As personagens femininas da Ghibli: Lisa, Ponyo, Setsuko e Nausicaä

As personagens femininas da Ghibli: Lisa, Ponyo, Setsuko e Nausicaä

Compartilhe

Em mais uma continuação desse grande especial em homenagem a um dos maiores estúdios de animação do mundo, vamos abordar alguns dos filmes mais icônicos do estúdio (e que um deles não é bem do estúdio, mas foi colocado como uma carta de amor ao trabalho dos criadores do estúdio Miyazaki e Takahata). Como já tão bem detalhado nos textos passados (veja aqui todos do especial), o estúdio Ghibli quebra os padrões do que normalmente era produzido em animações, principalmente retomando a época de sua criação, por volta dos anos 80. Suas animações estão dispostas a questionar todas as estruturas de como uma animação era feita.

Em vez de apenas criar visuais bonitos e narrativas superficiais para entreter crianças, seus longas propõem reflexões acerca da sociedade, seja criticando a forma que a indústria trata o meio ambiente, como mencionado em “Princesa Mononoke”, ou como a estrutura patriarcal trata as mulheres, como visto em “O Conto da Princesa Kaguya”. Mas não apenas isso, o estúdio quebra a regra de que as grandes aventuras apenas seriam protagonizadas por garotos. Dessa forma, iremos abordar alguns dos icônicos filmes que fizeram parte da história do estúdio Ghibli, sempre em uma perspectiva de como as personagens femininas são retratadas nos longas.

Lisa e Ponyo, de “Ponyo” (Hayao Miyazaki, 2008)

Ghibli
Imagem: Ghibli/divulgação

O filme, que recebeu inspiração do conto da “Pequena Sereia“, de Hans Christen Andersen, e rendeu a terceira nomeação ao Oscar consecutiva do estúdio, conta a história de Sosuke, que é um garotinho que vive com sua mãe em uma cidade portuária. Um dia, enquanto brincava na beira do mar, o menino encontra um peixinho dourado com a cabeça presa em um pote de vidro, a quem dá o nome de Ponyo, a levando para casa. Só que Ponyo é uma das filhas da “Mãe dos Mares”, juntamente a um mago poderoso chamado Fujimoto.

O pai de Ponyo é extremamente abusivo e superprotetor com seus filhos, de forma que restringe ao extremo suas liberdades, não os deixando se aventurar ou se relacionar saudavelmente com o mundo externo com medo de que os humanos os machuquem. Ele demonstra por suas atitudes odiar os humanos, justamente pela maneira como eles poluem os mares, e, um dia, deseja dizimá-los da Terra, com o Oceano tomando conta de todo o planeta. Sabendo que uma de suas filhas fora capturada por um pescador, ele consegue resgatá-la dos cuidados de Sosuke, porém a visão de mundo da “menina” já não é mais a mesma. Ponyo desenvolve uma amizade muito forte com Sosuke e não quer mais viver presa com seu pai, transformando-se, assim, a partir de seus poderes e com ajuda de uma poção de seu pai, em humana para que possa viver com seu novo amigo.

Ghibli
Cena de “Ponyo” (GIF: Ghibli/reprodução)

No entanto, suas pretensões fazem com com que a maré suba intensamente, o que ocasiona que a água passe a cobrir toda a cidade de Sosuke, e somente o garoto e Ponyo possuem o poder de restaurar a normalidade, a partir de uma demonstração de amor puro. O filme, assim como “Meu Vizinho Totoro”, não tem a pretensão de criar uma história cheia de complexidades e enredos elaborados; na verdade, estes pretendem contar uma trajetória simples e amável e, como característica principal, tem em si a sensação de aventura e descoberta típica dos olhos de uma criança, tão presente nos filmes do Miyazaki.

Uma das situações que mais chamam atenção logo no início do filme é a quantidade de poluição que existe nos oceanos e como essa sujeira afeta diretamente a vida dos seres que vivem neles. O diretor tem esse traço bem característico de crítica sobre como a sociedade trata o meio ambiente, e apesar de ser um filme bem mais voltado ao público infantil do que “Princesa Mononoke”, também de uma maneira bem mais implícita e discreta, Ponyo pretende despertar a reflexão sobre como manuseamos nosso lixo e sobre como os seres humanos deveriam respeitar os seres que vivem ali.

