As Meninas, de Lygia Fagundes Telles: pautas feministas e afronta à ditadura militar

As Meninas, de Lygia Fagundes Telles: pautas feministas e afronta à ditadura militar

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Em seu romance As Meninas (1973), Lygia Fagundes Telles deixou bem claro o seu desagrado e recusa para com o regime militar (em 1976, junto com alguns intelectuais da época, foi à Brasília levando um documento contra a censura, conhecido como o Manifesto dos Mil). Nesta obra, a leitora se depara com três jovens que fogem ao estereótipo das heroínas dos romances da época.

Lorena, nascida em uma família nobre, cursa Direito e mora em um pensionato de freiras com as duas amigas, Lia (ou, como é mais conhecida, Lião – militante comunista, estudante de Ciências Sociais, filha de uma baiana e de um alemão ex-nazista e autora das melhores reflexões do livro) e Ana Clara (ou Ana Turva, por ser a mais misteriosa das três, tendo problemas com álcool e drogas – por isso, chega a trancar o curso de Psicologia).

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Lia (Drica Moraes), Ana Clara (Cláudia Liz) e Lorena (Adriana Esteves), na adaptação cinematográfica do livro As Meninas (1995).

As Meninas começa com Lorena refletindo acerca de seu envolvimento com M. N., um médico casado e pai de cinco filhos, que supostamente não a quer mais. Por se tratar de um romance escrito inteiramente por fluxo de consciência (a narrativa se mescla aos pensamentos das personagens), não se pode saber ao certo se tal circunstância é real ou apenas fruto da imaginação da menina. Por estar ociosa (a Universidade em que estuda está em greve), Lorena passa dias e mais dias trancada em seu quarto no pensionato, apenas ouvindo discos da época, meditando e pensando em seu amor não correspondido, o que irrita Lião, possuidora de personalidade forte e determinada a mudar o sistema, ainda mais ao saber que seu namorado, Miguel, havia sido preso e poderia ser exilado do Brasil a qualquer momento.

Ana Clara é noiva de um homem rico, porém passa as noites com o amante Max, traficante de drogas e extremamente abusivo. As cenas em que aparece, geralmente nua e drogada ao lado de Max, são perturbadoras, uma vez que os pensamentos de Ana são completamente desconexos e o ambiente sujo onde Max dorme passa à leitora uma sensação de intensa claustrofobia.

O lócus serve como metáfora para a condição de sofrimento em que Ana se encontra. Ela por vezes tem alucinações e lapsos de memórias antigas, revelando muito sobre seu passado (quando criança fora abusada por seu dentista, o Doutor Algodãozinho, por quem nutre um ódio mortal). Ana sonha em levar uma vida confortável e sustenta em seu imaginário uma existência regada à luxos que nunca poderá levar, ao menos que se case com o futuro marido, chamado por ela de “O Escamoso” – outro representante da imposição machista na obra.

É a personagem que mais sofre por conta do machismo, não apenas pelo abuso do passado, mas também por ser submissa a Max, que cada vez mais a incentiva a consumir drogas pesadas, acabando com qualquer lucidez e projeção de um futuro tranquilo que ela poderia vir a possuir.

Além de críticas veladas ao sistema político autoritário e violento dos militares, o livro aborda diversos temas que eram encarados como tabus e que hoje são pautas sociais importantíssimas, como a visibilidade lésbica (Lia relata ao amigo, Pedro, que namorara uma garota antes de ingressar na faculdade e que terminara o relacionamento por culpa dos pais de ambas, que não aceitaram o relacionamento e fizeram com que se afastassem) e também a liberdade sexual feminina, reprimida pela sociedade no geral, principalmente por doutrinas religiosas, como quando Lia discute com uma das irmãs do pensionato sobre a virgindade de Lorena:

– (…) Você não sabe guiar? Leva o carro e deixa lá com Loreninha, quem sabe ela resolve vir. Minha filhinha querida. Foi uma criança tão educada, tão gentil. Colecionava pedrinhas, folhas. Estava sempre salvando algum bichinho que caía no rio. Ela ainda é virgem?

– Ainda.

– Fico tão feliz por saber que continua pura – murmurou com uma expressão de beatitude. Mas logo a testa se franziu. A voz ficou embuçada: – Você não acha que ela se interessa pouco por sexo? Tenho às vezes tanto medo, está me compreendendo? Aumentou tanto ultimamente, você sabe, essas moças…

Mastigo mais um bombom.

