2014) | Foto: American Library Association / Divulgação

A brasileira Maria Ferreira, de 19 anos, acredita, inclusive, que as referências literárias deveriam ocupar mais espaço nas canções da norte-americana.

“Por ela ser uma figura muito influente e que apoia a leitura, eu comecei a seguir vários jovens que produziam conteúdo baseado nesses livros que a Taylor já falou que gosta ou indica.

Isso contribuiu muito com o interesse desses e de outros jovens pela literatura. Acho muito interessante as narrativas que a Taylor Swift cria em algumas músicas, às vezes até gostaria que fossem mais extensas.

Então, quando eu descobri que existiam livros que serviram de inspiração para essas músicas, tive muito interesse em ler”.

De inspirada pela literatura, Taylor Swift passou a ser inspiração

A conexão entre música e literatura se tornou evidente na Bienal do Livro do Rio de Janeiro deste ano. O evento experimentou um aumento nas vendas impulsionado por livros que incorporaram o universo criativo de Taylor Swift, especialmente em romances voltados para o público jovem adulto.

Carolina Andrade, com 22 anos, participou do festival literário na capital carioca e notou a presença de fãs da cantora durante o evento.

“Tinham muitos fãs dela lá, pessoas usando camisetas e muita gente comprando livros inspirados nela. Cada música dela é uma história diferente, e todos amam tudo o que ela faz e compõe, então suas referências ficam sempre visíveis”

Pôster de livro sobre Taylor Swift durante a Bienal do Livro do Rio de Janeiro 2023.
Pôster de livro sobre Taylor Swift durante a Bienal do Livro do Rio de Janeiro 2023. | Foto: Carolina Andrade / Arquivo pessoal

O romance Uma Tempestade de Verão, escrito por K. L. Walther, tornou-se um fenômeno de vendas no Brasil. O livro, que contém referências às músicas da cantora, rapidamente se tornou um best-seller, alcançando o topo das vendas na plataforma Amazon antes mesmo de ser oficialmente lançado pela editora Rocco.

O sucesso do livro foi impulsionado principalmente pelo TikTok, onde trechos destacados foram compartilhados por booktokers, usuários que usam o aplicativo para recomendar livros. A rede social de compartilhamento de vídeos curtos desempenhou um papel crucial na divulgação para o público jovem, contribuindo para mudanças nos hábitos de leitura no país.

Taylor também compartilhou suas leituras favoritas com os fãs, revelando como os livros influenciam suas letras. Por exemplo, sua música Love Story foi inspirada em Romeu e Julieta de Shakespeare, e outras canções fazem referências a clássicos da literatura, como Alice no País das Maravilhas de Lewis Carroll e Um Conto de Duas Cidades de Charles Dickens.

Em junho de 2022, o 11º Painel do Varejo de Livros no Brasil expôs que o gênero romance é um dos três gêneros literários mais consumidos pelos brasileiros. A segunda colocação do estilo no ranking nacional pode estar ligada ao fenômeno literário envolvendo a cantora ao redor do mundo, além da crescente onda de booktokers, que disseminam o hábito de leitura entre a população mais jovem.

Literatura (Taylor’s Version)

O termo (Taylor’s Version) é usado pela cantora nas regravações de seus álbuns anteriores a 2019. A razão para isso está relacionada a questões de direitos autorais e controle criativo. No início de sua carreira, Taylor Swift assinou um contrato com uma gravadora chamada Big Machine Label Group.

No entanto, em 2019, a gravadora foi adquirida pelo empresário Scooter Braun, o que resultou na posse dos primeiros seis álbuns de Taylor Swift por parte dele. Swift não ficou satisfeita com essa situação, pois Braun agora detinha todos os direitos de suas gravações originais.

Para contornar a situação, ela decidiu regravar suas músicas antigas e lançá-las sob seu próprio controle. Essas novas versões são identificadas como (Taylor’s Version), indicando que são as versões regravadas e controladas pela compositora.