Ghibli
Cena de “Ponyo” (GIF: Ghibli/reprodução)

Além disso, presenciamos a agitada vida da mãe de Sosuke, Lisa. Miyazaki opta, nesse longa, por abordar um pouco de como se dá o cotidiano da classe média japonesa. Dessa forma, vemos a mãe, que trabalha em um asilo de idosos, e o pai do garoto, que trabalha no oceano e se comunica com a família através de códigos de luz enquanto passa perto da costa. É mostrada a correria do dia a dia, mas o que mais chama atenção é como Lisa lida com a criação de seu filho. Com o pai do garoto sempre distante devido ao seu trabalho, ela acaba realizando o papel de uma mãe solo, o que torna a narrativa ainda mais interessante.

Enquanto provedora da educação e de toda a vida de seu filho, Lisa se vê, muitas vezes, sozinha e há um momento bastante triste nessa perspectiva, que é quando o pai do garoto avisa que não poderá ir para casa naquele momento e ela desaba em meio à estresse e tristeza, até que seu filho a anima com carinho e atenção. Mesmo que bem sutil, a narrativa propõe uma observação sobre o dia a dia dessas mães tão batalhadoras que precisam trabalhar, criar seus filhos e lidar com um relacionamento um pouco complicado.

Ghibli
Cena de “Ponyo” (GIF: Ghibli/reprodução)

Passando para a análise de Ponyo. Tanto ela quanto Sosuke, apesar de suas pequenas idades, são deveras independentes e corajosos, sendo capazes de diversas coisas que nem os próprios adultos naquela narrativa estão. Apesar de todo o ambiente caótico ao redor, os dois mantém a tranquilidade, fazendo o possível para facilitar a resolução daquela situação. Mas apesar de engenhosos e possuírem uma maturidade emocional incomum, os dois ainda são crianças e têm suas limitações, e o diretor demonstra isso lindamente através de pequenos momentos de fragilidade.

Ponyo, enquanto uma menina que vive com um pai extremamente abusivo e controlador, o que é a realidade de milhares de garotas ainda hoje, foi capaz de se libertar daquela realidade através do seu esforço e da sua luta contra aquela situação. Mesmo que de uma maneira um pouco fantasiosa e divertida, devido ao tom propriamente do filme, é possível que a espectadora veja naquela situação uma protagonista muito forte que foi capaz de tornar-se independente e correr atrás do que ela queria, que era se tornar humana, mas não meramente por um amor, por uma amizade, mas para ter sua liberdade e vivenciar o amor. E apesar de ser um filme mais voltado ao público infantil, Ponyo tem vários detalhes que o tornam tão único e da forma mais Miyazaki possível: sútil e com bastante amor. Definitivamente merece ser visto.

Setsuko, de “Túmulo dos Vagalumes” (Isao Takahata, 1988)

Ghibli
Personagem Setsuko, de “Túmulo dos Vagalumes” (Imagem: Ghibli/divulgação)

A animação de 1988, dirigida por Isao Takahata, é considerada um dos maiores e mais reais filmes de guerra de toda a história. “Túmulo dos Vagalumes” foi baseado em um conto semi-autobiográfico do mesmo nome, do autor japonês Akiyuki Nosaka, mas também com roteiro do co-fundador do estúdio, Takahata.

O longa conta a história dos irmãos Setsuko e Seita, que vivem no Japão em meio à conturbada e sangrenta Segunda Guerra Mundial. Após a morte da mãe em um bombardeio e a convocação do pai para a Guerra, eles passam a morar com a tia. Entretanto, com o clima de guerra se intensificando, sua tia passa a tratá-los de maneira hostil e sempre os criticando, fazendo com que eles decidam sair da cidade e com que procurem abrigo em uma floresta, em que lutam contra as doenças e a fome.

Toda a temática do filme gira em torno do processo de desumanização que ocorre durante as guerras – ou até mesmo diariamente. O diretor é bastante explícito ao criticar à forma como a sociedade trata com naturalidade o sofrimento humano durante as guerras, levando até mesmo ao debate que não é apenas durante essas situações que isso acontece. Ainda hoje, a miséria, a dor e as fatalidades não chocam mais as pessoas, pois são tratadas apenas como mais um acontecimento, e esse processo de desumanização, gradualmente, toma conta.

Ghibli
Cena de “Túmulo dos Vagalumes” (GIF: Ghibli/reprodução)

Nesse sentido, o filme inicia com a morte de seu protagonista, Seita, sentado em uma estação de metrô, com diversas moscas pousando em seu corpo, enquanto seu espírito o observa. Enquanto ele começa a apodrecer lentamente, percebe-se que outros tantos corpos se encontram ali, com o mesmo fim trágico, ao mesmo tempo que vigilantes e funcionários daquela estação lidam com o ocorrido de forma ordinária e costumeira, como, infelizmente, era no início do Japão pós-guerra.

