Afinal de contas, o que é ser um Witcher? - DELIRIUM NERD
Afinal de contas, o que é ser um Witcher?

Afinal de contas, o que é ser um Witcher?

Talvez não exista uma figura com maior ar de mistério em The Witcher do que… Eles. Os Witchers, caçadores de monstros, crianças abandonadas, pequenos deixados para trás em tempos de fome e guerra. Levados a um treinamento cruel que envolve nada menos do que uma transformação completa de seus metabolismos. Para se tornar um deles, é preciso sobreviver a uma bateria de testes nada acadêmicos. Quer dizer, há muito conhecimento científico envolvido na criação de um Witcher, mas “Os Testes” aos quais eram submetidos, foram, por fim, proibidos por sua crueldade. Não eram muitos os sobreviventes. Apenas uma ou outra criança, jovem adolescente, conseguia completar seus testes e, por consequência, ter a vida transformada para sempre.

Muito do que sabemos sobre a criação e o treinamento dos Witchers vem do esforço dos fãs, que se debruçam sobre as páginas dos livros para juntar informações. Sabemos que Geralt de Rívia cresceu dentro da Fortaleza de Kaer Morhen, lar da Escola do Lobo. Os livros de Andrzej Sapkowski também mencionam a Escola do Gato, além de aparecer o Medalhão do Grifo, numa suposta referência à Escola do Grifo.

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No conto “Voz da Razão”, Geralt especificamente menciona que seu medalhão simboliza sua Escola de Origem. Já a Escola do Gato tem referência direta nos quadrinhos originais poloneses – e um Witcher da Escola do Gato aparece em “Tempo de Tempestade”, o último livro da série (que se passa em outra linha temporal).

As diferentes Escolas dos Witchers

Consideremos então que, para termos literários, apenas as Escolas do Lobo, do Gato e do Grifo fazem aparições. No entanto, a CDPR expandiu o Universo com outras Escolas que atraem muita atenção dos jogadores. São elas: Víbora, especializada em assassinos; Escola do Urso, que detém enorme estamina e força, da Mantícora, especializada em alquimia; e Crane, que parece ser especialista em combates marítimos e aéreos. Mesmo a “Ordem dos Witchers” é algo fabricado para aprofundar a história dos jogos— lembrando que o autor concedeu direitos, então, de certo modo, os fãs gostam de aceitar elementos dos jogos como parte oficial do Universo.

Sendo um Witcher

Henry Cavill como Geralt de Rivia em The Witcher, série da Netflix.
Henry Cavill como Geralt de Rivia em The Witcher, série da Netflix I Imagem: reprodução
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Nas palavras de Jaskier: “O que é um Witcher? Pergunte para várias pessoas, e receberá várias respostas.” Um Witcher pode ser considerado uma espécie de mago de baixo escalão, já que só consegue fazer uso de sinais e algumas outras habilidades que explicaremos mais adiante. A sociedade os trata como párias pois são poderosos demais para confraternizar, e esperam pagamento em troca de seus serviços.

Apesar da má fama, nem todos os momentos são ruins. A Escola do Grifo, por exemplo, é conhecida pelo cavalheirismo e pela honra de seus membros. E a verdade é que, enquanto a maioria da Elite despreza os Witchers, mercadores e moradores locais possuem opiniões bastante variadas.

Alguns gostam deles, acham que são apenas uma espécie de serviço público. Pessoas que lidam com pragas, por assim dizer. Mas aqueles já salvos por um Witcher costumam tê-los em grande apreço, e em troca oferecem preços bons e acomodações em estalagens – ainda que seja algo raro. Ainda mais raras são as informações sobre o início de tudo.

O começo de tudo: a Conjunção das Esferas

A Conjunção das Esferas em The Witcher
Imagem: reprodução

No princípio, o Continente não era dominado por humanos, mas sim pela natureza e pelos elfos. E então, 1.500 anos antes dos eventos narrados pelos livros, aconteceu a Conjunção das Esferas: um cataclismo fatal, uma junção entre realidades e mundos paralelos que acabou prendendo elfos, humanos e criaturas letais no mesmo local.

Para os elfos, aquilo foi o início de seu extermínio. Sua magia enfraqueceu, e conforme os anos passaram, os homens deixaram de cumprir os tratos feitos entre eles. Mas não se engane, em Witcher, elfos detestam humanos de forma recíproca. Inclusive, após a Conjunção, tratavam bruxos e bruxas como anomalias, pois consideravam errado o sangue de um humano ter permissão para invocar magia elemental. A rivalidade entre homens e elfos ocasionou outro desastre.

