Star Wars – Os Últimos Jedi: a força está com as mulheres!

Star Wars – Os Últimos Jedi: a força está com as mulheres!

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O equilíbrio é sempre a chave de Star Wars. Ao longo dos outros sete episódios, a balança entre o bem e o mal foi a força motriz do enredo. Talvez nenhum outro filme tenha sido capaz de explorar tanto e tão bem a oposição de forças que existe em cada indivíduo. Até mesmo na jornada de Anakin Skywalker a discussão da contraposição foi sobreposta por sua vilanização. Enfim, chega o filme que revela que o bem o e mal existem dentro de cada pessoa, e que é possível escolher o bem mesmo quando admiti-se o mal. É possível resistir mesmo diante de suas fraquezas.

Apesar de longo, o filme prende a atenção e é um das melhores da franquia. O roteiro e a direção de Rian Johnson, baseados na história original de George Lucas, intercalam ação e cenas de comédia típicas de Star Wars com um aprofundamento da narrativa. Desse modo, torna-se uma produção leve, ainda que de enredo mais pesado. Como os segundos filmes das trilogias de Star Wars, Os Últimos Jedi apresenta um contexto mais sombrio.

O filme consiste no aprofundamento da jornada iniciada em O Despertar da Força. A protagonista Rey (Daisy Ridley) finalmente encontra Luke (Mark Hamill) na esperança de que ele a guie diante de sua força e auxilie a Aliança contra o autoritarismo da Primeira Ordem – e contra Kylo Ren (Adam Driver). Enquanto isso, Finn (John Boyega) e Poe (Oscar Isaac) encaram, junto à resistência comandada por Leia (Carrie Fisher) a ameaça direta da Primeira Ordem. Assim, precisam descobrir seus papéis dentro da Aliança e buscar uma forma de derrotar o novo império do mal.

[CONTÉM SPOILERS A PARTIR DAQUI]

Os Últimos Jedi

Determinismo do mal

Durante o primeiro filme, muito se questionou onde estaria Luke. O personagem heroico dos capítulos IV, V e VI somente aparece na cena final. E desde então é possível saber sua recusa em participar dos conflitos que se estabelecem na galáxia. As razões pelas quais ele se afasta, no entanto, são melhor exploradas em Os Últimos Jedi. Em um jogo de lembranças e  perspectivas, o conflito entre Kylo Ren/Ben Solo e Luke é explicado.

O ponto forte do filme da franquia é, de fato, a dualidade que proporciona aos seus personagens. Ao mesmo tempo em que Luke é colocado como o mestre – infelizmente, como usualmente, um homem é colocado como o guia de uma forte, embora inexperiente, mulher -, é também apresentado como o indivíduo que desperta todo o mal acumulado em Ben Solo. A prepotência de sua “luz” o fez pensar ser capaz de punir um indivíduo pela suposição de um mal futuro. Tal atitude é o que faz as “trevas” de Ben Solo, estimuladas por Snoke (Andy Serkis), transformarem-no em Kylo Ren.

É, de certo modo, a mesma lógica utilizada na trajetória de Anakin – e muito dessa lógica será levantada no filme. A previsão de um suposto mal muitas vezes gera reações imediatas que serão a própria causa do mal previsto. Anakin previu a morte de Padmé e se juntou aos Sith, causando o futuro previsto. Esse raciocínio é utilizado tanto com Luke quanto com Rey. Luke sente o mal em Ben Solo e acaba por despertá-lo. Já Rey prevê uma união com Kylo Ren/Ben Solo e auxilia na sua ascensão.

Os Últimos Jedi

Busca pelas origens

A culpa de Luke o consome, de modo que ele se isola. Tido como a esperança para a aliança, porém, é encontrado por Rey, a pedido de Leia. Rey espera convencer Luke a treiná-la para ser uma jedi. E, assim, compreender e lidar com a força que se manifesta através dela.

Rey continua a ser assombrada pelo não conhecimento de quem foram seus pais. Esta é revelada como sendo sua grande fraqueza. O desejo de conhecer suas origens a move em busca da força, mas também a ameaça diante da tentação do mal. Todavia, seu desejo profundo parece estar ligado a uma necessidade de reconhecimento da figura paterna em detrimento da figura materna.

Os Últimos Jedi

O clichê fortalecimento da figura paterna

Se no primeiro filme a protagonista coloca seus anseios paternos em Han Solo, na continuação os coloca em Luke. Inclusive o fato é apontado por Kylo Ren/Ben Solo em uma das várias conversas que trava com Rey. Rey não admite a recusa de Luke de auxiliá-la no treinamento e é desapontada pela seu isolamento diante da ruína da galáxia. É mais, no entanto, um anseio de preenchimento de figura paterna do que um legítimo apoio à causa, ainda que, por óbvio, ela também deseje e lute para o fim da Primeira Ordem.

