Life Is Strange – Before the Storm: do incêndio às cinzas

Life Is Strange – Before the Storm: do incêndio às cinzas

“Uma única fagulha pode incendiar a pradaria.” O provérbio, supostamente chinês, não poderia ser mais claro: a menor das coisas pode ter um efeito devastador. Não à toa, a mensagem encontra espaço tanto em Life Is Strange (2015) quanto em sua pré-sequência, Life is Strange: Before the Storm (2017).

No primeiro jogo, a trama acompanha Max Caulfield, uma jovem de 18 anos que retorna a Arcadia Bay, sua cidade-natal, após uma temporada de alguns anos em Seattle, com o objetivo de estudar fotografia na Academia Blackwell. Ao presenciar uma tragédia em pleno colégio, Max descobre ter o poder de rebobinar o tempo, o que lhe permite consertar e contornar algumas situações – não sem pagar um preço por isso.

A borboleta azul, símbolo recorrente no jogo remete à teoria do caos; como um mero bater de asas pode iniciar uma cadeia de eventos, culminando em algo imenso. No caso de Max, sua trajetória escreve uma história de dor e feridas – algumas cicatrizadas, outras tantas abertas –, tudo temperado com um toque de sobrenatural e permeado pela ameaça constante da tempestade que se aproxima de Arcadia Bay, trazendo um tornado a reboque.

Before the Storm

O coração dessa trama, porém, é um elemento essencialmente humano: Chloe Price. Melhor amiga de Max nos tempos de infância, as duas passaram por um rompimento no mínimo traumático, quando a protagonista se mudou para Seattle. Chloe, seus cabelos não à toa em um tom de azul tão vibrante quanto o das asas da borboleta, é quem move a história. É possível dizer que tudo começa e termina com ela – e nós, acompanhando o jogo pelos olhos de Max, entendemos logo o fascínio que a jovem Price provoca.

O que nos escapa é a raiz do apego de Chloe por Rachel Amber, outra aluna da academia, desaparecida desde o início da trama. Por muito tempo, inclusive, Chloe parece ser a única pessoa verdadeiramente impactada pelo desaparecimento de Rachel, entregue a um desespero que, diante do abismo dos anos sem contato, Max não chega a atravessar. Esse seria o mote principal de “Before the Storm”: o laço entre Chloe e Rachel, tão valioso e, ao mesmo tempo, tão distante para nós.

Sai a borboleta, entra o corvo

“Before the Storm”, tanto em termos de narrativa quanto de jogabilidade, parece espelhar seu antecessor; elementos conhecidos ganham nova roupagem, permitindo uma leitura nova. Há, por exemplo, um animal ocupando um papel simbólico – mas se em Life Is Strange tínhamos a borboleta do caos, aqui o ruflar de asas de um corvo sugere uma mensagem mais lúgubre.

Chloe, agora protagonista nessa trama que se desenrola três anos antes da original, parece tão deslocada quanto Max, ainda que por razões completamente diferentes. Mesmo a presença de um desastre natural cercando Arcadia Bay continua lá.

O que antes era tempestade, porém, agora é um incêndio; o que antes era uma ameaça crescente, cada vez mais próxima, dá lugar a uma catástrofe que queima intensamente e se esvai ao longo dos episódios – algo que diz muito sobre o andamento da trama.

Before the Storm

Quando encontramos Chloe pela primeira vez em “Before the Storm”, ela ainda está no casulo no qual se fechou após a morte do pai. Sua natureza doce, que conhecemos no primeiro jogo, está lá, mesmo que escondida sob uma espessa camada de rebeldia e agressão. Para quem está acostumado a uma atitude mais heroica, pode ser difícil lidar com as primeiras tarefas que se apresentam: desde entrar de penetra num show até roubar uma camiseta da banda.

Mas não demora até que a trama mostre sua cara. Muito mais do que rebeldia sem causa, o que move Chloe é uma angústia tão típica da adolescência – a dificuldade de entender a si mesmo e de se fazer entender –, potencializada pelos relacionamentos que a cercam e a tragédia da perda, o luto ainda não superado. A angústia de quem não consegue encontrar seu lugar no mundo, e que subitamente se vê aceita. Mais do que isso, acolhida.

Em um primeiro momento, Rachel Amber aparece aos olhos da protagonista quase como uma subversão do ideal do cavaleiro branco em uma armadura reluzente. Linda e decidida, ela vem ao resgate de Chloe no show, depois a arranca da rotina tediosa do colégio. Integrante do grupo de teatro, não há dúvidas de que Rachel é uma das garotas mais populares da escola. Não demora, porém, até que percebamos que existe muito mais acontecendo ali do que os olhos felinos dessa leonina – cúspide Câncer-Leão, aliás, como o jogo aponta mais tarde – nos mostra a princípio.

A tempestade e a queimada em “Before the Storm”

Não são poucas as vezes em que a trama compara Rachel ao fogo, ou mesmo ao grande incêndio que tem início no fim do primeiro capítulo, coroando uma revelação, primeira de muitas, sobre a família Amber. O paralelo é válido, tanto pela energia calorosa que flui da garota quanto pela sua capacidade de atrair e consumir aqueles que a cercam. E Chloe, uma vez borboleta, não se priva de seguir essa chama.

