Lygia Fagundes Telles: 5 contos para conhecer a incrível prosa da autora

Lygia Fagundes Telles: 5 contos para conhecer a incrível prosa da autora

Lygia Fagundes Telles, grande escritora brasileira, possui uma prosa rica em detalhes e versatilidade, uma vez que aborda temas  diversificados que vão do suspense ao romance e passam pela fragilidade das relações humanas e a condição de ser mulher na sociedade contemporânea; os contos são envoltos por um realismo fantástico que permeia nossos pensamentos, causa indagações e promove interpretações variadas sobre um mesmo ponto – há sempre um mistério, algo nas sombras, um sentimento inquietante, pairando pelo ar.

A prosa subjetiva e poética da autora encanta milhares de leitoras e leitores, das mais variadas idades, e precisa ser cada dia mais conhecida e relida, por apresentar temas necessários dentre diversas discussões. Suas personagens, na maior parte mulheres, dão vozes àquelas que conhecemos, diferentes entre si, mas igualmente cheias de bravura e deslumbramento perante o mundo.

Abaixo, listamos cinco contos da autora que, possuindo temas variados, sintetizam todo o poder da escrita de Lygia Fagundes Telles, uma das nossas maiores escritoras ainda viva.

1) Venha Ver o Pôr do Sol

Venha Ver o Pôr do Sol, Lygia Fagundes Telles
“Venha Ver o Pôr do Sol” (Foto: Laís Fernandes/Delirium Nerd)

O ex-namorado de Raquel, Ricardo, a convida para um passeio em um lugar um tanto inusitado: um cemitério abandonado. Os dois conversam sobre o presente de ambos, enquanto relembram fatos do passado e, ao passo que avançam no lugar, o clima fica gradativamente mais soturno; a promessa de se ver um lindo pôr do sol fica, aos poucos, mais distante e nebulosa. O desfecho deste conto é impressionante e serve como uma excelente porta de entrada para os escritos de Lygia. A obra, ainda, revela toda a podridão que pode derivar de um relacionamento abusivo e, principalmente, de uma masculinidade tóxica capaz de ir até às últimas consequências em função de um ego ferido.

“O mato rasteiro dominava tudo. E não satisfeito de ter-se alastrado furioso pelos canteiros, subira pelas sepulturas, infiltrara-se ávido pelos rachões dos mármores, invadira as alamedas de pedregulhos esverdinhados, como se quisesse com sua violenta força de vida cobrir para sempre os últimos vestígios da morte. Foram andando pela longa alameda banhada de sol. Os passos de ambos ressoavam sonoros como uma estranha música feita do som das folhas secas trituradas sobre os pedregulhos. Amuada mas obediente, ela se deixava conduzir como uma criança. Às vezes mostrava certa curiosidade por uma ou outra sepultura como os pálidos medalhões de retratos esmaltados.”

(TELLES, Lygia Fagundes. Os Contos. Companhia das Letras, 1. ed. 2018, pág. 113)

O conto possui um ritmo que flui ao longo das páginas e a tensão crescente permite que a leitora ou o leitor fique angustiado para saber o que acontecerá em seu desfecho. Repare na construção do ambiente e em como a estética decrépita e invasiva encaixa-se na personalidade de Ricardo.

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2) Os Objetos

Lorena e Miguel, um casal, conversam enquanto ela constrói, aos poucos, um colar de contas sobre a utilidade de certos objetos e em como estes mesmos objetos podem ser entendidos em paralelo à utilidade das pessoas que fazem parte de nossas vidas. O conto conversa sobre o ato de prestar atenção em quem faz parte do nosso convívio e sobre os problemas que a falta de comunicação, principalmente entre casais, pode gerar. Aqui, é interessante analisar a postura do personagem principal; querendo a atenção de sua amada a qualquer custo, comporta-se de modo infantil, ao passo que a mulher, claramente mais lúcida que ele, parece conhecê-lo bem e não dar a mínima para o comportamento (o que culmina na problemática do final).

Os Objetos, Lygia Fagundes Telles, Companhia das Letras
“Os Objetos” (Foto: Laís Fernandes/Delirium Nerd)

“(…) Veja, Lorena, aqui na mesa este anjinho vale tanto quanto o peso de papel sem papel ou aquele cinzeiro sem cinza, quer dizer, não tem sentido nenhum. Quando olhamos para as coisas, quando tocamos nelas é que começam a viver como nós, muito mais importantes que nós, porque continuam.”

(TELLES, Lygia Fagundes. Os Contos. Companhia das Letras, 1 ed. 2018, pág. 18)

O conto termina de forma que leitoras e leitores possam teorizar sobre o que acontece após o último ato de Miguel e a última conversa dos dois, regada por um teor melancólico e, de muitas formas, manipuladora por parte do homem. Este é o tipo de conto de Lygia no qual, por mais breve que seja, pode-se inferir muito sobre a construção psicológica dos personagens ali presentes, estando aberto a muitas interpretações.

3) As Formigas

Duas primas, uma estudante de direito e a outra de medicina, precisam pernoitar em um casarão muito estranho. A dona da hospedagem diz que o último hóspede do quarto em que as garotas ficariam, também estudante de medicina, havia deixado um caixote com ossos de um anão, nos quais fazia seus estudos. Somando o clima do local, muito sombrio, e a existência do caixote de ossos, as duas personagens passam a ser atormentadas por acontecimentos bizarros.

