[ENTREVISTA] “Todas As Meninas Reunidas, Vamos Lá!”: documentário produzido por mulheres conta a história do Girls Rock Camp Brasil!

[ENTREVISTA] “Todas As Meninas Reunidas, Vamos Lá!”: documentário produzido por mulheres conta a história do Girls Rock Camp Brasil!

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2018 já começou com muito rock, bebê! – e também muito empoderamento feminino. Entre os dias 8 e 13 de janeiro, rolou a 6ª edição do Girls Rock Camp Brasil, em Sorocaba. A abertura do evento ficou por conta da In Venus e Harmônicos do Universo e, durante a semana, foi a vez do Rakta, Cora, PapisaNao Nao-Eu contribuírem para que a experiência das meninas fosse ainda mais incrível!  Já em Curitiba, elas estão na 1ª edição – que começou no dia 15 e vai até o dia 20 de janeiro.

Mas toda a animação e ansiedade para o evento começaram logo na reta final de 2017, no dia 21 de dezembro, com o lançamento do documentário “Todas As Meninas Reunidas, Vamos Lá!”, que conta a história do Camp desde a idealização até os tropeços e acertos desses 6 anos de caminhada.

A sessão de estreia foi: sala lotada às 19h20 no Espaço Itaú de Cinema do shopping Frei Caneca, em São Paulo. Antes de o filme ser exibido pela primeira vez, algumas palavras foram ditas, agradecimentos feitos, lembrancinhas entregues e um discurso inflamado de Carol Fernandes, que pontuava a importância simbólica que carrega cada filme dirigido e protagonizado por mulheres que é exibido em um cinema tudo isso em meio a algumas lágrimas emocionadas.

O formato do doc é bem simples; recortes de cenas de todo o processo de realização do Camp (desde o treinamento das voluntárias, à montagem do espaço até chegar no dia a dia do acampamento em si) mescladas a algumas entrevistas e falas de pessoas envolvidas com o projeto (entre elas as próprias campistas e os seus pais, as voluntárias e as idealizadoras).

A maior parte das imagens exibidas foram feitas por pessoas diferentes ao longo dos anos do Camp, e muitas delas sem grandes experiências com câmeras o que dá ao doc aquele ar de amadorismo que carinhosamente definimos como o jeitinho D.I.Y. de todo o projeto!

Todas As Meninas Reunidas
Helena Duarte, Carol Fernandes, Patricia Saltara (Vinhão), Marianne Crestani e Flavia Biggs no dia do lançamento (Foto: arquivo pessoal)

Esse estilo faça-você-mesma pode até ter combinado perfeitamente com a proposta final, mas ele não foi 100% intencional; a equipe técnica precisou se virar nos 30 para conseguir transformar um material que, a princípio, teria em torno de 15 minutos em um longa de mais de 1 hora de duração!

Para entender como é que elas fizeram essa mágica, conversamos com Carol Fernandes, Marianne Crestani (Mari) e Patrícia Saltara (Vinhão, ou tia Uvinha, para as campistas). Elas nos contaram como foi o processo de construção do doc e, passada a adrenalina, quais foram os resultados das exibições:

DN: Vocês disseram que o documentário está sendo gravado há 5 anos, né? Mas desde as primeiras edições e das primeiras imagens gravadas, o intuito era mesmo fazer algo grande ou foi com o tempo que vocês decidiram usar as imagens pra isso?

Vinhão: Desde que a gente começou o Camp a gente tinha uma equipe de registro. A gente pensava, sim, em usar esse material para algo além de divulgação nas redes sociais. Pensávamos em futuramente fazer um documentário; mas não foi algo planejado, ficou no ar. A cada edição a gente tinha pessoas diferentes com equipamentos diferentes gravando algumas imagens, mas foi só no 5º ano que pensamos mesmo: vamos fazer um documentário.

Mari: Em 2013 a gente até tentou fazer um documentário lá na hora – é até por isso que temos tanto registro desse ano. Mas acabou não dando certo e aí nas outras edições aconteceu como a Vinhão falou mesmo.

DN: A galera que participou da produção/gravação/equipe técnica foi a mesma desde o início?