Quando lhe é dada a chance de ter o que verdadeiramente deseja, sua pergunta é sobre quem são seus pais. É necessário compreender a necessidade individual de conhecimento da origem e do papel no amadurecimento do indivíduo. No entanto, é imprescindível analisar também de que modo que essa necessidade é retratada.

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Por que o anseio de Rey é apenas conectado a personagens masculinos? Ainda que tenha interagido com Leia ao final do primeiro filme, não se pode ignorar a conexão que foi estabelecida entre a personagem e Han Solo e Luke Skywalker. Leia, do mesmo modo que Rey e Luke, pode manusear a força. É positivo que duas mulheres poderosas tenham essa capacidade. Ainda assim, o esforço de fazê-la um exemplo a ser seguido por Rey é ínfimo. Claro, Leia nunca foi treinada para ser uma jedi, como Luke foi. Isto não impediria, porém, que Rey vislumbrasse em Leia um exemplo a ser seguido, tendo em vista que não somente possui conexão com a força como é uma excelente general. E mesmo diante desses fatos, o exemplo feminino não é ressaltado. O anseio de ascendência de Rey parece se limitar à figura do pai.

Os Últimos Jedi

A resistência é feminina

Se por um lado o filme coloca um homem como a inspiração de sua protagonista, por outro apresenta muitas mulheres que poderiam ser exemplos para quaisquer personagens. Os Últimos Jedi é, de longe, o filme da franquia que mais apresenta personagens femininas de relevância. Mais do que isso, coloca-as em papéis que fogem ao estereótipo de sexualização ou submissão.

Enquanto na Primeira Ordem há apenas uma personagem explicitamente feminina – Capitã Phasma (Gwendoline Christie) – e a alta liderança é majoritariamente masculina; na Aliança, destaca-se a presença de mulheres liderando a resistência contra o caos criado por homens. Nos cargos de comando, além de Leia, há a introdução da Almirante Holdo (Laura Dern), que exerce papel importantíssimo no rumo da narrativa e na discussão de papéis femininos na ficção. Em outros cargos, há a introdução de personagem Rose Tico (Kelly Marie Tran), que cuida da manutenção da nave da Aliança.

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Personagens femininas que não interagem entre si

Como nem tudo são flores, infelizmente há pontos negativos mesmo diante da quantidade de personagens femininas de valor. É espetacular que o filme tenha quebrado com estereótipos e, não somente apresentado mais mulheres, como concedido importância e poder de fala a elas – vale lembrar que, embora Leia fosse essencial aos primeiros filmes de Star Wars, teve poucas falas em comparação aos personagens masculinos. Todavia, uma quantidade considerável dessas falas são em interações com personagens masculinos.

Uma das poucas interações entre duas ou mais mulheres ocorre entre a Almirante Holdo e a General Leia. É uma cena breve quando comparada às interações de Holdo e Poe, de Leia e Poe, de Finn e Poe, de Rose e Finn, de Rey e Kylo/Ben, de Rey e Luke ou Luke e Kylo/Ben. Não obstante, não discute estratégias para a condução da narrativa. Mais cenas poderiam ter sido inclusas sem prejuízo da narrativa, inclusive no final da obra. Apesar disso, a cena entre Holdo e Leia é significativa do ponto de vista de reconhecimento da força feminina e do respeito e admiração entre mulheres.

Os Últimos Jedi

Autoridade feminina questionada por homens

A almirante Holdo assume o comando da Aliança quando a general Leia é ferida por um ataque da Primeira Ordem. Como comandante, ela coloca em prática sua estratégia sem dar satisfação de seus planos ao então rebaixado Poe. Poe, que por sua inconsequência foi rebaixado por Leia, não admite a estratégia dessa mulher em posição superior a ele. Convence-se, então, de que é um ato de covardia dela e reúne alguns membros da Aliança em um motim.

Por que é difícil para os homens admitirem o comando feminino? Poe é descrito como um rebelde inconsequente, embora com boas intenções. Todavia, é preciso refletir se a atitude do personagem seria a mesma se seu comandante fosse um homem. É mais fácil nas narrativas colocar homens em oposição a ordens femininas do que homens em oposição a ordens masculinas. Isto se deve à equívoca ideia de que os comandos masculinos são mais inteligentes ou que a figura masculina possui mais autoridade.

Holdo possuía um histórico exemplar. Nada desmerecia sua posição ou sua ordem. E um homem, por não estar inteirado do plano central, coloca tudo em risco. Positivamente, o filme destaca isso. E mais, mostra como o desacato de Poe foi maléfico aos planos da Aliança. Enquanto Holdo agiu em um inteligente autossacrifício para salvar seus companheiros, Poe agiu em um ato de heroísmo impensado e vaidoso, o qual culminou na morte de vários rebeldes. E, justamente, foi repreendido por Leia – muito embora o fato tenha servido para que ele alcançasse a maturidade como um líder masculino. Novamente, mulheres se sacrificam para o crescimento de homens.