– Não quero ser rude, mãezinha, mas acho completamente absurdo se preocupar com isso. A senhora falou em crueldade mental. Olha aí a crueldade máxima, a mãe fica se preocupando se o filho ou filha é ou não homossexual. Entendo que se aflija com droga e etcétera, mas com o sexo do próximo? Cuide do próprio e já faz muito, me desculpe, mas fico uma vara com qualquer intromissão na zona sul do outro, Lorena chama de zona sul. A norte já é tão atingida, tão bombardeada, mas por que as pessoas não se libertam e deixam as outras livres? Um preconceito tão odiento quanto o racial ou religioso. A gente tem que amar o próximo como ele é e não como gostaríamos que ele fosse. 

(…) Antigamente a santidade era vista como o máximo de penitência, caridade, aquilo que você sabe. Mudou tudo. Hoje um cristão não pode alcançar a salvação da alma sem ouvir objetivamente à sociedade. Não sei explicar, mas todo aquele que luta com plena consciência para ajudar alguém em meio da ignorância e da miséria, todo aquele que através dos seus instrumentos de trabalho, do seu ofício der a mão ao vizinho é santo. Os caminhos podem ser tortos, não interessa. É santo. 

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Lygia foi corajosa e extremamente aclamada pela crítica ao, em uma das cenas, abordar minuciosamente um relato de tortura, lido por Lia ao refletir sobre a violência da época com Madre Alix:

(…) Confesso que estou mudando, a violência não funciona, o que funciona é a união de todos nós para criar um diálogo. Mas já que a senhora falou em violência vou lhe mostrar uma — digo e procuro o depoimento que levei pra mostrar a Pedro e esqueci. — Quero que ouça o trecho do depoimento de um botânico perante a justiça, ele ousou distribuir panfletos numa fábrica. Foi preso e levado à caserna policial, ouça aqui o que ele diz, não vou ler tudo: Ali interrogaram-me durante vinte e cinco horas enquanto gritavam, traidor da pátria, traidor! Nada me foi dado para comer ou beber durante esse tempo. Carregaram-me em seguida para a chamada capela: a câmara de torturas. Iniciou-se ali um cerimonial frequentemente repetido e que durava de três a seis horas cada sessão. Primeiro me perguntaram se eu pertencia a algum grupo político. Neguei. Enrolaram então alguns fios em redor dos meus dedos, iniciando-se a tortura elétrica: deram-me choques inicialmente fracos que foram se tornando cada vez mais fortes. Depois, obrigaram-me a tirar a roupa, fiquei nu e desprotegido. Primeiro me bateram com as mãos e em seguida com cassetetes, principalmente nas mãos. Molharam-me todo, para que os choques elétricos tivessem mais efeito. Pensei que fosse então morrer. Mas resistia e resisti também às surras que me abriram um talho fundo em meu cotovelo. Na ferida o sargento Simões e o cabo Passos enfiaram um fio. Obrigaram-me então a aplicar os choques em mim mesmo e em meus amigos. Para que eu não gritasse enfiaram um sapato dentro da minha boca. Outras vezes, panos fétidos. Após algumas horas, a cerimônia atingiu seu ápice. Penduraram-me no pau-de-arara: amarraram minhas mãos diante dos joelhos, atrás dos quais enfiaram uma vara, cujas pontas eram colocadas em mesas. Fiquei pairando no ar. Enfiaram-me então um fio no reto e fixaram outros fios na boca, nas orelhas e mãos. Nos dias seguintes o processo se repetiu com maior duração e violência. Os tapas que me davam eram tão fortes que julguei que tivessem me rompido os tímpanos: mal ouvia. Meus punhos estavam ralados devido às algemas, minhas mãos e partes genitais completamente enegrecidas devido às queimaduras elétricas. E etcétera, etcétera.

Dobro a folha. Madre Alix me encara. Os olhos cinzentos têm uma expressão afável. 

A obra de Lygia Fagundes Telles engloba os sofrimentos de três jovens distintas em uma linguagem poética que faz a leitora, por vezes, repensar seus próprios conceitos. Apesar da falta de pormenores sobre o que acontecia na sociedade, o que o período não permitia, consegue-se perceber a atmosfera tensa daqueles anos tão marcantes para os brasileiros.

