Floresta dos Medos: contos góticos sobre assombrações reais que nos cercam

Floresta dos Medos: contos góticos sobre assombrações reais que nos cercam

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A autora canadense Emily Carroll sempre gostou de inventar histórias. Nascida em London, Ontario, no Canadá, em 1983, começou escrevendo contos, mas não se achava boa o suficiente para mostrá-los a alguém. Mas ela enfrentou a síndrome da impostora e criou um site, onde suas primeiras histórias foram feitas para serem lidas através das telas, como conta em entrevista quando criou a história “Margot’s Room”, onde a leitora interage com parte do cenário. Seu trabalho logo chamou atenção e passou a fazer parte de diversas antologias publicadas.

Em 2010 ela resolveu criar sua primeira história em quadrinhos, intitulada “Through the Woods”. Publicada em 2014, seu quadrinho de estreia lhe rendeu, em 2015, um dos prêmios mais conceituados do mundo no universo dos quadrinhos, o Eisner Award (de Melhor História Curta), além de levar no mesmo ano os prêmios Ignatz e o British Fantasy Awards. Com tradução de Bruna Miranda para o português, a premiada obra de Emily Carroll finalmente chega ao Brasil pela editora DarkSide Books, com o título “Floresta dos Medos: Histórias Assombrosas por Emily Carroll“. Mas, afinal, do que se trata essas histórias que prometem trazer um “frio na espinha”, como ressalta a edição brasileira?

A ambientação gótica em “Floresta dos Medos”

Todas nós sabemos que Mary Shelley foi a percursora da ficção científica. Ela (apenas) criou o monstro mais famoso mundo, no livro “Frankenstein“. Até mesmo quem nunca leu este clássico, conhece o tal monstrão através de alguma adaptação audiovisual ou de alguma referência em outras obras da cultura pop. Ao lermos “Floresta dos Medos” notamos diversas referências que Emily Carroll utilizou para a elaboração de seus contos macabros, e podemos afirmar que Mary Shelley ficaria orgulha de conferir este quadrinho! Desde a ambientação, onde todos as cinco histórias são situadas em séculos passados, adentramos em algumas épocas onde não havia ainda eletricidade e a imagética do terror e do mistério expressada através desses locais escuros, provoca uma sensação sufocante, aumentando a nossa percepção do isolamento e do medo que os personagens principais experimentam.

Todas as histórias presentes em “Floresta dos Medos” são originais, apesar de inspiradas em alguns personagens de contos de fadas antigos. Há, por exemplo, uma história que remete ao conto do Barba Azul, escrito por Charles Perrault, como podemos ver na segunda história de Emily Carroll intitulada “As Mãos de uma Moça São Frias”, que conta a história de uma moça que casa-se com um nobre que esconde um grande segredo. Ela também traz uma personagem inspirada na Chapeuzinho Vermelho, uma garotinha que caminha numa sombria floresta sombria e costura, ao final da obra, todos os contos ilustrados.

Em entrevista para a revista Room Magazine, Emily Carroll chegou a comentar inclusive sobre a similaridade de sua história “As Mãos de uma Moça São Frias” com o conto sobre o Barba Azul, da autora Angela Carter – também tradutora de contos de fadas que fogem das versões com finais felizes que foram ressignificadas pelos Irmãos Grimm – , e afirma que apesar de não ter lido sua obra na época que escreveu essa história, há, de fato, algumas semelhanças, apesar de serem histórias diferentes. Posteriormente, a autora teve a curiosidade de conferir os escritos de Angela Carter e tornou-se grande admiradora de suas obras. As histórias ilustradas em “Floresta do Medos” resgatam o sombrio e o macabro das versões originais e viscerais dos contos de fadas, explorando o medo através dos diversos estágios do perigo e do mal.

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O protagonismo feminino em “Floresta dos Medos”

Sabemos que o terror é explorado muitas vezes através de personagens femininas, seja no audiovisual ou na literatura. Diversos filmes slashers, por exemplo, trazem personagens sexualizadas, mulheres seminuas que fogem ensanguentadas do perigo, filmes que, muitas vezes, escondem mensagens misóginas e machistas. Mas em “Floresta dos Medos” não vemos personagens sexualizadas, e sim meninas e mulheres corajosas que enfrentam seus medos interiores. Com exceção do conto “Seu Rosto Todo Vermelho”, os 4 contos, do total de 5, trazem histórias com protagonistas femininas.

