Louise O’Neill: “quero que minhas palavras empoderem jovens mulheres”

Louise O’Neill: “quero que minhas palavras empoderem jovens mulheres”

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Nas profundezas dos mares, uma pequena sereia chamada Gaia desperta do silenciamento da sua voz e do seu reino de ilusões. Um local opressor onde a figura do pai, o poderoso Rei dos Mares, vigia e oprime a ela e às suas irmãs. As sereias são vigiadas a todo instante. Precisam cuidar da aparência e das roupas, como bonecas impecáveis. Nos bailes da sociedade promovidos pelo Rei, elas desfilam como bibelôs e demonstração da posse do pai perante os olhares masculinos. Gaia, a protagonista da história que carrega o nome da deusa da Terra na mitologia grega, faz jus ao significado e importância do seu nome e pretende quebrar esse ciclo de opressão e despertar uma verdadeira revolução tanto em seu reino quanto na superfície. 

Conversamos com Louise O’Neill, a autora irlandesa de “A Pequena Sereia e o Reino das Ilusões“, que foi publicado recentemente pela editora Darkside Books, pelo selo DarkLove. Ela nos contou um pouco sobre o processo de criação e suas principais influências, além de comentar sobre a importância da releitura de contos de fadas como esse para os tempos atuais. O seu livro é uma releitura feminista do conto “A Pequena Sereia”, de Hans Christian Andersen, publicado originalmente em 1837. Confira a entrevista!

Foto: Isabelle Simões / Delirium Nerd

1. Por que você escolheu recontar a história da Pequena Sereia? Você gostava da história quando era criança ou ficou incomodada com alguma coisa nela?

Louise O’Neill: Uma editora na Scholastic me encomendou essa história. Dado o quão ocupada eu estava com outros projetos, a resposta lógica deveria ter sido um simpático não. No entanto, eu hesitei. Conversei com meus pais e listei as inúmeras razões pelas quais eu deveria recusar a oferta, eles assentiram sorrindo mas também hesitaram. “O que vocês estão pensando?”, perguntei. E eles responderam em uníssono: “É A Pequena Sereia. Essa é a sua história”.

Eu tinha sido obcecada por essa história durante a infância, mas quando examinei tanto o filme da Disney quanto o conto original na adolescência com uma sensibilidade mais amadurecida, se tornou cada vez mais claro pra mim que ambos eram extremamente problemáticos vistos de uma perspectiva feminista. Fala sobre silenciar mulheres para que possam ter um relacionamento. Ela sacrifica sua família, sua casa, ela mutila seu corpo para se tornar mais atraente para o homem que ama. Como uma jovem que passou fome, ao ponto de ser hospitalizada, só para atender aos padrões de beleza arbitrários da sociedade, essa história nunca havia sido tão tragicamente relevante pra mim. Comecei a me perguntar sobre o impacto que esse tipo de história teve em mim quando era pequena. Será que meu amor pela Disney, pelas Barbies e pela série “Aí Galera?” (Sweet Valley High) contribuiu com o meu desejo desesperado por ser magra e bonita, me colocando assim no caminho para a anorexia?

Capa do livro “A Pequena Sereia & O Reino das Ilusões”, de Louise O’Neill (Imagem: Darkside Books/divulgação)

2. Em muitos contos de fada existe um machismo disfarçado muito forte. E são histórias que muitas de nós já ouviram. Nós internalizamos as mensagens e acreditamos que elas são verdades universais. Meninas, por exemplo, devem sonhar com o príncipe encantado (nunca com a princesa, diga-se de passagem) num cavalo branco. No seu livro, você critica muitas mensagens que estão por trás desses contos clássicos, como vimos ao longo do processo com a nossa pequena sereia. Como foi o processo de escrever o livro? Você se inspirou em algum trabalho ou autor?

Louise O’Neill: Foi tão divertido escrever esse livro! Foi uma das experiências mais agradáveis que eu já tive e senti que tive uma vantagem quando comecei, porque eu sabia os pontos principais que a narrativa iria abordar. Me inspirei muito em “A Câmara Sangrenta”, de Angela Carter, que é deliciosamente mórbido, perverso e feminista, que alfinetou tantos contos de fadas de forma deslumbrante.