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Dizem os especialistas que, após a Conjunção, os homens foram dizimando os elfos pouco a pouco… Mas sendo dizimados pelos monstros. Algumas criaturas se adaptaram muito rapidamente ao seu novo lar, e logo desenvolveram apetite por carne humana. Por muito tempo foi difícil sobreviver, e o homem precisou mudar para evitar virar presa. Cidades inteiras readaptaram sua arquitetura. Agora, muralhas, fortes e torres eram mais comuns. E um dia, o homem resolveu usar a magia que tanto odiava para se defender.

Muitos métodos eram apenas crendices tolas, mas outras de fato funcionavam. O cenário não poderia ser mais caótico: morte nas ruas, toques de recolher, pais e mães perdendo seus filhos, crianças crescendo órfãs. Nem mesmo os pequenos escapavam da crueldade de algumas criaturas motivadas pela sede de sangue. Vampiros, lobisomens e, os seres letais tornaram urgente uma mudança no modo do homem operar. E foi assim que meninos por aí começaram a desaparecer.

Antes meninos, agora Caçadores

The Witcher - Netflix
Cena de The Witcher I Imagem: Netflix

Mas agora eles foram levados para treinamentos. Na realidade, os primeiros treinos eram bem mais um teste físico do que outra coisa, mas isso mudou quando a feitiçaria entrou em cena.

De acordo com Jaskier, a magia é muito certamente o motivo pelo qual as Mutações e o Trial of the Grasses conseguiram algum sucesso. Nem nos livros, nem no material da CDPR, é possível descobrir quem teve a ideia inicial dos testes ou como foram elaborados. Conhecemos apenas a tortura pela qual essas crianças passaram em nome de ser um Witcher.

Treinamentos rígidos, dias sem comer, aprender o galope, estudar magia sem a certeza de que um dia conseguiria usar, castigos físicos e cicatrizes cobrindo o corpo inteiro desde a jovem infância. Mesmo assim, o mais trágico era ver aquele grupo de meninos formando uma amizade, uma união, apenas para a grande maioria deles morrer na última parte do Teste. Um Witcher conhece o luto muito cedo, e lida com ele para sempre.

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Primeiramente, apenas infusões de ervas são utilizadas. Mas, conforme eles vão resistindo, o processo ganha força, e poções poderosas entram no sistema dos outrora humanos, transformando-os em mutantes, de metabolismos completamente alterados, ou cadáveres, almas inocentes perdidas pela situação terrível do mundo. Dentre as consequências dos testes em sua fase final, temos febre, suores, ilusões, diarreia, vômito e delírios. O nosso amado Geralt de Rívia, aliás, foi um dos mais resistentes aos testes, apesar de perder toda a pigmentação de seus cabelos.

Geralt de Rivia em The Witcher. Imagem: Netflix
Geralt de Rivia em The Witcher I Imagem: Netflix

Os que sobrevivem ao procedimento são recompensados com habilidades peculiares, como conseguir dominar certos elementos de magia, ter resistência à ela, sentidos melhorados, cicatrização acelerada, dentre outras qualidades que assustam muitos por onde passam. Aliás, esse é um dos maiores dilemas de Geralt: enquanto alguns gostam de causar medo ou fascínio, nosso protagonista detesta ser um mutante.

O Carniceiro de Blaviken aceita sua condição, mas compreende os homens: eles estão ao seu lado apenas enquanto você obedece suas leis. Talvez por isso mantenha tanta distância emocional de muitos – ou ao menos tente, já que ele deve ser o Witcher com o maior número de amigos e acompanhantes já nascido. Mesmo assim, isso não mudou seu desfecho. Talvez os Witchers achassem que ganhariam mais respeito caso a população os temesse. Mas o medo causa pânico, horror e neuroses. Revoltas.

Amando um Witcher

Geralt e Yennefer I Imagem: Netflix

E foi assim que surgiu o ódio pelos caçadores de monstros: outrora heróis, agora tachados de sem coração, condenados a viver uma vida solitária entre monstros que às vezes parecem mais empáticos do que os humanos pelos quais trabalham.

Homens treinados para matar Monstros que ameaçavam a sociedade, vagarosamente, foram colocados no mesmo nível de tais criaturas perigosas. Tudo isso pela falta de diálogo, medo do diferente e ganância. Não, o comportamento de certos Witchers não ajudou na fama deles como um grupo, mas era um período onde o preconceito estava em ascensão. Primeiro, os Monstros. Depois, Witchers. Em seguida, as Feiticeiras. E é nisso que o autor sucede: trabalhar com a premissa de que o homem não sabe lidar com o que lhe é estranho, e não consegue, por um segundo, abrir mão de ser o mais forte.

A saga de Geralt de Rívia é uma trágica Jornada do Herói, onde ao encontrar amor e família, ele também percebe que a frieza do mundo não tem fim. E para isso nem suas poderosas poções oferecem cura.


Edição, revisão e arte em destaque por Isabelle Simões.

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Escrevo onde meu coração me leva. Apaixonada pelo poder das palavras, tentando conquistar meu espaço nesse mundo, uma frase de cada vez.
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