Nan Goldin e a intimidade acolhedora na fotografia

Nan Goldin e a intimidade acolhedora na fotografia

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Falar de arte é falar de si. Por conta disso, é uma abertura à vulnerabilidade da qual muitas artistas não dão conta. Definir uma forma de arte é também o ato de assumir o risco de suas criações contradizerem as suas palavras, e nem todas estão preparadas para isso. Mas esse perigo não se concretiza nas palavras de Nan Goldin. Ao resumir seus pensamentos sobre a fotografia, ela também estaria, em algum nível, resumindo a essência de sua obra.

Nascida em Washington no ano de 1953, a fotógrafa judia cresceu em uma família de classe média alta, em Boston. Aos 11 anos, perdeu sua irmã, Barbara, para o suicídio. Para Goldin, a morte de Barbara teve relação com a repressão que esta encarava em casa – e na sociedade – por sua sexualidade. Como mulher, qualquer comportamento sexual era visto como amedrontador, e Barbara, na concepção da Nan, viu no suicídio sua única saída.

Nan Goldin
A fotógrafa Nan Goldin. (Foto: reprodução)

Como nunca perder alguém

A morte de sua irmã foi uma das primeiras perdas que Goldin sofreria no decorrer da vida, e um de seus motivos para pegar uma câmera pela primeira vez, aos 15 anos. “Eu costumava achar que eu nunca perderia alguém se conseguisse fotografá-lo o suficiente”, Goldin declararia mais tarde. Essa obsessão pela captura do momento cru e nu, em sua forma mais real e honesta possível, a acompanharia por toda a sua carreira.

A primeira apresentação solo de um projeto da fotógrafa foi em 1973, em Boston. Suas imagens retratavam a cena gay e trans da cidade, tema que ela tornaria a explorar muitas vezes. Bissexual e desesperada pelo gosto da liberdade que sua irmã não conseguiu experimentar, Goldin se tornou uma parte ativa da cena vibrante pós-Stonewall dos anos 70 e 80, envolvendo-se com a subcultura pós-punk que brincava com o gênero e abraçava as drogas pesadas.

Nan, em um auto-retrato perturbador.
Nan Goldin em um auto-retrato perturbador. (Foto: reprodução)

Foi nessa época que Goldin formou seu grupo de amigos, que chamava de “sua tribo”. Ela fotografava suas vidas rotineiras, registrando, em suas imagens, um olhar intimista e cheio de empatia para um estilo de vida que muitos teriam encarado com repulsa. Em 1985, essas fotos culminaram no que é até hoje seu trabalho mais famoso, “The Ballad of Sexual Depencency”.

A obra, originalmente um slideshow que Goldin preparou para seus amigos ao som de artistas como James Brown e Nina Simone, foi publicada em 1986 como um livro, com a ajuda do editor Mark Holborn.

O olhar empático de Nan Goldin

Em Ballad, a paixão de Goldin pela honestidade ganha um novo significado. Com cores densas e um olhar intimista, imagens ganham vida, compondo um verdadeiro diário visual da vida da artista naquele momento. O conjunto é cheio de melancolia e afeto, criando um retrato que, mesmo em seus momentos mais duros, parece abraçar os sujeitos retratados por inteiro, ao invés de observá-los de fora. Não é à toa, então, que uma das imagens mais emblemáticas de Ballad é um auto-retrato da própria Goldin com um olho roxo (foto anterior), na manhã seguinte após sofrer um espancamento por seu então namorado.

Para mim, não é um distanciamento tirar uma foto. É uma forma de tocar alguém – é uma carícia. Acho que você pode realmente dar às pessoas acesso às suas próprias almas.” – Nan Goldin

"Ballad" carregaria imenso valor histórico.
“Ballad” carrega um imenso valor histórico. (Foto: reprodução)
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Para além de seu teor intimista, porém, Ballad também carrega um imenso valor histórico, representando uma rara documentação interna da subcultura queer estadunidense antes da crise da AIDS dos anos 80. As fotografias de Goldin retratam seus amigos se montando, andando de carro após um show, fumando e exibindo suas identidades e sexualidades com uma casualidade que beira o desafio.

Esse retrato de uma existência tão gloriosa como decadente se torna ainda mais duro dentro do contexto histórico das perdas em massa que aquela comunidade estava prestes a sofrer. Em entrevistas posteriores, a fotógrafa afirmou sofrer de “culpa de sobrevivente”, admitindo sentir-se terrivelmente culpada quando, em 91, seu teste de HIV teve resultado negativo.

As mudanças no cenário de Nan Goldin

“The Ballad of Sexual Depencency” está longe de representar toda a extensão do trabalho da artista. Depois, ela ainda publicaria os livros “I’ll be your mirror”, em 1998, e “The devil’s playground”, em 2003. Esse último incorpora imagens de novos locais que passaram a fazer parte da vida de Nan nesse meio tempo, incluindo, no lugar de velhos bares e pubs, suítes de hotel elegantes, terraços e praias.

A partir de 1989, Goldin se afastou das drogas, passando por um tratamento de reabilitação. Um dos reflexos dessa mudança de vida foi a adição da luz natural que passou a utilizar em suas fotografias, já que elas não eram mais tiradas à noite ou em quartos fechados.

Sua obra mais recente, “Eden and After“, foca em imagens de crianças, uma mudança extrema das imagens muitas vezes explícitas pelas quais ficou famosa. Mesmo assim, em todas as fotos é possível perceber o estilo de Nan Goldin, cuja natureza espontânea e desdém por fotos planejadas, afetivamente deu início a um novo estilo de fotografia, inspirando uma legião de fotógrafas, como Corinne Day e Ryan McGinley.

As fotos de crianças mantém o estilo intimista e espontâneo de Goldin.
As fotos de crianças mantém o estilo intimista e espontâneo de Goldin. (reprodução)

O legado de Nan Goldin, portanto, é grande demais para ser medido objetivamente, mas poucos e poucas são capazes de reproduzir, para além da espontaneidade, o nível de empatia presente em toda sua obra. Ao abraçar a honestidade através da fotografia, Goldin retratou, além das imagens, suas emoções e vida, criando, com isso, um corpo de trabalho que realmente traz a sensação de toque.


Edição e revisão por Isabelle Simões.

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Autora

Formada em História, Fernanda é escritora e trabalha com tradução, legendagem e produção de conteúdo. Gosta de games, quadrinhos e filmes. Passa a maior parte do tempo falando do seu cachorro ou do MCU.
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