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Partindo deste pressuposto, a professora Elly McCausland, da Universidade de Gante, na Bélgica, criou um curso de literatura que explora a obra da cantora Taylor Swift e a relaciona a autores clássicos como William Shakespeare e Sylvia Plath.

A inspiração para o curso veio dos paralelos que McCausland percebeu entre as músicas de Taylor e a literatura. Por exemplo, ela vê semelhanças entre a letra da música The Great War e a forma como Plath escreveu sobre a brutalidade da guerra.

McCausland pretende mostrar aos alunos que, mesmo que esses textos pareçam difíceis à primeira vista, podem ser compreendidos sob uma nova perspectiva. Ela argumenta, também, que Shakespeare aborda muitas das mesmas questões que Taylor Swift em suas músicas.

Professora Elly McCausland durante aula de literatura sobre Taylor Swift.
Professora Elly McCausland durante aula de literatura sobre Taylor Swift. | Foto: Damon de Backer / Divulgação

O curso não é apenas destinado aos fãs da cantora, pois a professora espera receber pessoas de todas as áreas, incentivando o pensamento crítico em relação ao trabalho de Swift, mesmo para aqueles que possam considerar o assunto frívolo.

No entanto, as aulas de literatura inspiradas na cantora pop norte-americana não estão tão distantes quanto possam parecer. Amanda Resende, professora de literatura em Belo Horizonte, utiliza as músicas de Swift para ensinar alunos do ensino fundamental e adolescentes em cursos preparatórios para a faculdade na capital mineira.

“Comecei a utilizar as músicas da Taylor, pois percebi que, além da minha geração, ela também tinha conquistado os mais novos. Os adolescentes de hoje também são fãs de Taylor, tal qual os de 2010.

Posso apresentar uma comparação de sua música, como Love Story, com um trecho de Romeu e Julieta, assim como posso apresentar uma escola literária como o romantismo, com as letras das músicas ‘Lover’ ou ‘Willow’, pois elas têm características usadas neste período literário”

Apesar de a docente ser declaradamente fã do trabalho de Swift, ela destaca que os resultados vão além de sua satisfação pessoal ao utilizar suas canções favoritas como método de ensino. Amanda notou melhorias no desempenho de seus alunos, e acredita que isso tenha a ver com a nova dinâmica de ensino.

“Eu sempre tento trazer algo para o ensino com que o aluno possa se identificar.

Lembro que em minha época de escola, eu me dedicava sempre com mais entusiasmo em uma atividade que envolvia algo que eu gostava ou conhecia, pois fugia do básico, das mesmas abordagens de sempre, com exemplos rasos e textos não tão interessantes e genéricos.

Sinto isso em meus alunos também, até os que não gostam muito do assunto, se empenham mais em realizar as atividades propostas, ler os textos, e produzir os seus próprios. Tem sido eficaz e divertido, até agora”.

A arte, em todas as suas formas e manifestações, tem o poder de tocar não apenas os cinco sentidos físicos do corpo humano. Para além da visão, audição, tato, olfato e paladar, o ser humano é movido por sentimentos, e é exatamente isso o objetivo da arte.

Vivemos em um mundo cada vez mais tecnológico, no qual as novas gerações têm perdido o interesse no universo literário, onde envolver-se com as histórias dos personagens parece mais lento e entediante do que assistir a um vídeo de 15 segundos em uma nova rede social.

Contudo, ainda existem artistas que transformam suas experiências literárias em obras de arte, que, por vezes, inspiram outras criações, desencadeando uma reação em cadeia.

E ainda há quem diga que as músicas de Taylor Swift são banais e carentes de profundidade. Talvez Shakespeare, Carroll, Fitzgerald, Brontë e vários outros autores emblemáticos pensariam diferente. Como uma fã de Taylor Swift e uma leitora ávida desde a infância, digo abertamente: obrigada por tudo, Taylor!

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Uma jornalista apaixonada por música, literatura e cinema. Seus maiores hobbies incluem criar playlists para personagens fictícios e falar sobre Taylor Swift nas redes sociais.
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