3. Nossa cultura já disseminou uma imagem muito negativa da bruxa, do arquétipo da mulher que não segue o padrão de beleza “desejável” pelos homens, que é extremamente vingativa e perigosa. Mas essa imagem está mudando ao longo dos anos. No seu livro, a personagem da Bruxa do Mar desconstrói esse arquétipo. Como foi o processo de criar essa personagem e suas companheiras Rusalka? Você se inspirou em outras mulheres ou figuras históricas?

Louise O’Neill: Sem dúvida, eu amei escrever a Ceto e estava muito determinada a observar a maneira sexista com que as “bruxas” são retratadas em contos de fadas. Essas histórias parecem sugerir que, conforme uma mulher envelhece (e “perde” o seu “valor de troca social”, pressuponho), especialmente se ela não é casada, tudo que ela pode fazer é ir para a margem da sociedade e conspirar para destruir as vidas de mulheres mais bonitas e jovens. É um estereótipo tão reducionista e eu quero mostrar que, sim, Ceto vai para a margem da sociedade, mas porque ela se recusa a seguir as regras restritivas dessa sociedade. Ela quer viver de uma maneira que seja fiel a si mesma.

Os Rusalka vêm da mitologia eslava, claro, mas como uma mulher irlandesa, eu me inspirei muito nas mulheres solteiras que eram atiradas nos Asilos de Madalena (instituições que existiram entre o século XVIII e o final do século XX e eram chamadas de casas de “mulheres perdidas”) caso ficassem grávidas e pelas mortes trágicas que muitas delas sofriam em nome de um deus sagrado.

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Louise O'Neill
Imagem: Darkside Books/divulgação

4. Em outra entrevista você mencionou que seu pai te educou para ser uma guerreira, não uma princesa. Isso te ajudou a identificar os abusos aos quais meninas são sujeitadas na infância e na adolescência? Você conversou com amigos sobre isso? Qual mensagem você gostaria de deixar para os pais de meninas?

Louise O’Neill: Eu tive mesmo dificuldades na adolescência. Sofri com anorexia e bulimia por anos e fui hospitalizada quando tinha 21 anos. Foi só na fase adulta que comecei a remexer nessas mensagens que eu tinha internalizado, sobre como uma mulher deve ser e se comportar e perceber o quão prejudiciais elas eram, o quanto elas impactaram meu bem-estar mental e emocional.

Eu tenho amigos que hoje têm filhas bem novas e meu conselho para eles é: tentem desafiar as pressões sociais que nos fazem julgar a nós mesmos com base no nosso corpo e, em vez disso, foquem no que está dentro nós. Se vocês conseguirem fazer isso, estarão ensinando às suas filhas a fazer o mesmo.

5. Eu adoraria ter lido esse livro quando era adolescente, principalmente por causa dos ideais de beleza e dos desdobramentos gerados por isso (distúrbios alimentares, depressão etc), que são coisas que afetam quase todas as meninas do mundo, que são impostas nelas pela sociedade. Essa preocupação pode inibir a autonomia, a inteligência e o poder dessas meninas durante esse período formativo. Na sua opinião, qual é a responsabilidade que a cultura tem hoje na construção de histórias que desconstroem essa noção prejudicial, principalmente em vista do crescente número de denúncias de assédio e abuso contra a mulher, revelado por movimentos como o #MeToo e Ni Una Menos?

Louise O’Neill: Acredito que todos temos a responsabilidade coletiva de proteger as jovens mulheres que vêm depois de nós e de garantir que elas não vão sofrer o que nós sofremos. Nós temos que expor sempre o comportamento negativo, devemos nos manifestar, devemos nos recusar a ser silenciadas. Como escritora, quero que minhas palavras empoderem jovens mulheres ao invés de humilhá-las. Creio que é importante que outras mídias – TV, revistas etc -, que são destinadas ao público jovem, feminino, façam o mesmo.


A Pequena Sereia e o Reino das Ilusões

Louise O’Neill

Darkside Books

224 páginas, capa dura

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Edição realizada por Gabriela Prado.


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Fundadora e editora-chefe do Delirium Nerd. Revisora. Apaixonada por gatos, café, cinema do oriente médio, quadrinhos e animações japonesas. Ouve muito Harry Styles e cantoras melancólicas.
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