As Meninas mostra a força das jovens em suas decisões, ideologias, angústias, amores e filosofias, personagens tão pouco cultuadas ou psicologicamente trabalhadas nos romances de época. É lindo ver como as três amigas se amparam e encontram num cômodo simples, o quarto de Lorena, uma fortaleza para aquilo que elas tanto temem: os homens monstruosos que as sondam, tirando delas qualquer resquício de sanidade. Juntas são mais fortes e conseguem encontrar forças para enfrentarem o que quer que apareça pela frente.

Nas palavras do crítico Nogueira Moutinho: “com extraordinária lucidez, a autora cometeu a ousadia de incorporar ao universo ficcional de nosso tempo uma personagem que nele não tinha voz: a jovem. Livro árduo, dolorido, aliciante.”

Ana Clara fazendo amor. Lião fazendo comício. Mãezinha fazendo análise. As freirinhas fazendo doce, sinto daqui o cheiro quente de doce de abóbora. Faço filosofia. Ser ou estar. Não, não é ser ou não ser, essa já existe, não confundir com a minha que acabei de inventar agora. Originalíssima. Se eu sou, não estou porque para que eu seja é preciso que eu não esteja. Mas não esteja onde? Muito boa a pergunta; não esteja onde. Fora de mim, é lógico. Para que eu seja assim inteira (essencial e essência) é preciso que não esteja em outro lugar senão em mim. Não me desintegro na natureza porque ela me toma e me devolve na íntegra: não há competição mas identificação dos elementos. Apenas isso. Na cidade me desintegro porque na cidade eu não sou, eu estou: estou competindo e como dentro das regras do jogo (milhares de regras) preciso competir bem, tenho consequentemente de estar bem para competir o melhor possível. Para competir o melhor possível acabo sacrificando o ser (próprio ou alheio, o que vem a dar no mesmo). Ora, se sacrifico o ser para apenas estar, acabo me desintegrando (essencial e essência) até a pulverização total. Vaidade das vaidades. Apenas vaidade. A conclusão é bíblica mas responde a todas as perguntas deste mundo desintegrado e confuso. 

Lembro da ampulheta quebrada, entrei no escritório do pai pra pegar o lápis vermelho e esbarrei no vidro do tempo. Fiquei em pânico, vendo o tempo estacionado no chão: dois punhados de areia e os cacos. Passado e futuro. E eu? Onde ficava eu agora que o era e o será se despedaçara? Só o funil da ampulheta resistira e no funil, o grão de areia em trânsito, sem se comprometer com os extremos. Livre. Sou.

(As Meninas, Lygia Fagundes Telles, pág. 240)

Lygia Fagundes Telles As Meninas
Lygia Fagundes Telles

Lygia Fagundes Telles nasceu em 19 de abril de 1923, em São Paulo. Filha de uma pianista e de um promotor público, decidiu seguir os passos do pai, cursando Direito na Faculdade de Direito Largo São Francisco, na Universidade de São Paulo. Também cursou a Escola Superior de Educação Física na mesma faculdade. Trabalhou como Procuradora do Instituto de Previdência do Estado de São Paulo, cargo que exerceu até sua aposentadoria. Sua consagração literária veio em 2005, com o prêmio Camões, distinção maior em língua Portuguesa pelo conjunto de sua obra. Seus livros foram traduzidos em diversos países: Portugal, França, EUA, Alemanha, Itália, Holanda, Suécia, Espanha.

Com obras adaptadas para a tevê, teatro e cinema, foi ainda roteirista premiada com o prêmio Candango, com Capitu (1967), baseado em Dom Casmurro, de Machado de Assis. Escritora premiada, ocupa a cadeira n° 16 da Academia Brasileira de Letras.

As Meninas (1973) ganhou os prêmios: Prêmio Coelho Neto da Academia Brasileira de Letras, Prêmio Ficção da Associação Paulista de Críticos de Arte e Prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro.


As Meninas

Companhia das Letras

304 páginas

Ano: 2009.

Onde comprar: Amazon


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É estudante de Letras e fã incondicional de Neil Gaiman – e, parafraseando o que o próprio autor escreveu em O Oceano no Fim do Caminho, “vive nos livros mais do que em qualquer outro lugar”.
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