Em comparação com “Meu Amigo Totoro”, ambos os filmes abordam a relação entre dois irmãos muito próximos vivenciando momentos complicados em suas vidas, principalmente ligados ao irmão mais velho tentando lidar com seu crescimento, mas também cuidar do mais novo. Mas os filmes são completamente opostos em suas atmosferas. Enquanto “Meu Amigo Totoro” trata da inocência e do crescimento como algo imaginativo e divertido, “Túmulo dos Vagalumes” vem com a mensagem de que a inocência infantil e o crescimento já não são os mesmos durante uma guerra, e é aí que entra Setsuko.

Ao colocar uma garotinha tão jovem e frágil para co-protagonizar com seu irmão uma história tão trágica, Takahata expõe a crueldade humana. Mesmo tão jovem, a menina é corajosa, está a todo momento tentando alegrar o irmão e procura lidar com toda aquela situação da melhor maneira possível, mesmo que seja apenas uma pequena criança. Há o contraste, diversas vezes, entre a inocência de Setsuko com seus vagalumes e sua imaginação em meio a tantas atrocidades.

Ghibli
Cena de “Túmulo dos Vagalumes” (GIF: Ghibli/reprodução)

O filme foca na devastação e essa personagem faz parte de todo o interesse do diretor de demonstrar o vazio das guerras, de que meros conflitos de interesse podem acarretar em sofrimento e desestruturação de famílias e na banalização da vida. Mesmo não sendo tão destacada quanto seu irmão, Setsuko é fundamental para que a mensagem do filme seja transmitida. Toda a atmosfera que é construída da vulgarização do terror que aquelas pessoas vivenciaram, só pode ser compreendida, em suas milhares de camadas, a partir da visão de uma garotinha que precisou lutar bravamente para sobreviver em meio ao caos.

Um dos momentos mais memoráveis do filme é quando os dois personagens se distraem com a beleza dos vagalumes, se esquecendo, brevemente, de como estavam vivendo, lembrando-se apenas dos momentos bons de suas vidas, como uma espécie de ponta de esperança de que estes pudessem voltar a esses tempos. E no outro dia, quando acordam e encontram os animais mortos, isso traduz justamente o que o longa e a personagem representa: “Por que vagalumes tem de morrer tão cedo?”.

Nausicaä, de “Nausicaä do Vale do Vento” (Hayao Miyazaki, 1984)

Ghibli
Nausicaä de “Nausicaä do Vale do Vento” (Imagem: Ghibli/divulgação)

Nausicaä do Vale do Vento” é um filme dirigido por Hayao Miyazaki e produzido pelo seu grande amigo e colaborador Isao Takahta (com quem co-fundou o estúdio Ghibli) para o estúdio Topcraft, de animação japonesa. Apesar da produção deste longa preceder a criação da Ghibli, esse filme posteriormente foi considerado como uma parte da filmografia do estúdio. Não apenas por compartilhar várias semelhanças com algumas das obras futuras do estúdio, mas também por ter sido o principal incentivo para a criação deste, devido ao sucesso crítico e comercial.

O filme conta uma história em que a humanidade se esforça para sobreviver em um mundo que está em ruínas, apresentando nações divididas e isoladas umas das outras pelo chamado “Mar da Corrupção” e por uma floresta tóxica, com plantas e insetos gigantes que emanam gazes venenosos. Dito isso, Nausicaä é a princesa de um pequeno reino chamado Vale do Vento, que procura compreender melhor estas florestas nocivas aos humanos, ao mesmo tempo que tenta, de todas as formas, impedir que duas nações entrem em guerra e se destruam em um planeta agonizante.

A narrativa é pautada em um futuro pós-apocalíptico, mencionado como mil anos após o dito “colapso da civilização industrial”. Devido à negligência e à poluição dos humanos à natureza, a terra está quase toda coberta por este “Mar da Destruição (como pode-se perceber, um tema bastante recorrente nas histórias de Miyazaki), e o filme traz um sopro de humanidade e esperança através de sua protagonista, que é uma líder por natureza e também não mede esforços para salvar seu povo, mesmo com muito sacrifício.

Ghibli
Cena de “Nausicaä do Vale do Vento” (GIF: Ghibli/reprodução)

Ao contrário do resto da população, Nausicaä não teme o Mar da Destruição e seus residentes, insetos gigantes que, quando irritados, passam a destruir tudo pela frente, inclusive a civilização humana. Em vez de simplesmente ter medo deles, afastar-se e apenas combatê-los quando necessário, a protagonista procura compreender e estudá-los, tratando-os com empatia e benevolência, ao contrário dos outros humanos que apenas desejam destruí-los. Vemos aqui uma protagonista extremamente determinada em salvar a humanidade, mas não a partir da destruição, uma solução “fácil” e simples, mas a partir da empatia, do conhecimento e da esperança.

