Evermore: a arte como uma âncora perante as angústias da vida

Evermore: a arte como uma âncora perante as angústias da vida

Recentemente, Taylor Swift anunciou o lançamento de seu nono álbum de estúdio, intitulado Evermore. A cantora afirmou que o trabalho é uma obra irmã de seu álbum anterior, o Folklore, lançado em julho deste ano. Embora siga um estilo semelhante ao de seu antecessor, o Evermore atesta uma maturidade artística impressionante para um período de tempo tão curto. 

O Evermore é mais um passo profundo na floresta de onde o Folklore floresceu. Repleto de uma inovação artística certeira para a carreira de Taylor, o álbum vagueia por diversos estilos e gêneros musicais, advindos tanto das colaborações que a artista fez durante a produção do álbum quanto da grande reinvenção pela qual a cantora tem passado. 

Leia também >> Folklore: os tempos nostálgicos de Taylor Swift

O trabalho de Aaron Dessner, que produziu quase todas as faixas do álbum, é marcante. Desde o Folklore: Sessões no Long Pond Studio é possível ver o quanto o processo criativo que une Taylor e Dessner gerou um nítido impacto positivo no trabalho da cantora. Se antes o intimismo, a melancolia e o storytelling apareciam de forma tímida, balanceados por músicas agitadas e dançantes, agora Taylor explora o melhor de si com uma profundidade completamente nova.

”Eu raramente tive esse tipo de química com alguém na minha vida — sermos capazes de escrever juntos, de criar tantas belas músicas juntos em um período de tempo tão curto, eu creio que vamos continuar nas vidas artísticas e pessoais um do outro.”

— Aaron Dessner sobre trabalhar com Taylor Swift, entrevista para a Rolling Stone

Taylor Swift - Folklore
Taylor Swift (Créditos: Beth Garrabrant)

Contando histórias através da música

As canções do Evermore transitam por diferentes aspectos da melancolia. A perspectiva feminina sobre casamentos em crise é um tema recorrente no álbum. A canção “Ivy” retrata um amor proibido onde o eu lírico, uma mulher casada, se vê envolvendo-se irremediavelmente em um romance do qual não consegue escapar. A arrasadora “Tolerate It” narra o dilema de uma mulher em um relacionamento em ruínas onde seu parceiro a trata mal apesar de todos os seus esforços.

Leia também >> Joni Mitchell: uma imortalidade controversa

Já “No body, no crime” é, segundo a própria Taylor, fruto de seu interesse em histórias sobre crimes. Na música, uma mulher vinga a morte de sua amiga, assassinada pelo marido infiel. Sendo uma das poucas canções do álbum cujo tema não é centrado na melancolia e sim, na vingança, o feat com o grupo HAIM é uma narrativa envolvente e misteriosa que contribui para a montanha-russa emocional do Evermore

Montanha-russa esta que passa pelo amor puro e sublime de “Gold Rush”, uma música delicada sobre estar apaixonado e inseguro. A admiração tímida da canção, uma das primeiras do álbum, contrasta com o término cheio de ressentimento e superação de “Closure”, uma das últimas faixas.

Da melodia angelical de “Gold Rush” até as batidas quase violentas de “Closure”, que transparecem a raiva cantada, o Evermore consegue ser conciso e experimental ao mesmo tempo, transitando pelas muitas identidades que Taylor assume para entregar um resultado final cuja própria identidade é muito bem demarcada. 

A cantora Taylor Swift em sua nova era
Taylor Swift (Créditos: Republic Records/Divulgação)

A capacidade de Taylor de assumir diferentes perspectivas para contar as mais variadas histórias resulta em um álbum diverso e repleto de temas abrangentes. Os romances juvenis que marcaram o Folklore continuam a aparecer no Evermore, dessa vez com as canções “Dorothea” e “‘tis the damn season“, o romance de Natal que os fãs não sabiam que queriam até ouvirem. 

Leia também >> “Folklore: Sessões no Long Pond Studio” e a nova fase de Taylor Swift

Em ‘’’tis the damn season’’ o ouvinte é introduzido à perspectiva de uma jovem celebridade que volta à sua cidade, Tupelo, para passar o natal na casa dos pais. Lá, ela encontra um amor dos tempos de escola, que a faz repensar suas escolhas. Quando canta “And the road not taken looks real good now” (“e a estrada não escolhida parece muito boa agora”, em tradução livre), Taylor representa um rememorar conhecido de formas diferentes por todos os ouvintes.

Na perspectiva de uma jovem imaginando uma outra vida para si mesma, tomando em sua mente escolhas que não tem coragem de concretizar na vida real, ela pergunta ao público “que decisões fazem você mais feliz?”. A melancolia natalina de “‘tis the damn season” ressalta; talvez essa seja a estação certa para seguir seu coração.

Através do mesmo recurso utilizado no álbum anterior, Taylor só finaliza a narrativa em ‘’Dorothea’’, onde o outro lado do romance é contado. Na canção, o outro elo da história tenta convencer sua amada a ficar em Tupelo, onde é mais feliz. O final do romance fica a cargo da interpretação do ouvinte, deixando no ar qual estrada será seguida pelos protagonistas da história.

Evermore: da tristeza invernal à felicidade agridoce

O Evermore também conta com canções de partir o coração. Uma delas é “Happiness”, uma narrativa repleta de angústia e saudosismo sobre um término de um relacionamento de sete anos. Na música, Taylor discute a maturidade de perdoar e ser perdoada, e de reconhecer que a felicidade causada por algo que acabou não é invalidada pela necessidade de seguir em frente. 

