Billie Holiday: o racismo e a misoginia destruíram nossa eterna Lady Day

Billie Holiday: o racismo e a misoginia destruíram nossa eterna Lady Day

Billie Holiday, assim como a autora Carolina de Jesus, conhecia muito bem as condições de suas opressões. Sabia que essas opressões advinham da cor da sua pele e do seu gênero. Ter sido uma mulher negra e dona de uma das vozes mais marcantes e inesquecíveis do jazz foi motivo de grande incômodo e afronta numa sociedade estruturalmente racista e machista – lembrando que a famosa canção “Strange Fruit” tornou-se um hino contra a segregação racial nos Estados Unidos.

Perdemos Billie Holiday muito cedo, tinha apenas 44 anos, mas a consequência dessa perda advém de cada abuso, cada violência que sofreu por ser mulher, negra e possuir um talento incomensurável. Nessa graphic novel argentina, através dos contrastes fortes e da ambientação noir de José Muñoz, com roteiro de Carlos Sampayo, os artistas contam uma parte da amarga história de Billie Holiday, tão amarga que após o término da leitura, será impossível esquecê-la.

“Proibiram-lhe de tudo. E de maneira implacável, paralisante. Mas nada, coisa alguma foi capaz de proibir-lhe de cantar.”

Eleanora Holiday, apelidada carinhosa por seu amigo Lester Young como “Lady Day”, e conhecida mundialmente como Billie Holiday, nasceu no dia 07 de abril de 1915, em Filadélfia, mas foi criada em Baltimore. A cantora tem um histórico de abuso que começou muito antes do seu nascimento e durou até o fim da sua vida.

Na graphic novel de José Muñoz e Carlos Sampayo há um prefácio escrito pelo escritor e crítico de jazz francês Francis Marmande, que traz algumas informações acerca do histórico familiar da cantora, de sua infância e adolescência marcada por agressões físicas.

Um pouco sobre a infância e adolescência de Billie Holiday

Billie Holiday

A bizavó de Billie Holiday era uma escrava e foi estuprada constantemente por um irlandês, que resultou no nascimento de seu avô, o único sobrevivente de dezessete filhos que foram mortos.  Seus pais eram muito novos quando a tiveram. O pai, Clarence Holiday, com 15 anos de idade, era músico e abandonou a família quando Billie ainda era bebê.

A mãe, Saddy Fagan, com 13 anos, sofreu as consequências do abandono paterno e teve que carregar sozinha a dificuldade de criar uma filha. Para tentar uma vida melhor, a mãe de Billie foi para Nova York e a menina foi criada até aos 10 anos por sua tia Eva Miller, meia-irmã de Saddy, sendo constantemente espancada. Posteriormente morou com Martha Miller, a sogra de Eva, uma mulher caridosa por quem Billie amou e a considerava como sua avó.

Com 10 anos de idade, Billie foi violentada sexualmente por um vizinho e sofreu as consequências de uma justiça machista e racista que a desamparou, mandando-a para um reformatório. Com 11 anos, Billie mudou-se com a mãe para Nova York e abandonou a escola. Lavou chão de prostíbulos e com ameaças de despejo, morando junto com sua mãe, o desespero tomou conta. Foi quando entrou, aos 14 anos, na prostituição.

Billie tentou ser dançarina em um bar chamado Harlem, mas não tinha jeito pra isso. Foi nesse local que Billie, por necessidade financeira e sem nenhum estudo de música, com apenas 15 anos de idade, descobriu seu talento e começou a cantar. Seu aprendizado vinha da apreciação das canções de Bessie Smith e Louis Armstrong.

Graphic Novel

Billie Holiday

A história da graphic novel – que ganhou o Grand Prix do Festival de Angoulême  – trazida ao Brasil pela Editora Mino, começa no ano de 1989, quando um jornalista é contratado para escrever uma matéria sobre os 30 anos que Billie Holiday faleceu.

Desconhecendo totalmente quem é Billie Holiday e recebendo o trabalho inicialmente com um certo descaso, o jornalista começa a pesquisar informações sobre a vida da cantora, enquanto, ao mesmo tempo, começa a ouvir suas canções famosas.

A história do quadrinho é contada a partir de tais informações que o jornalista coleta, trazendo um destaque maior aos eventos ocorridos durante sua carreira enquanto cantora, até o final trágico de sua vida. Um segundo personagem, um homem cuja identidade é revelada no final, também aparece durante a história, contando algumas de suas lembranças no período que conheceu Billie Holiday.

