Miss Americana: feminismo e amadurecimento na jornada de Taylor Swift
Miss Americana: feminismo e amadurecimento na jornada de Taylor Swift

Miss Americana: feminismo e amadurecimento na jornada de Taylor Swift

Miss Americana é um documentário original Netflix dirigido por Lana Wilson. Lançada em 31 de janeiro de 2020, a obra conta diversos aspectos da vida e da carreira da cantora e compositora norte-americana Taylor Swift. Ao abordar diversos temas complexos e delicados, o resultado é um relato emocional e impactante.

Assumindo uma narrativa intimista, o documentário guia o público através de facetas inesperadas da artista. Sem perder o foco, “Miss Americana” consegue debater temas polêmicos de forma centrada. Fica claro que Lana Wilson soube muito bem quais questões enfatizar sem que a obra perdesse a essência original ー as transformações que fizeram de Taylor a mulher que ela é hoje. 

Dessa forma, “Miss Americana” traz um debate político intrínseco, que é a consequência máxima dessas transformações. Sob a ótica do amadurecimento de Taylor para questões sociais, há um espaço para a mensagem definitiva ー a esperança em uma geração que busca a mudança.

Taylor Swift no documentário "Miss Americana".
Taylor Swift no documentário “Miss Americana”. (Imagem: Netflix/divulgação)

Amadurecimento e intimismo em “Miss Americana”

Taylor Swift cresceu envolvida com o mundo da música. Ela seguiu esse sonho desde muito cedo e, em “Miss Americana”, deixa claro como era importante para ela ser reconhecida. Porém, mais do que isso, a artista amava a ideia de ser amada pelo público, e essa ideia orquestrou seu comportamento diante da mídia por muito tempo.

Alternando entre entrevistas antigas de Taylor (ou discussões de outras pessoas, anônimas e famosas, falando a respeito dela), a narrativa mostra o quanto a cantora via a si mesma como alguém que deveria ficar calada. Ela refere-se a si própria como uma menina boa, que sorri, agradece e permanece em silêncio. 

No entanto, esse silêncio não é fruto de uma ausência de opiniões, mas da ideia de que uma menina que guarda seus posicionamentos para si é amada por todos. Ainda assim, essa ‘’conduta exemplar’’ não foi capaz de proteger a artista de todos os problemas e polêmicas que a seguiriam em sua carreira.

A polêmica com o rapper Kanye West na premiação VMA em 2009, onde o artista tomou o microfone de Taylor e disse que Beyoncé era quem merecia o prêmio, foi o primeiro abalo na bolha de aprovação que Swift tentava com tanto afinco manter. Polêmica esta que se estendeu anos depois, com a música Famous.

Leia também >> Annie Lennox: música, ativismo e mudança no mundo há 43 anos
Taylor Swift em Miss Americana
Cena de “Miss Americana”. (Imagem: Netflix/divulgação)

Apesar de tudo a respeito da polêmica envolvendo Famous ter gerado uma longa discussão por muito tempo, Lana Wilson opta por tomar outro caminho em “Miss Americana”. A abordagem foca em como esse momento mudou a forma como Taylor passou a ver sua relação com o público e com a mídia. A artista relata o impacto da perda completa do controle sobre a fama ー e, consequentemente, a própria estabilidade emocional.

A partir disso, os anos seguintes serão ainda mais complicados para Taylor. Ela será cada vez mais estereotipada, especialmente por conta dos vários relacionamentos amorosos que teve ao longo de sua carreira. Em um momento muito delicado, a cantora fala sobre ter sofrido com distúrbios alimentares. Em busca do corpo perfeito e de atingir um padrão ideal, ela revela que costumava ficar sem comer por longos períodos de tempo, e que muitas vezes pensou que iria desmaiar no palco. 

Um dos pontos mais positivos em “Miss Americana” é a amplitude do documentário. Embora essencialmente intimista, a narrativa aborda temas que impactam coletivos. Um desses temas é a forma como artistas femininas são tratadas pela mídia. Taylor fala sobre como todas as mulheres no mundo da música precisam se reinventar constantemente para seguirem fazendo sucesso. Diferente dos homens, elas precisam parecer lindas, interessantes e ousadas de uma forma que não incomode ninguém. 

Suas vidas e corpos são meros entretenimentos, feitos para nunca enjoar. O conteúdo de suas obras deve ser inovador mas nunca subversivo. Caso contrário, elas serão descartadas e esquecidas. E mesmo que atinjam todos os padrões, elas ainda serão vistas como obsoletas pela mídia assim que passarem dos trinta anos.