É muito difícil ouvir as canções dos trabalhos mais recentes de Taylor e não pensar sobre as músicas autobiográficas do começo de sua carreira. A comparação é quase inevitável entre as experiências pessoais narradas de forma quase explícita em seus álbuns mais antigos e as músicas enigmáticas, repletas de diferentes interpretações e simbologias escondidas que permeiam o Evermore. É quase como se os trabalhos do começo da carreira de Taylor fossem diários cantados por ela, enquanto a nova fase artística da cantora parece entoar histórias vividas em sua mente e coração, tão distantes e ao mesmo tempo tão próximas daquilo que os fãs conhecem. 

Taylor Swift no clipe de "Willow"
Taylor Swift no clipe de “Willow” (Imagem: Reprodução)
Leia também >> Miss Americana: feminismo e amadurecimento na jornada de Taylor Swift

E quando se pensa nos trabalhos mais antigos de Taylor, vale destacar que ela perdeu os direitos sobre os seus seis primeiros álbuns, que equivalem a mais de uma década de carreira, quando saiu da gravadora Big Machine Records. A cantora irá regravar todos os seis álbuns em breve. Apesar disso, o atual comprador de suas músicas tem direito a todo o lucro dos primeiros anos da carreira de Taylor, que também encontrou barreiras para performar suas próprias músicas. 

Embora ainda não esteja disponível oficialmente nas plataformas de streaming de música, a letra de uma das canções da versão deluxe do Evermore foi compartilhada pelos fãs que já receberam o álbum físico. “It’s time to go” narra o momento em que Taylor decidiu sair da gravadora.

Fifteen years, fifteen million tears

Begging ’til my knees bleed

I gave it my all, he gave me nothing at all

Then wondered why I left

Now he sits on his throne in his palace of bones

Praying to his greed

He’s got my past frozen behind glass

But I’ve got me

(Quinze anos, quinze milhões de lágrimas

Implorando até meus joelhos sangrarem

Eu dei tudo de mim, ele não me deu absolutamente nada

E depois se perguntou por que eu parti

Agora ele senta em seu palácio de ossos

Orando para sua ganância

Ele tem meu passado congelado atrás de um vidro

Mas eu tenho a mim mesma)

Leia também >> Lover: os recomeços sagrados de Taylor Swift

Taylor já produziu, nos últimos dois anos, metade do número de álbuns que perdeu. Em “It’s time to go” ela reforça o quanto ter a si mesma é mais importante para sua carreira do que tudo o que ela perdeu. O Evermore atesta seu desejo de continuar fazendo o que ama pelo resto de seus dias. É um produto agridoce que lembra de muitas formas que, embora a tristeza seja inevitável, a arte é uma âncora que ajuda a transpor todas as angústias. 

Uma das canções mais belas e tristes do álbum, “Marjorie”, carrega o nome da avó de Taylor, e é um tributo a ela. A música narra a permanência da vida mesmo após a morte, através das saudades e do aprendizado que foi deixado por alguém querido.

I should’ve asked you questions

I should’ve asked you how to be

Asked you to write it down for me

Should’ve kept every grocery store receipt

‘Cause every scrap of you would be taken from me

Watched as you signed your name Marjorie

All your closets of backlogged dreams

And how you left them all to me

(Eu devia ter te feito perguntas

Eu devia ter te perguntado como ser

Pedido que você escrevesse para mim

Devia ter guardado todas as listas de compras

Porque cada pedaço seu seria tirado de mim

Assistido enquanto você assinava seu nome Marjorie

Todos os seus armários de sonhos acumulados

e como você deixou todos eles para mim)

O Evermore também foi uma doce surpresa que Taylor entregou aos fãs perto de seu aniversário de 31 anos. O lançamento de um álbum com uma premissa bastante semelhante ao anterior é uma escolha corajosa, especialmente levando em consideração como a indústria da música quase descarta mulheres artistas após uma certa idade, exigindo que elas se reinventem constantemente. Mas os trabalhos de Taylor carregam seu amor pela vida e pela arte, procurando transpor as barreiras que lhes são impostas. 

Taylor Swift no photoshoot do álbum Evermore
Taylor Swift (Créditos: Republic Records/Divulgação)
Leia também >> Reputation: a velha Taylor definitivamente não está morta

Cantando suas angústias através das histórias, narrando outros mundos através das músicas, Taylor entrega um ímpeto de seguir fazendo o que ama pelo resto de sua vida, e esperando que continue viva após morrer, através daquilo que deixou para trás. “What died didn’t stay dead” (“O que morreu não permanece morto”, em tradução livre), e todas as coisas prosseguem em um estado onírico através da arte, que carrega todos os amores, dores, arrependimentos e saudades em um eterno folclore. Quando depositados na música, os sentimentos assumem um caráter coletivo, passam a pertencer também a quem escuta se apropria deles. 

Na última faixa, um feat com Bon Iver homônimo ao álbum, Taylor canta “I had a feeling so peculiar/This pain wouldn’t be for evermore” (“Eu tive um sentimento tão peculiar/Essa dor não ia durar para sempre”, em tradução livre). Nem os amores frustrados, nem os corações partidos e nem mesmo a morte serão eternos, mas são eternizados na música. E embora a vida constantemente acabe podando todos como se fossem salgueiros, canções como as contidas no Evermore lembram que é possível crescer de novo, cada vez mais forte.


Edição e revisão por Isabelle Simões.
Publicidade

Escrito por:

30 textos

Formada em Jornalismo. Gosta muito de cinema, literatura e fotografia. Embora ame escrever, é péssima com informações biográficas.
Veja todos os textos
Follow Me :