As Formigas, Lygia Fagundes Telles, Companhia das Letras
“As Formigas” (Foto: Laís Fernandes/Delirium Nerd)

“Esvaziei a mala, dependurei a blusa amarrotada num cabide que enfiei num vão da veneziana, prendi na parede, com durex, uma gravura de Grassmann e sentei meu urso de pelúcia em cima do travesseiro. Fiquei vendo minha prima subir na cadeira, desatarraxar a lâmpada fraquíssima que pendia de um fio solitário no meio do teto e no lugar atarraxar uma lâmpada de duzentas velas que tirou da sacola. O quarto ficou alegre. Em compensação, agora a gente podia ver que a roupa de cama não era tão alva assim, alva era a pequena tíbia que ela tirou de dentro do caixotinho. Examinou-a. Tirou uma vértebra e olhou pelo buraco tão reduzido como o aro de um anel. Guardou-as com a delicadeza com que se amontoam ovos numa caixa.”

(TELLES, Lygia Fagundes. Os Contos. Companhia das Letras, 1. ed. 2018, pág. 146)

Este conto remete ao “A Queda da Casa de Usher”, de Edgar Allan Poe, e ao universo da série Twin Peaks. A estranheza do local, que parece ter vida e observar as personagens, e a sucessão de acontecimentos surreais promovem uma aura de suspense que inicia-se no primeiro parágrafo e estende-se ao último. Um dos contos de mistério da autora mais cativante e divertido de se ler!

4) Herbarium

“Herbarium” narra as peregrinações de uma jovem em busca de plantas para a coleção de um primo botânico, uma visita querida ao sítio em que mora e, mais do que isto, fala sobre o despertar das primeiras paixões, sobre a fascinação que o outro nos causa e o ciúmes que pode despontar destas trocas; fascinada pela natureza por conta do parente, a garota narra suas incursões pela mata próxima à sua moradia e, em cada gesto, nos transmite a consciência de uma ancestralidade feminina e sobrenatural muito forte, tanto no local quanto nela mesma.

Herbarium, Os Contos, Companhia das Letras
“Herbarium” (Foto: Laís Fernandes/Delirium Nerd)

Herbarium, ensinou-me logo no primeiro dia em que chegou ao sítio. Fiquei repetindo a palavra, herbarium. Herbarium. Disse ainda que gostar de botânica era gostar de latim, quase todo o reino vegetal tinha denominação latina. Eu detestava latim mas fui correndo desencavar a gramática cor de tijolo escondida na última prateleira da estante, decorei a frase que achei mais fácil e na primeira oportunidade apontei para a formiga-saúva subindo na parede: formica bastiola est. Ele ficou me olhando. A formiga é um inseto, apressei-me em traduzir. Então ele riu a risada mais gostosa de toda a temporada. Fiquei rindo também, confundida mas contente, ao menos achava alguma graça em mim.”

(TELLES, Lygia Fagundes. Os Contos. Companhia das Letras, 1. ed. 2018, pág. 170)

A forma como Lygia conduz as descobertas da personagem e seu despertar para um “eu” primitivo é magnífica. A garota pega-se pensando na relação entre a natureza e a clarividência que, em certo trecho, evidencia-se nela pela existência de uma parente curandeira da menina, que também a possui, e pela estreita relação entre a doença que o primo tem e a ideia da morte – tanto do corpo físico dele quanto do possível afastamento entre os dois algum dia.

5) A Caçada

Os Contos, Companhia das Letras
“A Caçada” (Foto: Laís Fernandes/Delirium Nerd)

Um homem vai a uma loja de antiguidades e apaixona-se por uma tapeçaria que ilustra um bosque, imerso nas profundezas da mata, um caçador. A fascinação que a peça promove no personagem é gigantesca e, após este primeiro contato, episódios delirantes começam a se desenrolar. O conto possui um ritmo cinematográfico e uma crescente de fatos que prende leitoras e leitores do início ao fim do texto; a obra lembra o romance “Rose Madder“, de Stephen King, no qual uma mulher que sofre abusos físicos e psicológicos do marido reconecta-se consigo mesma após encantar-se pelo misterioso quadro de uma guerreira.

“O homem respirava com esforço. Vagou o olhar pela tapeçaria que tinha a cor esverdeada de um céu de tempestade. Envenenando o tom ver-musgo do tecido, destacavam-se manchas de um negro violáceo que pareciam escorrer da folhagem, deslizar pelas botas do caçador e espalhar-se no chão como um líquido maligno. A touceira na qual a caça estava escondida também tinha as mesmas manchas, que tanto podiam fazer parte do desenho como ser simples efeito do tempo devorando o pano.

(TELLES, Lygia Fagundes. Os Contos. Companhia das Letras, 1. ed. 2018, pág. 60)

Lygia Fagundes Telles
Imagem de Lygia Fagundes Telles presente em “Os Contos” (Foto: Laís Fernandes/Delirium Nerd)
Lygia Fagundes Telles
Imagem de Lygia Fagundes Telles presente em “Os Contos” (Foto: Laís Fernandes/Delirium Nerd)

Ademais, cada um destes contos pode ser encontrado na antologia “Os Contos”, lançada pela Companhia das Letras em 2018 e que reúne todos os livros de histórias curtas de Lygia Fagundes Telles e textos extras inéditos. Uma obra essencial para quem é fã da autora ou quem gostaria de conhecê-la melhor.

Lygia Fagundes Telles
Lygia Fagundes Telles e seu exemplar de “Os Contos” (Foto: reprodução)

Os Contos

Lygia Fagundes Telles

Companhia das Letras

888 páginas

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Edição realizada por Gabriela Prado e revisão por Isabelle Simões.

Escrito por:

86 Textos

É estudante de Letras e fã incondicional de Neil Gaiman – e, parafraseando o que o próprio autor escreveu em O Oceano no Fim do Caminho, “vive nos livros mais do que em qualquer outro lugar”.
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