Leia também >> Lizzo: sobre se sentir bem pra c#*@lho
Taylor Swift na turnê Reputation Tour (Imagem: Miss Americana/Netflix/divulgação)

Para vencer esses obstáculos e viver uma vida feliz e saudável consigo mesma, Taylor precisou passar por um processo de amadurecimento ー não apenas pessoal, mas na produção de suas obras também. Assim surgem músicas como Shake it Off e Blank Space, onde a artista dá os primeiros sinais de uma nova abordagem para com as polêmicas que a cercam. 

A artista enfrenta os estereótipos fazendo com que eles encarem suas próprias falhas. Além disso, ela ironiza os comentários que a criticaram durante anos por ter muitos namorados, sem perceber que esse tipo de crítica também era sexista ー o que mostra que Taylor era afetada pelas coisas às quais ela escolheu lutar contra antes mesmo que ela se posicionasse abertamente.

Assim, o modo como Taylor encara sua imagem perante a mídia se reflete de forma diferente das expectativas advindas da ideia da ‘’garota perfeita’’ que a artista costumava performar. O documentário “Miss Americana” é a culminação dessa transição que foi fortalecida com as produções do álbum Reputation.

O impacto dos artistas no âmbito político

Outro momento extremamente importante e delicado do documentário é o relato de um assédio sexual sofrido pela cantora. Taylor denunciou o assediador e foi processada pelo mesmo, mas acabou ganhando o processo. Ao relatar sua experiência no tribunal, ela conta que o processo todo é humilhante, e que a vítima é constantemente pressionada e desacreditada. Taylor finaliza o relato questionando o quão piores são os casos onde vítimas de estupro têm apenas a sua palavra contra a do estuprador.

Essa violência é um dos motivos pelos quais a cantora decidiu passar a se posicionar politicamente, após uma carreira inteira de silêncio. Ela se manifesta contra a, na época, candidata a senadora Marsha Blackburn, uma republicana que Taylor chama de ‘’Trump in a Wig’’ (Trump de peruca).

Esse momento é a transição mais interessante de todo o documentário. O relato que inicialmente apresenta a busca por atender à uma necessidade de ser vista como boa, sem fazer nada além de performar um estereótipo para isso é então abandonada. O empenho por uma conduta positiva real passa então a assumir riscos, e há a compreensão definitiva do que realmente significa fazer a coisa certa.

Embora tanto Blackburn quanto Trump tenham vencido as eleições, a resistência contra o governo vigente norte-americano não foi desmantelada. Em uma reflexão que vale para qualquer país que enfrente um governo problemático, “Miss Americana” reforça mais uma vez o impacto dos artistas nessa causa. É inegável a influência que artistas como Taylor possuem na sociedade, e urge para que estes passem a apoiar uma luta que envolve completamente a arte.

Leia também >> Mozart in the Jungle: as mulheres no mundo da música clássica
Taylor Swift no documentário Miss Americana
Taylor Swift abraçando sua mãe. Cena do documentário “Miss Americana”. (Imagem: Netflix/divulgação)

Além disso, essa transição abre espaço para outra questão. Um dos pontos mais importantes e que fica como reflexão e alerta é o fato que motivou Taylor a levar anos para revidar contra os comentários que a estereotipavam, para reagir aos padrões impostos pela mídia e para se posicionar politicamente. A ideia de que, ao permanecer calada, ela seria eternamente a moça bondosa cujo trabalho é reconhecido e a imagem é respeitada. Essa ideia, se potencializada ao ponto em que a grande maioria das meninas e mulheres possam se identificar (outro feito louvável do documentário, por sinal, visto que se identificar com a vida inatingível de uma personalidade mundialmente famosa e milionária é, no mínimo, complicado) se resume em uma mentira assustadora; a crença perturbadora de que há algo que as mulheres possam fazer para evitar a misoginia

Essa crença de que as roupas, a conduta e o silêncio vão proteger uma mulher da violência estrutural é reforçada na bolha do show business, no qual Taylor foi criada. Apenas revidando e resistindo, os grupos historicamente oprimidos podem desconstruir a opressão que os persegue. O silêncio perante a violência é exatamente o que os executores da repressão almejam. 

“Miss Americana” surpreende com um trunfo definitivo, uma mensagem que ultrapassa Taylor e busca atingir a geração da qual ela fala em Only The Young. Essa memória constante da resistência precisa ser reforçada, para que qualquer pessoa possa continuar usando rosa, ouvindo Taylor Swift e lutando por seus direitos e entender, assim como Taylor entendeu, que sua voz importa ー e muito.


Edição e revisão por Isabelle Simões.

Escrito por:

26 Textos

Estudante do curso de Jornalismo. Gosta muito de cinema, literatura e fotografia. Embora ame escrever, é péssima com informações biográficas.
Todos os textos
Follow Me :