Annie Lennox: música, ativismo e mudança no mundo há 43 anos

Annie Lennox: música, ativismo e mudança no mundo há 43 anos

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Conhecida principalmente pela performance histórica de cabelos laranjas e terno no videoclipe de “Sweet Dreams (Are Of This)” de 1983, Annie Lennox tem uma voz de alcance e timbre inconfundíveis que embala melodias, ativismo político e quebra de estereótipos há mais de 40 anos.

A música nos primeiros anos

Escocesa da cidade de Aberdeen, Ann Kathleen Lennox nasceu no Natal em 1954. Uma década antes de se tornar conhecida mundialmente como parte do duo Eurythmics, sua carreira na música começa ao ganhar uma vaga para frequentar a Royal Academy of Music de Londres, onde estudou por três anos flauta, cravo e piano.

Apesar de estudar na Academy ser considerado um grande prestígio, Annie vivia como bolsista estudantil e precisava trabalhar em diversos empregos de meio período para conseguir se manter na cidade e seguir com os estudos. Em uma entrevista, anos depois, ela conta como trabalhar como garçonete, bartender e vendedora de loja, quando não estava no trabalho musical, era cansativo e como contribuiu para que todo o tempo em que estivesse estudando ali fosse questionado: para onde direcionaria seus esforços?

Foto de Annie Lennox, que é uma mulher loira, com cabelo curto, e olhos verdes
Annie Lennox mais jovem (Foto: reprodução)

Nesse meio tempo, a cantora também participou em diversas bandas locais. Por volta de 1976 ela tocava flauta na banda Dragon’s Playground, mas saiu antes que a banda se tornasse famosa. Foi após esta saída, entre 1976 e 1980, que Lennox participou da banda The Catch, que mais tarde mudou de nome e se tornou a The Tourists – onde conheceu e começou sua colaboração musical com Dave Stewart.

O duo Eurythmics

Apesar da The Tourists ter alcançado certo sucesso comercial, estar na banda trazia muitas tensões e não era considerada uma experiência feliz – principalmente porque Lennox e Stewart sentiam que a dinâmica fixa da banda não permitia que eles pudessem exercer os seus processos criativos e experimentais musicalmente. Com o entendimento de que queriam além com a música pop, os dois saíram da banda.

O duo Eurythmics em apresentação
O duo Eurythmics em apresentação (Foto: reprodução)

O Eurythmics nasce de uma brincadeira com um mini-sintetizador entre os dois num quarto de hotel na Austrália. Após a experiência na banda anterior, Lennox e Stewart decidem ser os únicos membros da banda e que ali seria o espaço para experimentação. O primeiro álbum do duo, “In The Corner”, é lançado em 1981, com misturas entre o psicodélico, o pop eletrônico e de um tipo muito específico de rock alemão que ganhava força à época. E, apesar de não ter sido um sucesso comercial, a experiência do álbum trouxe a eles a certeza de continuar com a banda.

Sweet Dreams (Are Made Of This) e a fama 

Com a vontade de produzir novas músicas, o duo se entregou a uma produção exaustiva e cheia de sacrifícios pessoais, que acabou prejudicando a saúde dos dois. Stewart foi hospitalizado à época por um problema grave no pulmão, enquanto Lennox teve um colapso nervoso.

Porém, a reviravolta comercial do duo acontece com seu segundo álbum, em 1983. “Sweet Dreams (Are Made Of This)” se tornou um sucesso estrondoso ao redor do mundo, principalmente pelo icônico videoclipe da faixa-título do disco: com uma Lennox de cabelo laranja curtíssimo e trajando um terno com ares dramáticos, a música trazia uma poderosa vibe dark ao synthpop do duo, com linhas de baixo que rapidamente ganharam o público.

Annie e Dave com o figurino do clipe de "Sweet Dreams"
Annie e Dave com o figurino do clipe de “Sweet Dreams” (Foto: reprodução)

A composição em si, como Lennox explica anos depois em uma entrevista, nasce da colaboração entre ela e Stewart, logo após uma série de términos em suas vidas – deixar a The Tourists e o término do relacionamento amoroso que os dois viviam, apesar de continuarem trabalhando juntos. Uma expressão de sua vulnerabilidade e de como encerrar sonhos em busca de outros transformou Annie em uma pessoa desesperançosa na época. “Sweet Dreams”, consagrada como um hino, recoloca a cantora, a partir do duo, em um novo fôlego para a música.

A partir do sucesso do álbum e da aclamação comercial, o Eurythmics não demorou em lançar uma sequência. “Touch” é lançado ainda no mesmo ano e se torna o primeiro disco da banda a alcançar o número 1 no UK Album Charts – com destaque para os três singles adicionados aos clássicos do duo: “Who’s That Girl?”, “Right By Your Side” e “Here Comes The Rain Again”.

Eurythmics
Eurythmics (Foto: reprodução)

Agora, querido pelo público cativo e conquistando novos ouvidos, o apelo do Eurythmics surge através da qualidade de experimentação musical e das novas formas de mixagem que o duo descobriu. Mas também se sustentava com força na presença física e vocal de Annie, que se convertia em um símbolo de transgressão e nova representatividade para o tipo de estilo musical que produziam: uma mulher à frente de músicas potentes e reclamando seu lugar de direito nos palcos.

