Overwatch: o impacto da representatividade feminina na indústria de jogos

Overwatch: o impacto da representatividade feminina na indústria de jogos

Lançado há praticamente um ano, Overwatch é o game eletrônico multiplayer de tiro em primeira pessoa da Blizzard com versões disponíveis para PC, PS4 e Xbox One. Famoso mundialmente como um dos melhores jogos do gênero, o game ainda apresenta uma grande variedade de heróis disponíveis, cada um com suas próprias habilidades e funções dentro da equipe: ofensivo, defensivo, tanque e suporte.

A premissa é simplista: dois times rivais compostos por seis jogadores cada se enfrentam em diferentes mapas que representam diferentes localidades reais. Existem ainda modos de jogo distintos, como os que os jogadores devem escoltar a carga ou dominar determinados pontos dentro do mapa, além de modos híbridos que contam com escolta e controle.

Fornecendo uma série de conteúdos extras para os jogadores por meio de eventos, o FPS se configura atualmente como um dos jogos que mais atrai novos jogadores, especialmente as mulheres. Uma pesquisa recente feita pela empresa Quantic Foundry informou que o número de mulheres jogando Overwatch atualmente é duas vezes maior que em outros jogos do mesmo gênero.

Segundo o estudo realizado, a base de jogadores do game da Blizzard é composta por 16% de mulheres, isto é, aproximadamente 5 milhões de jogadoras. Em termos de vendas, pode-se afirmar que mais de US$ 250 milhões da receita da Blizzard advém de suas consumidoras.

Um dos fatores apontados pelos pesquisadores para explicar a massa feminina consumidora de Overwatch seria, justamente, a presença de um elenco de heróis diversificado. Os personagens do jogo são, de fato, inspirados pela diversidade presente no mundo. Diferentes culturas, histórias e mídias serviram como base para os escritores no momento do desenvolvimento de todos os heróis.

É possível observar essa variabilidade ao atentar para as personagens femininas do jogo, que constituem praticamente a metade do elenco. Mulheres como Zarya, Ana, Mei, Orisa e Symmetra se destacam por destoar dos estereótipos de gênero frequentemente encontrados nos jogos eletrônicos. Com histórias e personalidades próprias, cada uma delas poderia realmente ser uma mulher real. O design contribui para essa impressão pois, apesar de seguir um estilo mais cartunesco, é bem fiel aos modelos reais.

Fugindo da tradicional representação feminina sexualizada e objetificada, Overwatch cria personagens femininas com diferentes corpos, origens e habilidades. Zarya, por exemplo, é uma das mulheres mais fortes do mundo. A russa é focada em levantamento de peso e fisiculturismo e é possível notar toda essa força representada nos ‘’muques’’ da guerreira.

Ana, por sua vez, é uma das fundadoras da Overwatch. Aos 60 anos de idade, a caçadora de recompensas é mãe de Pharah, uma das personagens ofensivas do game e foi líder da organização por muito tempo. Raramente os jogos retratam personagens femininas mais velhas como mulheres fortes (Quem dirá uma mãe!) e isso é um dos pontos em que o game novamente se sobressai.

Em termos de variabilidade, a guardiã robô Orisa se destaca por ser uma das mais precoces criações da garota nigeriana de onze anos Efi Oladele, além de ser a primeira personagem feminina não humana do game.

Numa breve análise realizada em League of Legends, por exemplo, notou-se que havia uma baixa diversificação no desenvolvimento de personagens femininas, sendo a maioria estritamente humana. Esse é um fato que se repete nos jogos de forma geral, no entanto, esse é outro ponto em que o jogo de tiro da Blizzard acerta em cheio.

Outros fatores também apontam para as paletas de cores que foram utilizadas para o game, que diferem da grande maioria dos jogos de guerra e ação. Apostando num visual mais amigável e cartunesco, o FPS oferece um ambiente bastante agradável aos jogadores, além de recompensá-los com cosméticos interessantes como falas, poses, visuais, sprays e apresentações.

É nítida a diferença que o game apresenta em relação a outros jogos semelhantes como Team Fortress, Counter Strike e Call of Duty, nos quais não é possível jogar com uma personagem feminina. Não é nada surpreendente, portanto, o fato de que as mulheres estejam consumindo Overwatch cada vez mais, uma vez que o jogo fornece um modelo representativo para suas jogadoras.

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Com mecânicas de jogo mais simples quando comparado aos mobas, jogos de arena multiplayer como Dota 2 e League o Legends, o game atrai também por esta própria simplicidade. Ainda que cada personagem tenha habilidades exclusivas, a jogabilidade é descomplicada na medida em que as únicas possibilidades se resumem em utilizar skills para deter os inimigos e se movimentar pelo mapa com o objetivo de cumprir a missão apresentada.

Ainda que o universo dos jogos online possa ser bastante hostil para com as jogadoras e a representatividade feminina no cenário competitivo seja escassa, pouco a pouco as mulheres se unem para criar seus próprios grupos e campeonatos. Recentemente, o grupo OverD.Vas, formado por jogadoras de Overwatch, criou seu próprio campeonato, com o apoio da Blizzard.

Não obstante, várias comunidades femininas surgiram com o objetivo de criar um ambiente mais amigável e possibilitar que as garotas jogassem juntas. Uma dessas comunidades, a Dawn of Pink, existe como um grupo no Facebook e procura promover a visibilidade das garotas no mundo dos games.

A ideia de realizar os próprios campeonatos também surgiu como uma forma de incentivar mulheres a serem mais confiantes para jogar, ao ver que as demais colegas estão se divertindo e competindo amistosamente.

É de extrema importância que a Blizzard siga pensando em suas consumidoras assim como no desenvolvimento de personagens femininas diversificadas e representativas. Também é essencial que as jogadoras continuem em união para jogarem juntas e organizar seus próprios campeonatos, o que tem se mostrado eficaz em incentivar outras mulheres a participar do cenário, tanto casual como competitivo.

O grupo Dawn of Pink é um espaço restrito para mulheres que jogam ou que se interessam por jogos, especialmente Overwatch.

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Hardcore gamer, punk e antissocial. Fã de RPG's de fantasia, ficção científica e quadrinhos independentes. Passa as horas vagas e as não vagas com seus consoles e PC.
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