Os Despossuídos: existirá um modelo de sociedade que não cobre o seu preço?

Os Despossuídos: existirá um modelo de sociedade que não cobre o seu preço?

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Se pudéssemos resumir o livro Os Despossuídos em uma palavra, ela seria: desesperança. Úrsula nos envolve e entorpece com a sua crítica aos regimes totalitários e/ou utópicos que ganharam força sobretudo na Guerra Fria (capitalismo, comunismo russo e anarquismo) e, nos leva, através da leitura, a um futuro no qual não temos certeza se gostaríamos de estar inseridas. Talvez a sua única intenção com este livro fosse a de nos despertar, de tirar dos nossos olhos as vendas que a idealização nos coloca. Nos mostrar que qualquer utopia esconde em si seu lado sombrio; seu “preço”; seu gosto amargo no final do último gole; a sua inevitabilidade.

“O Sofrimento existe – disse Shevek, abrindo as mãos. – É real. Posso considera-lo um engano, mas não posso fingir que não existe ou que um dia deixará de existir. O sofrimento é a condição em que vivemos. E, quando ele chega, nós o reconhecemos. Reconhecemos como a verdade.”

Em sua essência, o livro é permeado por dualidades, a começar pelos planetas centrais da trama: Urras e Anarres, que se apresentam, simultaneamente, um como sendo a lua do outro.

Os Despossuídos

“Havia um muro. Não parecia importante. […] No ponto em que atravessava a estrada, em vez de ter um portão, ele degenerava em mera geometria, uma linha, uma ideia de limite. Mas a ideia era real. Era importante. Por sete gerações não houve nada mais importante no mundo do que aquele muro.”

Em sua narrativa, Úrsula nos permeia de incertezas, pois não conseguimos definir que sistema sócio-político-econômico é melhor ou pior, ainda que tenhamos nossas próprias convicções pessoais. A forma como ela utilizou-se para narrar os fatos nos divide, do mesmo modo como seus capítulos foram separados: os pares nos narram o passado de Shevek, desde bebê até o seu “despertar” de uma utopia e os ímpares nos contam a história da sua saída de Anarres a caminho de Urras e das respostas que procurava.

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“[…] A vida é sem graça e o trabalho é duro. Não se pode ter sempre tudo o que se quer, ou mesmo o que se necessita, porque não há o suficiente. Vocês urrastis, têm o suficiente. Ar suficiente, chuva suficiente, grama, oceanos, comida, música, prédios, fábricas, máquinas, livros, história. Vocês são ricos, vocês possuem. Nós somos pobres, somos carentes. […] Em Anarres nada é lindo, nada, exceto os rostos. Os outros rostos, dos homens e das mulheres. Aqui se veem joias, lá se veem olhos. E nos olhos se vê o esplendor, o esplendor do espírito humano. Porque nossos homens e mulheres são livres…por não possuírem nada, são livres. ”

Uma das maiores capacidades críticas da narrativa da Úrsula se mostra quando ao descrever seu mundo utópico de forma saudosa, Shevek cai na armadilha da romantização da miséria. O que, de certo modo, encontra justificativa na construção histórica da sociedade de Anarres, que nasce da rebelião da classe dominada de Urras que, num ato de rebeldia e afronta, escolhe o exílio em um planeta árido, preço que estavam dispostos a pagar por sua ideia de liberdade, igualdade (social e de gênero) e emancipação.

Os Despossuídos

“É o nosso sofrimento que nos une. Não é o amor. O amor não obedece à mente e transforma-se em ódio, quando forçado. O laço que nos une vai além da escolha. Somos irmãos. Somos irmãos naquilo que compartilhamos. Na dor, que cada um de nós deve sofrer sozinho, na fome, na pobreza, na esperança, sabemos que somos irmãos. Sabemos, pois tivemos que aprender. Sabemos que não há ajuda para nós exceto a ajuda mútua, que nenhuma mão vai nos salvar se não estendermos a nossa mão. E a mão que vocês estendem está vazia, como a minha mão está vazia. Vocês não têm nada. Não possuem nada. Não são donos de nada. Vocês são livres. Tudo o que vocês têm é aquilo que vocês são, e aquilo que dão.”

No decorrer da leitura, percebemos que nenhum dos sistemas se mostra viável ou justo, ao ponto que ansiamos, a cada virar de página, por uma resposta. Por um ponto de equilíbrio. Por algo que não signifique a felicidade de alguns em detrimento da infelicidade de muitos e nem que represente o domínio e apagamento da individualidade do ser em favor da coletividade ou “bem” comum.

Como um livro que critica o passado, narrando um futuro, consegue nos incomodar no presente? Úrsula simplesmente consegue trazer a angústia de sua ficção para a nossa vida real: Seríamos capazes de construir uma sociedade perfeita, ou melhor, existirá um modelo de sociedade perfeita que não cobre o seu “preço”?

Os Despossuídos

Nota de rodapé

Lançado originalmente em 1974, sob o título de “The Dispossessed“, o livro da Úrsula K.Le Guin venceu, em 1975, os maiores prêmios da ficção cientifica, como o Hugo e Nebula. Seguindo a mesma linha de outro livro consagrado da autora, A mão esquerda da escuridão, Os Despossuídos também aborda a temática de gênero ao demonstrar a desigualdade entre homens e mulheres na sociedade machista e patriarcal de Urras e, sutilmente (ou não), confronta tal discriminação com os “pequenos” cotidianos igualitários de Anarres e o espantamento do protagonista diante do sexismo naturalizado.

Os Despossuídos

“Eu vi os elementos sociais e políticos dos meus romances e histórias surgirem enquanto eles se apresentavam na época. Eu certamente não fui clarividente! Apenas posso dizer que lamento que tantas dessas questões urgentes estão não apenas ainda relevantes, mas mais urgentes do que eram quando eu escrevi sobre elas” (fonte)


Os DespossuídosOs Despossuídos 

Autora: Ursula K. Le Guin

Editora Aleph

384 páginas

Este livro foi cedido pela editora para resenha

Onde comprar: Amazon

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Autora

Feminista e membra da União de Mulheres de São Paulo, onde é coordenadora adjunta do Curso de Promotoras Legais Populares, projeto voltado para a educação popular e feminista em direitos. É viciada em Lego, apaixonada por ficção científica/terror/horror, apocalipse zumbi e possui sérios problemas em procrastinar vendo gif’s e não lembrar o nome das pessoas. No mundo real é advogada.
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