“Não há tantas vozes de mulheres que reúnam seu grito, seu sofrimento, seu ritmo, o tom do prazer e também de uma beleza infinita onde se despedaça o amor. Maria Callas, Oum Kalthoum, Édith Piaf, Billie Holiday…”

Muñoz e Sampayo buscaram contar as diversas formas de abusos que Billie Holiday sofreu, além de recordarem o amor e a admiração que Billie sentia por seu amigo, o saxofonista Lester Young, com quem também trabalhou gravando canções e cantando juntos em shows e programas de TV.

Considerado como um dos melhores registros da última década de sua vida, Billie foi convidada para cantar, ao lado de Lester Young, em dezembro de 1957, no programa The Sound of Jazz, a canção “Fine and mellow”.

Vemos no quadrinho que Billie não teve o reconhecimento artístico e o retorno financeiro à altura do seu talento. Foi explorada durante toda sua carreira por homens gananciosos. Teve 3 casamentos infelizes com homens abusivos e violentos que impactaram profundamente nos vícios adquiridos por drogas e bebidas.

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Foi presa diversas vezes por portar drogas e acusada pela mesma justiça que incrimina momentaneamente, até os dias atuais, pessoas negras, enquanto diversas pessoas brancas usufruem das drogas livremente, ou pagam com penas irrisórias.

Billie Holiday

Billie lotou diversas casas de shows, recebeu convites para gravar com os melhores músicos de jazz e ainda assim, lhe pagavam uma miséria, mesmo quando estava no auge da sua carreira. Assim como outra ilustre cantora e compositora, Nina Simone, foi abusada por homens por trás das produções musicais e sofreu violência patrimonial.

“Assim como ela era escritora com palavras banais, palavras corriqueiras que torcia em sua boca, à altura de Virginia Woolf, Carson MacCullers, Marguerite Duras. Uma grandeza que rapidamente foi constatada.”

A banda Warpaint fez uma belíssima homenagem para a cantora com a canção intitulada “Billie Holiday”:

Billie Holiday foi criticada por alguns sobre a sua “falta de técnica” no jazz, mas ninguém pode negar que ela cantava cedendo todo o seu coração. Nos palcos, Billie mostrava toda sua paixão pela música. Diante de toda uma vida amarga e abusiva podemos ver, através de alguns vídeos espelhados pela internet, que Billie foi feliz ao menos por alguns momentos, aqueles que vemos ela cantando sorridente suas canções.

Talvez conseguisse esquecer brevemente esses momentos de abuso e lembranças infelizes. A música foi a sua salvação. Seu declínio veio sobretudo dos homens ruins, da sociedade racista e misógina que lhe abusou de diversas formas. Mesmo que você não goste ou não ouça muito jazz, você precisa conhecer a história de Billie Holiday, ainda mais se você é uma leitora que se identifica com a importância de um feminismo interseccional.

Billie Holiday foi muito além de uma “diva” do jazz, e este quadrinho é uma lição sobre raça e gênero, um trabalho realizado que não banalizou as violências sofridas pela mulher e cantora Lady Day.

Billie Holiday e Ella Fitzgerald, em 1947, no Bop City Nightclub, New York,

Edição da Mino

O trabalho editorial da Mino está um deleite aos olhos. Com capa dura e formato maior que o convencional para uma graphic novel, a capa possui detalhes dourados (inclusive no interior) que enriquecem ainda mais uma história tão importante como a de Billie Holiday. No interior, há diversas fotos da cantora em concertos musicais junto com outros músicos famosos do jazz. Uma edição de luxo caprichada que faz jus à grandiosa e eterna, Lady Day.

Filme e livro

A história de Billie Holiday é contada também através da biografia “Lady Sings the Blues”, publicada originalmente em 1956, escrita por William Dufty e que ganhou uma edição especial de 50 anos em 2006, pela Editora Harlem Moon. Foi realizado também um longa com o mesmo título da biografia, lançado em 1972, onde a cantora Diana Ross (The Supremes) interpreta Billie Holiday.

Lady Sings the Blues
Diana Ross como Billie Holiday, no filme “Lady Sings the Blues” (1972).

Recomendamos a leitura da graphic novel ao som dessa perfeita playlist:

Referências:

Billie Holiday

José Muñoz (Arte), Carlos Sampayo (Roteiro)

Editora Mino

Edição de luxo; capa dura; 80 páginas

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Escrito por:

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Fundadora e editora-chefe do Delirium Nerd. Revisora. Apaixonada por gatos, café, cinema do oriente médio, quadrinhos e animações japonesas. Ouve muito Harry Styles e cantoras melancólicas.
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