A química entre as duas vai muito além disso, porém. Seja encarada como meramente platônica, seja com um teor romântico, a conexão entre as jovens é inegável e, possivelmente, o aspecto mais fascinante do jogo. Por um lado, Rachel traz um novo sopro de vida para movimentar Chloe; por outro, a menina popular e aluna modelo precisa de alguém capaz de entender o momento de crise que enfrenta.

Juntas, elas se rebelam contra os males que lhes são impostos, riem, sonham – uma evolução tremenda, no caso de Chloe, mas também a origem da sensação agridoce que permeia toda a trama. Já conhecemos o destino das garotas; graças a “Life Is Strange”, sabemos exatamente onde elas estarão em três anos. A imagem da queimada que tudo consome até restarem apenas cinzas é extremamente pertinente.

Before the Storm

Mesmo assim, nos permitimos sonhar com elas. Ainda que o jogo por vezes pese a mão no aspecto trágico, empilhando problemas atrás de problemas, pesadelos e traumas condensados no curto espaço de três episódios, os parcos momentos em que Chloe e Rachel conseguem aproveitar a presença uma da outra são quase como um bálsamo. Em especial, uma cena envolvendo uma montagem de “A Tempestade”, de Shakespeare. A dinâmica entre as jovens é espelhada pelos personagens, mas um improviso aprofunda o paralelo, entregando aquela que talvez seja a passagem mais marcante de todo o jogo. O corvo, contudo, insiste em nos lembrar do que vem pela frente.

Crises mais reais, mulheres mais fortes em “Before the Storm”

Talvez pela brevidade do jogo, com três capítulos ao invés de cinco, talvez pela necessidade de se equiparar a Life Is Strange e sua trama envolvendo desde elementos sobrenaturais até um serial killer, Before the Storm parece, por vezes, exagerar em seus conflitos. Na pele de Chloe, o jogador se vê forçado a enfrentar crises em diferentes núcleos familiares, traficantes de drogas, crimes encomendados, revelações dramáticas. Os problemas envolvendo a Academia Blackwell, por mais graves que sejam, mal se comparam à escala das situações em que Chloe e Rachel se veem envolvidas, e por vezes a falta de respiro, aliada à noção do destino pouco promissor das personagens, acaba sendo um desestímulo.

A falta do elemento sobrenatural, por sua vez, mal se faz sentir, mesmo que toda a mecânica de Life Is Strange seja construída a partir da habilidade de rebobinar o tempo recém-descoberta por Max. Na pré-sequência, lidamos mais uma vez com a necessidade de fazer escolhas, com um agravante: como na vida real, não há como fugir das consequências e tentar outra vez. Para completar, o fator rebeldia adiciona uma nova camada: as discussões.

Com um espaço de tempo limitado para escolher sua resposta, o jogador deve literalmente vencer um bate-boca contra outros personagens, caso decida seguir pelo caminho do conflito. E se por um lado a mecânica condiz com a maneira como Chloe se impõe diante de seus problemas, em alguns momentos é difícil não se questionar sobre quão necessário é começar ou mesmo sair por cima em uma discussão. Algo que acontece principalmente em interações que envolvem Joyce, mãe da protagonista.

É impossível falar de Before the Storm sem ceder um espaço a Joyce Price, a garçonete que dá tudo de si para criar a filha. Em um jogo onde o conflito parece constante, a mãe de Chloe frequentemente desarma qualquer resistência, seja do jogador ou da personagem, com seu jeito conciliador de ser – um contraponto à natureza intempestiva da relação das duas adolescentes. Não há, contudo, uma relação de oposição, como se apenas um lado pudesse estar certo; por vezes, como o próprio roteiro ressalta, falta a Joyce a força para enfrentar certas situações de maneira mais assertiva. Um sem-número de “e se” acabam se apresentando em toda cena com as mulheres da família Price, sendo difícil não desejar que mãe e filha se entendam melhor, visto quão claro é o carinho que uma tem pela outra.

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A importância das relações entre mãe e filha não se limita a esse núcleo. Se a dinâmica entre as Price é estabelecida desde Life Is Strange e aprofundada na pré-sequência, temos aqui também a oportunidade de acompanhar Rachel e todos os problemas advindos da maneira como seu pai, de uma forma ou de outra, sempre acaba apagando a figura materna que deveria estar junto à garota. Se no início da trama a Sra. Amber é eclipsada pela presença de seu marido, adotando uma postura entre a subserviência e a resignação, a questão se agrava exponencialmente ao longo do último capítulo.

Before the Storm

Tal qual seu sucessor, Before the Storm é um jogo essencialmente dedicado a discutir relações humanas e o impacto de nossas decisões sobre estas. E nesse aspecto, talvez seja uma obra ainda mais bem-sucedida que a original, ao se debruçar sobre um relacionamento que já nos havia cativado no passado, mas cuja profundidade e dimensão não podíamos sequer imaginar.

Em certo ponto da trama, Rachel questiona a beleza das estrelas, uma de suas maiores paixões. Se a luz que chega até nós vem de corpos celestes já mortos, tudo não passaria de uma ilusão? A conclusão é que, real ou não, o céu noturno não é menos belo. Da mesma forma, malgrado o gosto amargo da realidade que conhecemos, é impossível negar o encanto da conexão que finalmente podemos explorar.

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Apaixonada por letras desde o momento em que descobriu como conectá-las, nunca pensou em fazer outra coisa da vida. Hoje, vive de e para escrever, abraçando o mote de que toda história vale a pena.
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