Os Outros: a genialidade de um clássico do cinema de terror

Os Outros: a genialidade de um clássico do cinema de terror

Vinte e dois anos após seu lançamento, Os Outros (2001) continua sendo não apenas um dos melhores filmes dirigidos pelo chileno Alejandro Amenábar, mas também permanece como uma das maiores referências de suspense e terror já produzidas. O longa está disponível atualmente no streaming Prime Video

A obra nos transporta para um cenário pós-Segunda Guerra Mundial, onde Grace (Nicole Kidman) é casada com um soldado que não retorna para casa após o conflito. Enquanto luta para preservar o bem-estar dos seus filhos Anne (Alakina Mann) e Nicholas (James Bentley), que sofrem com fotossensibilidade (sensibilidade extrema à luz), a protagonista trava um embate consigo mesma para superar a notícia da morte do marido.

O cenário é uma mansão antiga, sombria e cheia de mistérios. Em seu isolamento, Grace impõe regras rigorosas para proteger os filhos, mantendo a casa na escuridão, com cortinas fechadas e portas trancadas. No entanto, à medida que o suspense se intensifica, fenômenos bizarros começam a acontecer. Anne passa a se comunicar com um garoto chamado Victor, que não aparece para mais ninguém, ruídos perturbadores ecoam pelos corredores e os empregados parecem agir de maneira estranha.

Alakina Mann, Nicole Kidman e James Bentley em "Os Outros"
Alakina Mann, Nicole Kidman e James Bentley em “Os Outros” | Foto: Reprodução

Os Outros é muito mais do que terror psicológico ou sobrenatural

Quem assiste ao longa esperando tomar sustos no estilo jumpscare ou ver espectros fantasmagóricos assombrando uma família indefesa tem suas expectativas completamente frustradas. Contudo, isso não quer dizer que o enredo seja decepcionante, muito pelo contrário.

Amenábar conseguiu construir um dos melhores plot twists cinematográficos, sendo um forte concorrente de O Sexto Sentido, de 1999, o que o diferencia da maioria das produções de terror que o antecederam e sucederam.

Assistir Os Outros é explorar diversas camadas que não fazem o espectador pular de susto, mas aceleram o coração e as respirações, gerando um pavor angustiante durante as quase duas horas de filme, o que é ainda mais intenso do que tomar sustos repentinos.

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Como é comum em produções do gênero, o fator religioso está fortemente presente no enredo. Anne, ao constatar a presença de espíritos em sua casa, começa a questionar tudo o que aprendeu com a mãe, já que o catolicismo que lhe foi ensinado fervorosamente não admite a existência de tais seres sobrenaturais no plano terrestre.

Ao mesmo tempo, para quem acredita na doutrina espírita e suas vertentes, há uma conclusão que só pode ser tirada ao final da trama: os mortos geralmente não sabem que estão mortos até que alguém lhes informe, e a compreensão desse fato pode ser mais difícil do que se imagina.

A produção também abre uma brecha para uma discussão sobre o limite da proteção dos pais. Grace preza tanto pela saúde e segurança dos filhos que chega ao seu limite, e o pior acontece: ela cruza essa linha e se torna uma pessoa física e psicologicamente agressiva.

Nicole Kidman no filme de terror "Os Outros" (2001)
Nicole Kidman em “Os Outros” (2001) | Foto: Reprodução

Não há heróis ou vilões, apenas traumas diferentes

Desde as primeiras cenas do filme, Grace apresenta comportamentos problemáticos, que vão desde o fanatismo religioso até a tentativa de manter a esperança de que um dia os filhos reencontrariam o pai, mesmo após receber a notícia de sua morte. A matriarca da família Stewart representa o motivo principal de estar no centro de tantos acontecimentos a princípio inexplicáveis.

O trauma de viver o contexto da Segunda Guerra Mundial, perder o marido e ter de lidar sozinha com as particularidades de seus filhos foram fatores que a levaram a ultrapassar certos limites, resultando em consequências que ela sabia que seria incapaz de suportar.

Apesar de suas falas e atitudes duvidosas, Grace pode ser facilmente considerada mocinha no início, mas se transforma em uma possível vilã à medida que o filme se encaminha para o final. Contudo, na conclusão da história, percebe-se que nenhum desses títulos se encaixa em sua personalidade complicada. Grace é apenas uma mãe preocupada e, acima de tudo, uma mulher traumatizada.

Charles Stewart (Christopher Eccleston), com seu pouco tempo de tela, se torna uma incógnita desde sua primeira aparição. O espectador só compreende sua curta participação nos últimos minutos da trama, onde todas as peças se conectam para dar sentido ao enredo.

Anne e Nicholas são reflexos diretos das personalidades e das escolhas de seus pais. Anne é destemida, contesta o que lhe foi ensinado pela mãe, segue regras e, ao mesmo tempo, as quebra, assim como seu pai quando decidiu lutar na guerra. Nicholas, por outro lado, tem medo do desconhecido e prefere se agarrar à segurança proporcionada pela mãe. Até as últimas cenas, eles não aparentam ter nenhum grande trauma que justifique suas ações, mas agem conforme os abalos que afetam seus pais.

Alakina Mann e James Bentley no filme de terror "Os Outros" (2001)
Alakina Mann e James Bentley em “Os Outros” (2001) | Foto: Reprodução

Os Outros: um filme de terror que desafia os clichês do gênero

Apesar da confiança de Grace em seus novos empregados, (principalmente na governanta, a Sra. Bertha, vivida por Fionnula Flanagan) é inegável que eles guardam algum segredo acerca da casa desde sua primeira aparição. Grace não entende o motivo de os antigos trabalhadores desaparecerem repentinamente, e a ideia de ter novos funcionários que já trabalharam na casa para os antigos donos parece conveniente.

A família confia tanto nos novos moradores da mansão que só percebe que há algo errado quando coisas estranhas saem de seu controle. Em determinado momento, somos tentadas a sentir um misto de medo e raiva de Bertha, Lydia (Elaine Cassidy) e Edmund (Eric Sykes), mas isso só acontece porque estamos focados demais na vivência de Grace.

Quando a história se desenrola e o público compreende o enredo de fato, percebe-se que os atos dos funcionários foram planejados visando um bem comum. Os três personagens são os únicos que não têm problemas mal resolvidos ou apegos emocionais, mas possuem papéis de extrema importância para a compreensão do enredo.

Os Outros continua a ser uma obra-prima atemporal que pode ser facilmente descrita como um dos melhores filmes de terror de todos os tempos. O que o diferencia de muitas produções do gênero é a sua capacidade de prender o espectador do início ao fim.

A trama complexa e envolvente faz com que o público fique vidrado na história desde o primeiro momento. Ao invés do clichê de heróis e vilões, o longa se torna ainda mais envolvente ao se concentrar na profundidade dos personagens e em suas particularidades.

Alejandro Amenábar é um exemplo de que é possível criar terror sobrenatural valorizando a complexidade humana em vez de se apoiar apenas em clichês do gênero. Dessa forma, o diretor deixa uma marca duradoura na mente dos espectadores.

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Uma jornalista apaixonada por música, literatura e cinema. Seus maiores hobbies incluem criar playlists para personagens fictícios e falar sobre Taylor Swift nas redes sociais.
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