Os Últimos Jedi

A opressão além das figuras centrais

Rose, uma personagem de etnia asiática, encontra Finn quando este tenta fugir com o sinalizador de Rey. Depois de atrapalhar os planos de Finn, Rose é quem fornece uma solução para a inovação tecnológica da Primeira Ordem. Quando a Primeira Ordem descobre um método de de rastrear a Aliança pela velocidade da luz, é a inteligência e a técnica de Rose, que exerce um papel comumente fornecido a homens, que dá base para plano de Finn e Poe.

Através de DJ (Benicio Del Toro), Rose e Finn descobrem um modo de burlar a segurança da Primeira Ordem e impedir que a Aliança seja novamente rastreada. Quando eles finalmente conseguem invadir a nave, porém, descobrem uma traição, a qual é responsável pelo ataque aos rebeldes. É isto que revela a falha na estratégia abordada na relação entre Poe e Holdo.

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Entretanto, Rose é importante também por outros aspectos. É por meio dela que o filme aborda a opressão da Primeira Ordem no restante da Galáxia. Embora a maior parte do filme foque nos conflitos entre Rey, Luke e Kylo Ren, é através de Rose que se aborda a escravidão.

Pelos olhos de Rose, vê-se a separação entre duas classes: aqueles que se beneficiam da guerra e aqueles que são escravizados pela guerra. Acima das forças opostas em um conflito bélico, há aqueles que lucram com ambos os lados: os fornecedores de armas. Sempre há pessoas lutando em lados opostos, mas há sempre também aquelas, boas ou más, que interferem de outros modos.

Os Últimos Jedi

Aliança rebelde e a luta das minorias

A nova trilogia de Star Wars inovou positivamente em muitos sentidos, apesar dos apontamentos ainda necessários. Trouxe mais personagens femininas em posições relevantes à narrativa e em posições da autoridade. Ainda, trouxe novos perfis de personagens. A inserção de um protagonista negro e de uma mulher que não em posição de realeza foram grandes destaques da obra. Neste novo filme, inserem ainda uma personagem importante de origem asiática.

É interessante observar que a diversidade dos personagens é verificada mais na Aliança que na Primeira Ordem. Enquanto no grupo rebelde existem homens e mulheres de etnias diferentes, na Primeira Ordem os membros são majoritariamente homens e, das quatro autoridades apresentadas, entre elas uma mulher, todos são caucasianos.

No tocante à origem do herói, é importante destacar que Rey se legitima como heroína independentemente de seu status prévio. Anakin não possuía status, mas tornou-se vilão. Luke e Leia eram ambos filhos de uma princesa (Padmé Amidala), embora apenas Leia tenha sido criada como uma princesa. Rey, porém, como se fala no filme “é ninguém”. Até o momento, ela é apenas uma pessoa comum que foi escolhida pela força. E o filme dá destaque à resistência de pessoas comuns, através de crianças escravas que se unem à causa rebelde – o que, aparentemente, terá importância futura para a saga.

Não é, claro, um apelo à falácia da meritocracia. A sociedade concede chances diferentes às pessoas. Entretanto, relevante é mostrar a necessidade de luta e resistência independentemente do status social ou da etnia. Assim, a Aliança mostra-se como uma luta das minorias no universo fictício de Star Wars.

Os Últimos Jedi

Os Últimos Jedi: um filme que se adapta às mudanças do tempo

Algumas perguntas permanecem. Quem era Snoke? Como ele chegou a Ben? Rey é realmente filha de pessoas desconhecidas ou há algo mais? A força estaria despertando em outros indivíduos? Enfim, não era de se esperar que o segundo filme respondesse a todos os questionamentos levantados desde a estreia da nova trilogia. O capítulo IX responderá várias das inquietantes dúvidas e, provavelmente, também deixará algumas sem resposta e criará outras.

Por fim, o importante é reconhecer os méritos de Os Últimos Jedi, apesar de todas as críticas realizadas. É um filme espetacular, com boas atuações e um enredo que une o melhor da primeira e da segunda trilogia. Capta a aura da trilogia original, mas traz a profundidade de enredo e personagens própria da saga de Anakin Skywalker. Consegue entreter com ação e tiradas de comédia típicas, ao mesmo tempo em que revela o aspecto sombrio da jornada de Rey. Discute a dualidade de forças e o equilíbrio dentro de cada indivíduo e rompe com o extremismo de oposição entre bem e mal. E, mais importante, faz isso através da inclusão de diversidade e de mulheres atuantes e além de estereótipos.


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Mestra em Teoria e História do Direito e redatora de conteúdo jurídico. Escritora de gaveta. Feminista. Sarcástica por natureza. Crítica por educação. Amante de livros, filmes, séries e tudo o que possa ser convertido em uma grande análise e reflexão.
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