[CINEMA] Lou: Uma mulher à frente de seu tempo (crítica)

[CINEMA] Lou: Uma mulher à frente de seu tempo (crítica)

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O filme Lou (com direção, roteiro e produção de Cordula Kablitz-Post) nos apresenta a história da indomável escritora, pensadora e psicanalista Lou Andreas-Salomé. A história segue a trajetória desta mulher à frente de seu tempo, desde sua tenra infância na Rússia até o final de seus dias na Alemanha.

Lou Andreas-Salomé nasceu em São Petersburgo em 1862 e vivia com seu pai, Gustav Von Salomé, então general do Czar Romanov, e sua mãe Louise Wilm Von Salomé, além dos três irmãos mais velhos. Desde cedo demonstrou um caráter curioso e diferente das outras crianças. Em uma das primeiras cenas do filme, Lou está brincando com um de seus irmãos tentando subir em uma árvore. Seu irmão já havia conseguido subir e ela, por sua vez, sentia dificuldade por conta de sua roupa e seus sapatos. Quando finalmente escalou a árvore, não se satisfez e tentou subir ainda mais alto, mas seus sapatos de menina a fizeram escorregar, e ela caiu. Quando seu pai veio acudi-la, sua primeira reação foi dizer que não quer mais usar aquele tipo de calçado.

Lou

Lou desde sempre se comportou como um indivíduo livre e indiferente às regras sociais segregatórias entre homens e mulheres. Seu primeiro mentor, Henrik Gillot, que era casado e tinha filhos, lhe ensinou os princípios da Teologia, Filosofia, além de literatura Francesa e Alemã. Apaixonado pela pupila, o professor a pede em casamento, no que é recusado.

No filme, Henrik é apresentado como o primeiro amor de Lou. Contudo, ela nutria um amor platônico por ele, cultivado por seu interesse em aprender e se desenvolver intelectualmente. A cena do pedido em casamento é bastante passional e de certa forma agressiva, causando grande impacto negativo na vida de Lou.

Ela então parte com sua mãe para Zurique, Suíça, onde vai estudar Teologia e História da Arte e depois segue para Roma, onde Malwida von Maysenburg (escritora envolvida com a emancipação da mulher) a apresenta para o filósofo Paul Rée, com quem imediatamente inicia uma relação profunda de amizade e interesses intelectuais, e mais tarde, para Friedrich Nietzsche, com quem forma um trio, ao lado de Rée.

Lou

Para Lou, sua relação com os homens, até aquele momento, era de igualdade. Ela nutria grande amor e admiração intelectual por seus parceiros, conversando e trocando impressões sobre a vida, sexo, erotismo e religião, sem se preocupar com convenções sociais, de gênero ou até com a causa feminista. Por esse motivo – a forma livre e diferente com que se comportava com os homens- ela despertou o interesse romântico em seus dois amigos e parceiros, que logo a pediram em casamento, mas evidentemente receberam uma negativa.

Lou acreditava que, ao lado de Rée e Nietzsche, poderia evoluir seus conhecimentos e até iniciar um movimento intelectual/ filosófico influenciando outras pessoas. Negava a possibilidade de se relacionar sexualmente com seus parceiros por acreditar que o grande prazer estava no pensamento e nas trocas e influências que essa associação poderia gerar. Evidentemente que essa associação com seus dois amigos não durou muito. Lou então, passou a viver com Rée, e depois casou-se com Friedrich C. Andreas, com quem nunca consumou o casamento, mas viveu maritalmente até a morte dele, em 1930. 

Depois de casada, Lou teve vários casos, porém se apaixonou pelo jovem alemão Rainer Maria Rilke, com quem teve um longo relacionamento e grande influência em sua obra.

Lou

Foi a primeira mulher a ser aceita no círculo psicanalítico de Viena, e tornou-se amiga pessoal e discípula de Freud. O grande mérito do filme é nos contar a história de Lou, que para grande parte das pessoas é desconhecida e ignorada. Seus feitos vão além de uma produção de vinte livros, entre romances, biografias e cartas que trocou com Freud e Rilke, a grande maioria sem tradução para o português. Seu legado diz respeito também à grande influência que teve no pensamento filosófico de Nietzche e Rée, nos poemas de Rilke e sem dúvida na vida pessoal e na teoria psicanalista de Freud.

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Essa influência não é notada pelo fato de Lou ser mulher, mas sim por ser uma grande pensadora e intelectual que, assim como seus colegas, entendia o mundo para além das convenções do seu tempo, livre do espectro da religião.

Lou não foi uma feminista, no filme inclusive vemos uma passagem onde Malwida sugere que o comportamento de Lou pode afetar negativamente o movimento feminista, mas ela não se dá conta ou não se importa, creio eu, por não pensar com clareza na questão que separa homens e mulheres, agia apenas movida pela sua condição humana e por seu intenso desejo de vida. Nunca se deixou dominar por nada nem ninguém, tendo feito somente o que e quando queria.

Lou

“Ouse, ouse… ouse tudo!!
Não tenha necessidade de nada!
Não tente adequar sua vida a modelos,
nem queira você mesmo ser um modelo para ninguém.

Acredite: a vida lhe dará poucos presentes.
Se você quer uma vida, aprenda… a roubá-la!
Ouse, ouse tudo! Seja na vida o que você é, aconteça o que acontecer.
Não defenda nenhum princípio, mas algo de bem mais maravilhoso:
algo que está em nós e que queima como o fogo da vida!!”

(Lou Andreas-Salomé)

Veja o filme e descubra quem foi essa interessantíssima figura que, indubitavelmente, pensava e praticava a vida de acordo com seu desejo e sua vontade. Viva a liberdade e bom filme!

Lou estreou dia 11/01/2018 em São Paulo. 


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Mulher, mãe, profissional e devoradora de filmes. Graduada em Psicologia pela Universidade Metodista de São Paulo, trabalhando com Gestão de Patrocínios e Parceiras. Geniosa por natureza e determinada por opção.
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