Carol: Não foi a mesma equipe, muito pelo contrário! Quando você assiste ao documentário você vê que ele tem bastante formato diferente: desde aquela gravação mais caseira, feita por gente amadora que tava fazendo aquilo pela primeira vez, até a mais profissional, de quem trabalha com isso e tem um equipamento, uma câmera melhor. Essa, inclusive, foi uma grande dificuldade que tivemos na pós-produção: alinhar todos esses formatos diferentes e fazer o filme ter uma cara só!  

DN: Como foi que funcionou depois que vocês falaram “vamos fazer esse documentário virar!” e botaram a mão na massa? Em quanto tempo ele ficou pronto?

Carol: A princípio a gente pensou em fazer um documentário curto, de 15 minutos, para divulgação na internet mesmo. A gente tinha todo o material pronto para isso. Então surgiu uma proposta da Paris Filmes e, para nos enquadrarmos nela, precisaríamos estender a duração até no mínimo 70 minutos. Quando percebemos, tínhamos 1 mês para editar tudo!

Vinhão: Não que faltasse material, né? O problema era mais o conceito mesmo, não era o plano.

Carol: Sim. A sorte é que já tínhamos gravado algumas cenas em janeiro com o intuito de fazer aquele documentário, acompanhamos uma banda ser formada, entrevistamos algumas pessoas… Então gravamos algumas entrevistas extras para dar uma complementada nesse material e conseguir fechar o roteiro.  Eu entrei nisso aí: sentei e fiz um esqueleto pro filme uma ideia de como contar essa história, uma linha que conectasse tudo do início ao fim.  

DN: Como que foi para fazer esse lançamento?

Carol: A história é a seguinte: a gente já tava fazendo um documentário independente. Mas ainda ia demorar um tempo para ficar pronto porque, além de ser trabalhoso, a gente precisava ter tempo de sentar todo mundo para editar o material que tínhamos – mas é difícil largar o emprego, aquele que paga as nossas contas, para fazer isso, né?

Mari: Tem gente que demora meses, anos para fazer um documentário!

Carol: Foi quando a Mirna Nogueira, diretora de conteúdo da Paris Filmes e conhecida nossa, ficou sabendo do projeto e entrou em contato com a gente com uma proposta: disse que tinha uma grana de pós-produção e distribuição para que a gente pudesse se dedicar à edição e produção do doc. Mas ele teria que ser lançado em 2017 ainda e já era junho! Então começamos a nossa corrida contra o tempo, já que a data limite para entrega do documentário finalizado era por volta de setembro, se não me engano.

Mari: E aí que foi maravilhoso ver o trabalho que todas as equipes de registro fizeram. Porque a grande maioria das imagens usadas no documentário foram feitas por pessoas que participaram do Camp de forma voluntária ao longo dos 5 anos!

DN: Como vocês conseguiram que o filme passasse no Espaço Itaú de Cinema? Teve algum tipo de resistência ou foi tranquilo?

Carol: Quando fechamos o contrato com a Paris Filmes, a parte da distribuição ficaria por conta deles. Por ser a maior distribuidora de filmes do país, eles precisavam que fosse lançado no cinema e chegamos ao Espaço Itaú, no Frei Caneca, porque nós preferíamos que fosse em um circuito de cinema que tivesse mais a ver com o nosso filme, um pouco menor. Em Sorocaba, foi no Cineplay, e em Porto Alegre, no Cinespaço Wallig. A ideia é tentar chegar a outras cidades, estados e regiões!

A parte de distribuição comercial é feita pela Paris Filmes, mas a de festivais e de mostras é a gente que é responsável. Queremos passar o filme de graça também, fazer ele ser um pouco mais acessível, então a ideia é que agora em 2018 a gente consiga levá-lo também em alguns festivais de música ou em espaços alternativos em que as pessoas possam assistir gratuitamente.

O único tipo de resistência que tivemos foi por parte da distribuidora, tirando a Mirna e a Bia que ajudaram muito a gente lá dentro, que nunca deu muita bola pro filme. Foi um estresse enorme, eu tive que lutar muito e brigar muito pra conseguir pelo menos uma sala de cinema etc.

Mari: Eles não compreenderam a amplitude que poderia ter. Foi difícil ter um apoio real!

