Hausu: um clássico do terror japonês sobre amadurecimento feminino

Hausu: um clássico do terror japonês sobre amadurecimento feminino

Poucas coisas são mais assustadoras do que os sonhos de uma garota, especialmente se esses sonhos são transmitidos de geração em geração, acumulando os delírios mais particulares das mulheres de uma família ou até mesmo de todo um país. No centro disso tudo está a casa. Como o título do filme sugere (Hausu, em japonês), ela desempenha um papel fundamental.

A casa é cenário, personagem e metáfora. Embora pareça ser a própria encarnação do mal, não é. Podemos entender isso ao considerar como a ideia de lugar assombrado se desenvolve ao longo do filme.

No final, a casa e suas armadilhas revelam muito sobre o amadurecimento feminino e como a guerra causa danos irremediáveis ao âmago das pessoas. House (1977), essa obra clássica do terror, demonstra como a arte, para realmente impactar a vida, precisa constantemente ultrapassar seus próprios limites.

Cena do filme de terror japonês House (1977) | Imagem: Reprodução

A casa mal-assombrada em House (1977)

Sonhos ou pesadelos? No fim, são o mesmo. Em Hausu, o tropo da casa mal-assombrada é retomado como o lugar de espera, no qual o tempo parece congelar e se misturar. Há uma mistura de momentos da história do país que surgem no filme a partir de momentos da vida de diferentes mulheres, através de suas lembranças emocionais.

Uma paixão dissolve-se em tristeza e vice-versa. A casa mal-assombrada vai do paraíso ao inferno. Não obstante, está o próprio tom do filme: é um terror com cenas de comédia? É uma comédia com um fundo de terror? O diretor Nobuhiko Obayashi consegue encontrar na mistura de temas, tempos, emoções e gêneros, o equilíbrio para sua obra.

Sem dicotomias evidentes, o longa é um verdadeiro mergulho no mundo confuso e maravilhoso do lado sonhador de uma menina. Nos primeiros momentos, tudo parece bom: Bonita (Kimiko Ikegami) e suas amigas vivem uma vida alegre. Esses momentos têm uma atmosfera etérea. Porém, em busca de se reconectar com as memórias da mãe, decide viajar para a casa em que a mãe viveu e que hoje vive sua tia.

O que a impulsiona a realizar a viagem são seus sentimentos conturbados em relação ao novo namoro de seu pai. E então, angústias do passado começam a manchar aquele mundo inocente.

Com o passar do tempo, a casa da tia ganha vida, como se alimentando da perdida pela espera. A própria tia, na verdade, é parte da casa: uma bruxa ressentida. A casa também se alimenta dela, ou de sua juventude, tomada pela guerra.

Em determinado momento – e este é um ponto de guinada – a própria Bonita se torna uma espécie de bruxa, aliada à casa na missão de destruir as garotas, uma a uma.

Hausu (House) é um filme japonês de terror que aborda o amadurecimento feminino.
Cena do filme Hausu | Imagem: Reprodução

Um gato mágico

O gato mágico em Hausu (1977)
O gato mágico em House | Imagem: Reprodução

Além disso, o que permanece de forma curiosa com as personagens – mãe, tia, filha – é o gato branco e mágico. Ele é o ponto comum entre as gerações e faz companhia às mulheres.

O gato é o melhor amigo de uma garota, e Hausu demonstra isso muito bem, colocando-o como um protetor fiel. É com o seu surgimento que o tom do filme começa a se transformar, e o próprio gato também se modifica, pouco a pouco.

Dessa forma, ele se torna parte do pesadelo sangrento, também em fidelidade às transformações mágicas e subjetivas pelas quais suas amigas passaram.

Como é dito no filme:

“Qualquer gato velho pode abrir uma porta. Apenas um gato feiticeiro pode fechar uma.”¹

A vida de Bonita nunca mais foi a mesma depois da visita do gato. O gato, afinal, era mágico.

Fechar as portas pode representar a casa, também mágica, ou a natureza cíclica das coisas: o início e o fim de um ciclo nem sempre ocorrem de maneira natural. E podem gerar muitos traumas. E apenas os sonhos conseguem traduzir o horror do medo, do abandono, da saudade.

Naquela casa, uma garota são todas as garotas. Cada menina é um arquétipo, e Bonita torna-se sua própria mãe, em uma figura fantasmagórica.

Cena do filme Hausu (1977)
Cena do filme de Nobuhiko Obayashi | Imagem: reprodução

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Homens e a guerra: uma história tão antiga quanto o mundo

Ao contrário do gato, que é um guardião, os homens não têm espaço para entender e cuidar dos traumas. Na verdade, a jornada de Bonita é influenciada pela distância que ela sente de seu pai. Mas quem vai atrás dela é sua madrasta, não ele.

Como o filme aborda os traumas da guerra, é preciso lembrar como as mulheres, deixadas para trás por seus pais, filhos e maridos, lidam com suas perdas. E esperam, ainda que a pessoa querida nunca mais retorne.

Assim, o diretor aborda temas delicados através dos rostos de meninas. Aliás, a co-roteirista de Hausu é filha do diretor Chigumi Obayashi, uma adolescente na época.

Os produtores queriam que o filme se inspirasse em Tubarão (Jaws) de Steven Spielberg, mas para nossa sorte, não hesitou em seguir para o horror visceral. E a mutilação e fragmentação do corpo são marcantes.

Uma personagem perde a cabeça enquanto come, outra perde as mãos enquanto toca piano. O físico é tão real quanto os fantasmas. Não há piedade em desfazer as partes físicas, uma vez que emocionalmente, estão todas em pedaços. Isso é notável também pelo uso de espelhos e superfícies reflexivas no filme.

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Yôko Minamida em "House" (1977)
Yôko Minamida em House | Imagem: reprodução

Por fim, com uma trilha sonora divertida e ao mesmo tempo desoladora, Hausu está repleto da doçura das amizades que fazemos enquanto jovens e das dores do amadurecimento que apenas uma filha entenderia. Representa, entre tantas coisas, a jornada de entender simultaneamente um passado que não lhe pertenceu e a si própria.

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¹ Tradução livre do inglês. 

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Estudante de Letras na Universidade de São Paulo, apreciadora de boas histórias e exploradora de muitos mundos. Seus sonhos variam entre viajar na TARDIS e a sociedade utópica onde todos amem Fleabag e Twin Peaks.
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