O perigo expressado na obra de Emily Carroll vai muito além de assombrações ou fantasmas. Acompanhamos narrativas de personagens que, por trás da imagética fantasiosa do terror, enfrentam assombrações reais, como o luto da perda da mãe, a revelação de um marido violento, uma garota que quer ajudar sua melhor amiga que se isola cada vez mais, – fazendo alusão a transtornos mentais -, ou o medo que as mulheres enfrentam no mundo real, como expressado no primeiro conto “A Casa do Vizinho” (imagem acima), onde 3 irmãs se veem sozinhas em casa quando o pai sai para caçar e desaparece.

A floresta como representação dos medos que carregamos

O arquétipo da floresta como um local assombrado e aterrorizante já foi manifestado em várias obras aclamadas do terror, como podemos lembrar do recente filme “A Bruxa”, de Robert Eggers. A floresta é o fio condutor de todas as narrativas do quadrinho de Emily Carroll. Nela que o sombrio e os “lobos” malvados se encontram. Todas as personagens são conduzidas, em algum momento da história, para uma floresta. E é através deste encontro que suas personagens se fortalecem, pois é quando elas enfrentam os diversos estágios do medo, que se tornam sobreviventes. Afinal, não somos sobreviventes quando passamos por perigos e medos manifestados seja pela crueldade humana ou por doenças físicas e mentais?

Na mesma entrevista para a Room Magazine, Emily Carroll chegou a comentar que a intenção de suas histórias não é trazer a derrota final sobre o mal daquilo que a personagem enfrenta, – como em um jogo, onde percorremos diversas fases para enfrentar o vilão na última fase -, mas sim evocar uma reação emocional de mal-estar ao visualizarmos como o medo é refletido em suas personagens. 

Temas como isolamento, sobrevivência, inveja e culpa passam por todos os contos. E a autora explica o porquê de tais assuntos combinarem com a estética do horror em sua obra: “Eu sempre digo às pessoas que os principais assuntos abordados nos meus trabalhos são a inveja e a culpa, e culpa por essa inveja. Eu acho que isso combina com o horror. Você pode matar o lobisomem com uma bala de prata, mas você não pode matar o seu ressentimento profundo em relação ao seu filho ou ao seu irmão. Essa é a verdade emocional das minhas histórias.” [tradução livre]

A edição da Darkside Books

A edição em capa dura da DarkSide Books é de encher os olhos! Quando adquirida pela loja oficial da editora, ainda recebemos postais exclusivos. Ao passarmos as mãos pela capa, na frente e no verso, sentimos os ramos das árvores em relevo. A capa contém a imagem de uma das personagens do quadrinho, caminhando pela paisagem gélida de uma floresta, remetendo às paisagens claras e carregadas de neve no Canadá, local onde a autora Emily Carroll mora atualmente com seu gato laranja e sua esposa. 

Floresta dos Medos” é uma obra sobre os lobos que nos cercam diariamente, sempre à espreita para nos assustar e nos colocar em perigo, mostrando que é possível enfrentá-los quando reconhecemos a nossa própria força, mesmo quando nos dizem que somos fracas e incapazes.

É comum do vocabulário machista utilizar a imagem de uma menina para expressar vulnerabilidade e fraqueza. “Você chora como uma garota”, “você se assusta como uma menininha”. A obra de Emily Carroll mostra que é normal sentir medo de algo e expressar essa vulnerabilidade, seja menina ou menino. Se na introdução da obra acompanhamos uma garotinha lendo sob a luminária de seu quarto e assustada por ter que esticar a mão e apagar a luz do seu quarto, no final, vemos a mesma garotinha preparada para enfrentar os diversos lobos na sua caminhada diária pela floresta.


Floresta dos Medos

DarkSide Books

Autora/ilustradora: Emily Carroll

Tradutora: Bruna Miranda

208 páginas

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Fundadora e editora-chefe do Delirium Nerd. Revisora. Apaixonada por gatos, café, cinema do oriente médio, quadrinhos e animações japonesas. Ouve muito Harry Styles e cantoras melancólicas.
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