A Menina do Capuz Vermelho: a mulher sob o olhar dos contos de fadas selecionados por Angela Carter

A Menina do Capuz Vermelho: a mulher sob o olhar dos contos de fadas selecionados por Angela Carter

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Histórias fantásticas existem desde os tempos mais remotos com a função de entreter, ensinar e, em muitos casos, amedrontar e moralizar quem as ouve. Os contos de fadas são ramificações dos mitos presentes em diversas culturas e, como consequência, carregam em si as características de seus povos de origem. Passadas oralmente e de geração para geração, contos como “Branca de Neve” e “Chapeuzinho Vermelho” permeiam o imaginário nostálgico de todas as pessoas, sem que suas características de origem sejam mencionadas – e isso inclui o papel das mulheres em civilizações antigas.

A escritora inglesa Angela Carter (1940 – 1992), no livro “A Menina do Capuz Vermelho e outras histórias de dar medo” traduziu para o inglês contos de diversas partes do mundo e que possuem muito em comum: os denominados arquétipos (o Príncipe, a Princesa, a Bruxa, a Madrasta), que são figuras importantíssimas na construção da narrativa e estão presentes em boa parte dos enredos.

“Embora este trabalho se apresente como um livro de contos de fadas, os leitores encontrarão poucas fadas nas páginas que se seguem; já animais falantes, muitos. Seres que são, em maior ou menor medida, sobrenaturais; mas fadas mesmo são raras, porque a expressão contos de fadas é uma figura de linguagem, usada de forma bastante livre, para descrever o grande volume de narrativas infinitamente variadas que eram e ainda são oralmente transmitidas e difundidas mundo afora (…).”

(Angela Carter, Introdução à A Menina dos Capuz Vermelho)

A autora mostra que, apesar de a maioria das pessoas conhecer apenas as versões dos Irmãos Grimm ou da Disney dos contos clássicos, é de extrema importância ir ao cerne de encantadoras narrativas que, apesar da magia característica, podem conter eventos grotescos e assustadores (derivando daí as origens “sombrias” ou “sangrentas” dos contos de fadas).

Fora isto, na maioria dos contos de fadas, o comportamento das mulheres gira ao redor da fuga de uma situação problema, que culmina em uma solução relacionada a um ou mais homens. Ao analisar rapidamente o conto Cinderela, por exemplo, observamos uma garota órfã maltratada pela madrasta e suas filhas, e vindo a libertar-se quando conquista o amor do príncipe cobiçado por todas.

A relação “mulheres como rivais e homens como salvadores da pátria” é uma constante nestas narrativas, uma vez que os ideais de sociedades antigas, logo após a descentralização do poder matriarcal, passaram a elencar mulheres em grupos de “submissas, puras e desejáveis” e “poderosas, donas de si (logo, malvadas)”. A figura da madrasta má, ora tida como mãe, também reforça a ideia de que dentro das próprias relações familiares entre mulheres a inveja e a maldade necessariamente precisam existir, uma vez que um ideal de beleza e juventude eternas é almejado.

“Não organizei esta coletânea a partir de fontes tão heterogêneas para mostrar que no fundo todas somos irmãs, membros da mesma família humana, apesar de algumas poucas diferenças superficiais. (…) A intenção primeira era demonstrar a extraordinária riqueza e a diversidade de respostas à mesma condição comum – estar viva – e a riqueza e a diversidade com que a feminilidade, na prática, é representada na cultura ‘não oficial’: suas estratégias, suas tramas, seu trabalho árduo.”

(Angela Carter, Introdução à A Menina dos Capuz Vermelho)

Ao nos depararmos com a antologia organizada por Carter, vemos um sem número de mulheres que, ao mesmo tempo em que enfrentam as problemáticas de sociedades patriarcais, também tentam a qualquer custo possuir voz e enfrentar a vida, seus monstros e mazelas. Por mais que em muitas delas o casamento seja uma válvula de escape para os tormentos do lar, por exemplo, as mulheres de “A Menina do Capuz Vermelho” são muito mais vivas e ativas do que as princesas de versões romantizadas posteriormente. As verdadeiras “histórias de dar medo” citadas no subtítulo da obra são aquelas em que mulheres são obrigadas a casar com os próprios pais, sofrem abusos por parte dos maridos e precisam passar por diversas provações no intuito de conquistarem um pouco de felicidade e paz interior.

“O fato de eu e muitas mulheres vasculharmos livros em busca de heroínas de contos de fadas é uma manifestação do mesmo processo – o desejo de legitimar minha reivindicação pelo que me é devido no futuro, deixando claro o que me foi devido no passado.”

(Angela Carter, Introdução à A Menina dos Capuz Vermelho)

Carter atentou-se não apenas em coletar contos europeus, como também inuítes, sudaneses, egípcios, dentre outras nacionalidades e suas vastas gamas de mulheres com perfis diferentes e igualmente interessantes. Destaque para os contos “Sermerssuaq” (inuíte), “O rapaz feito de gordura” (inuíte) e “Duang e sua mulher selvagem” (sudão), por apresentarem mulheres fortes à sua maneira e que em seus próprios contextos desafiaram as ordens do patriarcado em prol dos próprio desejos.

Outro fator muito interessante é observar o eco de muitos contos sob títulos diferentes em histórias consagradas, como Cinderela em “A princesa com roupa de couro” e “Casaco de musgo”, e João e Maria em “O povo com focinho de cachorro”. À medida que os séculos foram passando, as sociedades foram os adaptando, acrescentando detalhes e abrandando muito do que não seria bem visto por crianças, o público-alvo, dando origem às versões famosas nas diversas mídias contemporâneas.

A edição da Penguin Companhia traz uma enorme introdução de Angela Carter acerca do processo de escolha e tradução dos textos, bem como a importância das tradições orais nos aspectos culturais das sociedades. O livro é indicado para o público adulto que possui curiosidade em desvendar o que há por trás das doces versões dos clássicos contos de fadas – e se aventurar por narrativas um tanto medonhas e assustadoras.

Angela Carter escreveu diversos contos e ensaios sobre realismo fantástico e ficção científica. Muitas de suas obras autorais possuem caráter feminista, como na antologia de contos “A Câmara Sangrenta” (The Bloody Chamber), na qual procurou recontar os contos de fadas por um viés desconstruído e empoderador.


A Menina do Capuz Vermelho A Menina do Capuz Vermelho e outras histórias de dar medo

Organizadora: Angela Carter

Penguin Companhia

142 páginas

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É estudante de Letras e fã incondicional de Neil Gaiman – e, parafraseando o que o próprio autor escreveu em O Oceano no Fim do Caminho, “vive nos livros mais do que em qualquer outro lugar”.
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