[CINEMA] Visages, Villages: A trajetória de Agnès Varda (crítica)

[CINEMA] Visages, Villages: A trajetória de Agnès Varda (crítica)

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O documentário Visages, Villages retrata o encontro de Agnès Varda, artista veterana – que começou sua carreira como cineasta e fotógrafa no início da Nouvelle Vague francesa, nos anos 50, – e JR, jovem artista plástico e muralista francês, conhecido por suas intervenções em muros e paredes espalhadas pelo mundo. Juntos, eles saem pelo interior da França retratando imagens de pessoas comuns, conectando suas histórias pessoais e divagando a respeito da vida, da memória, de seus trabalhos como artistas e sobre o envelhecimento.

Varda, belga radicada na França, nasceu em 1928 e seus trabalhos flertam com a experimentação, o feminismo e a crítica social. Foi personagem importante na construção do cinema francês moderno, porém é comumente esquecida ou pouco reconhecida.

Em sua filmografia consta uma lista de 46 filmes, a partir de 1955, com La Pointer Coulter, até 2008, com Lesplages dÁgnèsTrabalhou com os grandes nomes da nouvelle vague francesa, inclusive tendo sido casada com Jacques Demy, também cineasta.

JR, nasceu na França em 1983. Seu trabalho como fotógrafo e artista urbano é conhecido pelas imensas fotos de olhos ou rostos de desconhecidos que estampam muros e paredes pelo no mundo. No Brasil, seus rostos serviram de adorno para os Arcos da Lapa e o Morro da Providência, ambos no Rio de Janeiro, alguns anos atrás.

Visages, Villages começa quando os dois embarcam no caminhão de JR, que serve de estúdio fotográfico para suas fotos e que também conta com uma impressora gigante para imprimir as imagens captadas pela dupla. Eles seguem por vilarejos do interior , retratando pessoas que estamparão paredes e muros esquecidos pelo tempo, costurando as histórias de Agnès e sua experiência como artista, seus filmes, memórias, afetos, rugas …

A dupla segue um roteiro sugerido por Varda, onde ela resgata suas histórias e permite ao espectador conhecer um pouco de sua mente e sua importância no cinema francês. Nesse roteiro, os dois visitam o tumulo de Henri Cartier-Bresson, famoso fotógrafo que foi amigo de Varda, e tentam reproduzir algumas fotos que ela tirou de seu amigo (já falecido) e também fotógrafo  Guy Bourdin.

Visages, Villages
Imagem: Visages, Villages

JR parece admirar Varda e a acompanha por essa viagem no tempo de uma forma bem generosa e carinhosa. Varda, por sua vez, fica intrigada com o jovem, cuja marca registrada são os óculos escuros (inseparáveis) e seu chapéu. Ela sofre com uma certa deficiência visual, que a impede de enxergar com nitidez, e esse fato vira um ponto de inflexão em determinado momento do filme pois, na opinião dela, o fato de JR poder enxergar com nitidez e optar por fazê-lo através de seu óculos escuros a deixa curiosa e até um tanto incomodada.

É interessante essa questão que aparece entre eles, afinal alguns dos trabalhos de JR são as aplicações de grandes olhos em paredes. São fotos gigantescas de olhos que parecem ver tudo, ver além do que podemos enxergar, e o encontro de dois artistas visuais, onde um deles está perdendo a capacidade visual e o outro usa lentes escuras faz com que pensemos que, além da poesia que suscita desse acaso, o quanto a questão da idade faz tudo ser relativo.

Agnès tem 89 anos. Para ela a visão é sua ferramenta de trabalho, são suas lentes, é a partir deles (dos olhos) que ela enxerga e vê o mundo. Em seu entendimento, ver com clareza e nitidez, sem nenhum filtro, é muito precioso(óbvio que para todos nós), e na medida que o tempo passa e sua capacidade lhe é retirada, por conta do envelhecimento, ela vai perdendo o brilho e a vivacidade. Já JR tem uma vida toda pela frente, seus olhos funcionam perfeitamente e a benesse da juventude e a promessa do tempo lhe permitem optar por ver e enxergar o mundo de uma forma protegida e filtrada.

Ela então passa a pedir para fotografar o rapaz sem os óculos, o que ele obviamente reluta e não permite. Porém, faz parte do roteiro de Varda uma visita ao antigo amigo Jean-Luc Godard, cuja a expectativa do encontro provoca em Agnès certa ansiedade, pois ela considera a possibilidade do amigo não recebê-la.

Visages, Villages
Imagem: Visages, Villages

Godard, assim como JR, usava inseparáveis óculos escuros, e Varda conseguiu retratar o amigo sem suas lentes, no passado. Porém, quando finalmente a dupla chega à cidade onde deveriam encontrar Godard, o veterano cineasta (e reconhecido temperamental) de fato não os recebe, o que deixa Varda inconsolável. Para agradar a amiga e demonstrar confiança, JR permite que Agnes o veja, mas não o fotografe, sem os óculos.

“Os olhos são as janelas da alma”, essa frase de Edgar Allan Poe é ideal para ilustrar o que Varda admira no trabalho artístico de JR e no desejo (que ela nutre) em ver os olhos do amigo sem seus óculos escuros. Ela parece buscar aquilo que pouco a pouco o tempo lhe rouba: a alma, a vida e o tempo. A arte de JR é fulgaz, permeável ao tempo e o reflexo de uma geração onde a interatividade e as redes sociais são a base para o futuro.

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Ver o mundo com nitidez é uma questão relativa quando se é jovem: a vida, o tempo e as promessas nos parecem eternas. No caso de JR ele ainda pode enxergar tudo através dos grandes olhos colados nas paredes, já Varda nos deixará um legado cinematográfico e imagens que seus olhos captaram ao longo de sua incrível jornada e refletem sua alma talentosa e sua visão de mundo.

Visages, Villages é um filme delicado e poético, cujo olhar desses dois artistas ilustra de forma maravilhosa a trajetória de Agnès Varda.

O documentário Visages, Villages está em cartaz nos cinemas!


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Mulher, mãe, profissional e devoradora de filmes. Graduada em Psicologia pela Universidade Metodista de São Paulo, trabalhando com Gestão de Patrocínios e Parceiras. Geniosa por natureza e determinada por opção.
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