“Diva” e o início da carreira solo de Annie Lennox

Annie em representação do disco "Diva"
Annie Lennox em representação do disco “Diva” (Foto: reprodução)

Seguindo o estrondoso sucesso que alcançaram com o segundo e terceiro álbum, o Eurythmics lançou oito álbuns de estúdio em apenas oito anos, até 1990, e manteve incontáveis agendas de tour e apresentações. É em cerca de 1991 que Lennox, principalmente, decide se afastar das produções do duo: focando em sua vida pessoa – prestes a ter um bebê – e considerando pensar no que sua carreira vai além do Eurythmics.

Em 1992, ela lança seu primeiro álbum solo, “Diva”, com uma recepção positiva e recorde imediato ao lançamento. A Rolling Stones chega a categorizar a produção como um “estado da arte da alma do pop” ao incluí-lo em sua lista de álbuns essenciais da década de 90. Alcançando platina dupla e ganhando o Álbum do Ano do Brit Awards, é deste disco que saem os hits “Why, “Little Bird” e “Walking on Broken Glass” – e o b-side “River Deep, Mountain High”.

“Why”, especificamente, o primeiro single do disco e solo de Annie, é uma música extremamente pessoal para cantora. Introvertida e a maior crítica de si mesma, Annie, nessa fase, ainda questionava se seria capaz de produzir música sem um duo, longe de Stewart. A composição da canção parte deste sentimento de dúvida de sua capacidade de ser uma artista completa sozinha, de produzir e compor músicas por si mesma – e pela dúvida de que poderia continuar com a vida artística em carreira solo. A canção inteira demorou 10 minutos para ser composta, num fluxo de desabafo de Lennox.

Annie Lennox
Annie Lennox (Foto: reprodução)

Seguindo o sucesso de Diva, Lennox lança mais quatro álbuns solos nas duas décadas seguintes: “Medusa”, “Bare”, “Songs of Mass Destruction”, “A Christmas Cornucopia” e “Nostalgia”. No meio deste período, em 1999, Annie também retorna sua colaboração com Dave Stewart no Eurythmics para o álbum “Peace”, de onde saem os singles “I Saved The World Today” e “17 Again”.

Cada vez mais estabelecida musicalmente, Lennox começa a gravar também para diversas trilhas sonoras de produções audiovisuais – incluindo “Into the West”, gravada para “O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei”, que lhe rendeu ambos o Globo de Ouro e o Oscar de Melhor Canção Original.

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Símbolo de ativismo

Para além da carreira musical, que já chega a 43 anos de produção, e de ter se solidificado como uma das maiores artistas da atualidade, Annie Lennox ainda se apresenta como uma figura importante no ativismo e na luta por representatividade e direitos equitativos internacionalmente. Já em 1988, a cantora participou do concerto de 70 anos de Nelson Mandela. E a partir da década de 80, no auge da luta contra a AIDS, Lennox se apresenta como uma das principais figuras no combate ao preconceito em busca de prevenção e tratamento adequados para a doença – principalmente na situação de mulheres e meninas na África, continente massivamente afetado pela doença. Ela também atua como uma das maiores apoiadoras e defensoras dos direitos LGBTQ+, sendo muitas vezes considerada um “ícone gay”.

Nelson Mandela e Annie
Nelson Mandela e Annie usando uma de suas camisas em defesa da prevenção da AIDS (Foto: reprodução)

Em 2019, Annie Lennox transforma toda a sua trajetória humanitária e suas experiências ao percorrer o mundo em ações, com uma nova representação artística de sua personalidade. Se seus álbuns já traziam um quê de pessoal sempre que a cantora permitia, a exposição “Agora eu deixo você ir…” é uma mostra explícita do pedaço de si que Lennox ainda escondia. A pilha de 250 metros é construída com objetos e pertences que Annie acumulou ao longo dos anos pelos sete mares onde andou – e trazem uma reflexão respeitosa sobre a morte, como a cantora conta em suas entrevistas.

Nesta nova fase, onde ela se abre ainda mais, Lennox segue a linha de “Sweet Dreams”, em 1982, ou de “Dark Road”, em 2007, onde consegue reverenciar sentimentos e reflexões que consideramos, muitas vezes, obscuros com respeito e afeto. Vegetariana, ativista, produtora, cantora e dona de uma voz inconfundível e potente que, apesar do medo, ousou arriscar em todos os seus anos de carreira, Annie Lennox é um símbolo da potência sutil entre a fama e a busca pela mudança no mundo.


Edição e revisão por Isabelle Simões.

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Autora

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Jornalista, fotógrafa, feminista e lésbica cearense. Ariana torta e viciada em qualquer série, filme ou livro que tenha mulheres amando mulheres, tem voltado sua atuação à defesa dos direitos humanos e à luta por visibilidade e representatividade lésbica. Não dispensa uma pizza ou uma balinha de gengibre das que vendem no ônibus. Nas horas vagas se atreve a escrever ficção científica.
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