Carol: Mas agora eu acho que eles estão convencidos, né? Porque o lançamento esgotou a bilheteria e foi um sucesso em Sorocaba, tanto que eles estenderam mais uma semana…

DN: Foi muito massa que vocês falaram do lance de terem tido uma equipe técnica majoritariamente feminina… Traçando um paralelo com aquilo que vocês falam no próprio documentário, sobre ter poucas mulheres que entendem da parte mais técnica de montagem de palco etc… É difícil encontrar mulher que pegue em câmeras e vá lá e grave tudo? Como que vocês fizeram pra juntar as mina para produzir?

Carol: Não. É um grande mito dizer que é difícil ter mulher que entenda de técnica e que pegue a câmera e vá lá e grave tudo. Na verdade o que é difícil é visibilidade e o mesmo tanto de oportunidade que os caras. Hoje, no facebook, tem um grupo gigantesco das mulheres no audiovisual que tem milhares de mulheres no Brasil inteiro que fazem todo o tipo de função no cinema, de produção e de pós. Tem muita mulher fazendo muita coisa incrível, o que rola é um mercado muito machista como a maioria das coisas do mundo. Eu falei isso na estreia: em 2017 nem 20% dos filmes que estrearam no cinema são dirigidos por mulheres. E isso não é só no Brasil, é no mundo – mas esse é o número do Brasil.

Eu trabalho com cinema há 15 anos e desde o meu primeiro filme, em 2011, se não 100% pelo menos 90% da equipe técnica que trabalha comigo é composta por mulheres. Então, sim, tem muita mulher que pega a câmera, grava, e faz tudo; todas as partes técnicas, do início ao fim.

Mari: E isso se repete na música também! O que a gente quis dizer ali no Camp é que a gente aceita como roadie no projeto tanto gente que tem conhecimento como também que não tem, para ter o primeiro contato ali. Mas é imenso o número de mulheres que são técnicas mas não tem o espaço; não são chamadas muitas vezes porque a equipe é inteira de homens e eles querem ficar fazendo piadinha entre eles – nem é pela capacidade técnica.

Vinhão: Eu, como produtora em outros filmes que trabalhei, sempre dei muita sorte porque tinha sempre muita mulher na equipe técnica. É um rolê que a galera critica: “se a diretora é mulher, vai botar mulher”. Mas o homem não confia muito na capacidade da gente “ai mas será que essa mina consegue?” – ele não assume às vezes, mas dentro da cabeça dele funciona assim. Aí ele vai e chama o brother, que vai chamar outro brother, e de brother em brother fica só na brotheragem.

O que acontece é que quando uma mulher, que tem o poder de mudar isso, se insere no mercado como uma produtora, uma diretora, ela tem um leque enorme de mulheres que ela pode chamar para trabalhar em todas as áreas. Se ela tem essa consciência de mudança, ela faz isso.

DN: Qual a necessidade desse doc existir? Da onde veio essa inspiração? A importância do Camp está sendo citada o tempo todo, mas o documentário em si também é muito importante e não só pra divulgar o projeto!

Mari: Sim. Ao longo da história da humanidade, muita coisa além de ter sido apagada e ignorada, principalmente pelo machismo/patriarcado, foi esquecida, deixada para trás. Então fazer isso da forma como a gente tá fazendo, de não só registrar o Camp, mas de também fazer parte dele, é sermos protagonistas da nossa própria história; mostrar que nós existimos e que estamos fazendo isso!

Carol: E volta para a pergunta anterior também, né? Quebrar esse mito. As mulheres não só podem mexer com técnica, como podem trabalhar juntas, unidas.

Se contabilizar o tempo de tela, quem é protagonista da história inteira são meninas e mulheres. São 80 minutos e você não vai ouvir nem um homem falando. E essa é uma coisa completamente subversiva e histórica também! Normalmente, as mulheres não tem nem 30% dos espaços de tela no cinema em geral.

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DN: Aquela perguntinha óbvia: o que vocês acharam do dia do lançamento? Qual foi a sensação de ver tudo ficar pronto e ser exibido em uma telona?

Carol: Eu, Carol, achei maravilhoso! Eu não sabia muito o que esperar. Sabia que ia bastante gente porque é a galera envolvida com o projeto. Mas eu fiquei com frio na barriga, né? Imaginar também a reação das pessoas que apareceram no documentário e ainda não tinham se visto… É uma responsabilidade enorme!