A natureza, nessa situação, resolve reagir, envolvendo o mundo com uma vegetação inóspita para os seres que tanto maltrataram. As cenas que são passadas diretamente nas idas ao Mar da Destruição são as mais visualmente belas e extraordinárias de todo o filme, e talvez umas das mais elaboradas com cuidado e perfeição pelo diretor. A beleza do local contrasta profundamente com o conceito que os personagens possuem daquele ambiente, vendo enquanto um ambiente hostil. E essa dicotomia é proposital, como se, a despeito de toda destruição que os humanos causaram naquele lugar, o mundo estivesse tomando fôlego e se reconstruindo, demonstrado nos visuais mais belos do lugar e, propositalmente, excluindo os seres humanos para que estes não o arruínem novamente.

Ghibli
Cena de “Nausicaä do Vale do Vento” (GIF: Ghibli/reprodução)

Nausicaä talvez seja uma das maiores referências de protagonistas complexas, determinadas e fortes de toda a filmografia do Miyazaki. Em todo o filme, pode-se perceber não apenas como seu espírito e sua personalidade estão dispostos a cuidar de seu povo, ressaltando a importância da humanidade mesmo em uma situação de guerra e milhares de conflitos, mas também como tudo ao redor dela poderia desestimulá-la, principalmente com alguns acontecimentos que são explicitados no início do filme. Mas em vez de apenas desistir, Nausicaä persiste, sendo um símbolo de perseverança para qualquer pessoa que assista. E, como se não bastasse a figura de Nausicaä, assim como Princesa Mononoke, o longa também conta com outras personagens femininas fortes, com falas relevantes e que influenciam diretamente no roteiro, como a Anciã e a antagonista Kushana, que merecem grande destaque.

Leia também:
>> [MANGÁ] A Menina do Outro Lado: uma fábula oriental sobre tolerância, acolhimento e pertencimento
>> [CINEMA] Respiro: a jornada de uma garota no Irã e o cinema de Narges Abyar
>> [QUADRINHOS] Francis: 5 motivos para deixar-se enfeitiçar pela obra de Loputyn

Conclusão

Muitos argumentam sobre a importância do estúdio a partir de uma comparação deste com outros grandes concorrentes, a Pixar e a Disney, como se fossem estas empresas, só que do Oriente, do Japão. Entretanto, essas comparações acabam sendo injustas na perspectiva que, apesar do Ghibli ser uma grande referência das animações no Oriente, assim como a Pixar e a Disney são no ocidente, as empresas se propõem a construir mundos completamente diferentes.

Seus valores e identidades diferem diretamente, principalmente pelo fato de que os produtores da Ghibli se propõem exatamente ao que os estúdios ocidentais de animação não se propõem. Basta pensar nas críticas já mencionadas ao imperialismo norte-americano e na perspectiva da representatividade feminina que a Ghibli se propõe há muitos anos. Enquanto isso, as empresas ocidentais estão em passos lentos e graduais na representação fiel e justa das mulheres. O estúdio lida com o gênero e o sexo feminino de uma forma muito sadia, com intenções não apenas de lucrar, mas de produzir arte representativa e justa, colocando mulheres fortes e inteligentes enquanto protagonistas, em uma posição de poder.

Ghibli
Cena de “Túmulo dos Vagalumes” (GIF: Ghibli/reprodução)

Nausicaä, Ponyo, Lisa, Setsuko são símbolos de força e de grande representatividade do que as indústrias devem buscar e de como devem retratar as mulheres. Tais personagens são ótimas referências e instrumentos para que possamos reivindicar novas formas de representação à indústria cinematográfica, numa perspectiva de que questionam, mesmo que sucintamente, toda a estrutura que fala que meninas não podem ser protagonistas de suas próprias histórias, questionadoras do seu tempo, independentes, corajosas, fortes e inteligentes.


Edição realizada por Gabriela Prado e revisão por Isabelle Simões.


Compartilhe

Autora

Estudante de Direito, nordestina, pode falar sobre Studio Ghibli e feminismo por horas sem parar, amante de cinema e literatura (ainda mais se feito por mulheres), pesquisadora, acumuladora de livros e passa mais tempo criando listas inúteis do que gostaria.
Veja todos os textos
Follow Me :