A reação das pessoas foi muito positiva. Elas elogiaram, se emocionaram… E acho que essa foi a maior recompensa do filme, né? E isso que mais me importava nesse lançamento: ver se as pessoas que retratamos no doc iam se sentir representadas, se elas achavam que a história que estava sendo contada era mesmo a história delas!

Vinhão: Eu acho que superou as expectativas! Eu sabia que ia uma galera também. Eu sabia de todos os corres de divulgação e que tinha muita gente envolvida, mas a gente nunca sabe se vai todo mundo. Fim de ano, chuva e… lotou, né? Pra mim foi incrível e ainda melhor, como a Carol falou, foi ver a reação das pessoas depois. Teve uma mãe que chegou pra mim depois do filme e falou “Você mudou a vida da minha filha!”

Mari: Pra mim foi lindo também! Eu fiquei muito nervosa no dia da estreia porque é muita responsabilidade. Passar um filme, na minha própria cidade, em que as pessoas que caminham ao meu lado na vida são protagonistas… E a gente fez tudo isso, e ainda passar numa tela grande, e eu adoro cinema, e eu nunca pensei que ia ser tão rápido pra eu fazer um filme, profissionalmente falando… Foi tipo uma explosão!!

DN: A repercussão depois de lançado o documentário, foi boa ou ruim? Teve muita gente falando sobre nas internets? Como vocês têm reagido aos famigerados comentários?

Carol: Ainda estou compilando todos os comentários que foram feitos! Saiu em muito site grande, né? Nos principais meios… Folha, Uol, MTV etc. Em muitos sites independentes também! Alguns foram baseados no release então foram bem neutros, e algumas críticas em relação à técnica, um comentário específico feito por alguém que definitivamente não entendeu o conceito do projeto, mas num geral foram comentários bem positivos!

Mari: Crítica a gente sempre vai ter, né? O importante é que a gente teve muita consciência do que a gente fez. Mas se teve bastante comentário significa que repercutiu bastante!  

DN: Algumas considerações finais?

Carol: Sobre os gastos… Com produção, a gente acabou não desembolsando quase nada. Porque eram as equipes de registro que levavam o seu próprio material, já que não temos para emprestar. Quando precisamos gravar as entrevistas extras, pegamos tudo com amigos: equipamento de som, câmera etc. O trabalho mais pesado mesmo foi na pós-produção.

Mari: É que o trampo no Camp é todo voluntário, né? As fotógrafas, as pessoas que trabalham com câmera, editoras também, estão ali da mesma forma que as outras voluntárias; vão lá para registrar e para produzir esse material voluntariamente.  

Vinhão: O que a gente gastou mesmo foi com comida porque é o que oferecemos para todas! E esse ano separamos as equipes de registro e a do documentário porque já estávamos com a ideia de produzir algo, então pegamos equipamento emprestado com pessoas lá de Sorocaba mesmo, amigos nossos etc. Foi força coletiva total!

Carol: Pra pós a gente conseguiu esse apoio da Paris Filmes, e eles deram um dinheiro bem simbólico só para ajudar na parte de montagem. Daí a gente pode parar os nossos trampos (e ainda assim pagar as nossas contas) pra nos dedicarmos inteiramente ao doc. Também contratamos pessoas para fazer a arte, a correção de cor, a mixagem de áudio e também o pacote da acessibilidade.

Eu diria que nem 50% do nosso tempo de trabalho foi remunerado mas a gente tá aí, né?

Mari: Fazemos isso porque acreditamos nesse projeto maravilhoso!

Esse ano já foi, mas você quer fazer parte da próxima edição?

A gente te ensina!

Quem pode ser voluntária: qualquer mulher! Basta ficar de olho nas inscrições que rolam durante o ano, acompanhando o site e a página no Facebook que, assim que elas forem abertas, vão avisar!

https://www.girlsrockcampbrasil.org/


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Feminista, bruxa e vegana. Estudante de jornalismo e de bateria. Apaixonada por gatos, filmes de terror, contracultura e roller derby. Cozinheira (e meio piadista) nas horas vagas.
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