[CINEMA] A representatividade feminina e importância de Carrie Fisher

[CINEMA] A representatividade feminina e importância de Carrie Fisher

Carrie Frances Fisher nasceu em Los Angeles no dia 21 de outubro de 1956. Desde pequena esteve exposta ao estrelato, filha da atriz Debbie Reynolds com o cantor Eddie Fisher. Assim como Carrie, seus irmãos também seguiram carreira artística, sendo o mais novo, Todd Fisher, ator e produtor, e suas meia-irmãs por parte de pai Joely Fisher e Tricia Leigh Fisher atrizes.

Sua estreia no cinema aconteceu em 1975 com a comédia “Shampoo” do diretor Hal Ashby. O longa conta a história de George Roundy (Warrer Beatty), um cabeleireiro famoso em Beverly Hills que procura abrir seu próprio salão. Acaba vendo no marido de uma de suas clientes a chance de conseguir um financiador, por ser um rico empresário. Porém, tenta fazer isso enquanto mantém um caso com a esposa, amante e a filha adolescente Lorna (Carrie Fisher). Apesar da história conter um roteiro com tendências machistas, é interessante observar que algumas lutas feministas que aconteciam na época também tiveram influência na história. Uma década antes do filme a pílula anticoncepcional surgiu, e a liberdade sexual das mulheres é evidenciada na produção.

O papel icônico de Princesa Leia veio apenas dois anos depois que Carrie fez sua primeira aparição nas telonas. Em 1977, foi escalada para viver a personagem na saga Star Wars, dirigida por George Lucas. A princesa foi um marco na representatividade feminina no cinema, tirando a figura de uma mulher indefesa e apresentando uma personagem determinada e sem medo de lutar. Carrie desde o início queria um papel “não convencional” aos estereótipos femininos, tendo confessado em entrevista ao SFX que na primeira vez em que leu o roteiro de “Star Wars: Uma Nova Esperança”, se interessou em interpretar Han Solo, tendo achado de longe o personagem mais interessante do filme.

Lute como uma garota, lute como Leia Organa

O sucesso de Star Wars foi imediato. Os personagens se tornaram ícones da cultura pop. A princesa Leia ficou marcada pela sua personalidade e por seu penteado, os coques laterais copiados por cosplays do mundo inteiro. George Lucas, em declaração oficial, afirmou que a ideia do penteado lateral veio das revolucionárias mexicanas do início do século XX conhecidas como Adelitas, seguidoras do movimento de revolução de Pancho Villa. Existem controvérsias quanto a veracidade dessa declaração, já que o penteado foi visto também em obras dos quadrinhos, inclusive na personagem Bárbara Gordon, a Batgirl, e sabe-se que o diretor buscou muitas das referências de “Star Wars” neste universo.

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Penteado das revolucionárias mexicanas que teria servido de inspiração a George Lucas
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Barbara Gordon com penteado igual ao de Leia em quadrinho da Batgirl

Durante a trilogia original da saga houveram algumas polêmicas em relação a Princesa Leia e seu figurino. Em seu primeiro dia no set de gravação, George Lucas teria pedido que a atriz não usasse sutiã por baixo da vestimenta, já que não havia roupas de baixo no espaço. No roteiro autobiográfico “Wishful Drinking”, escrito por Carrie, ela conta essa história e comenta que o diretor afirmou queQuando você vai para o espaço, você fica sem peso. Mas então depois seu corpo se expande, mas seu sutiã não. Então você pode ser sufocada por seu próprio sutiã”. Por causa desta fala, Carrie disse que não importava a maneira que morresse, no seu obituário deveria constar que morreu ao luar sufocada pelo próprio sutiã.

Uma das mais conhecidas polêmicas, no entanto, se trata do traje de escrava vestido por Leia em “O retorno de Jedi”, quando foi aprisionada por Jabba Hut. O biquíni famoso retratava Leia como símbolo sexual na franquia, e foi motivo de desconforto para a atriz. Em um bate-papo organizado pela revista Interview, ela deu um conselho à atriz Daisy Ridler, que interpreta a personagem Rey na nova trilogia. Falou que Daisy deveria estar preparada para uma possível objetificação de sua personagem, e para resistir caso isso acontecesse. “Não seja uma escrava como eu fui, lute pelo seu figurino”, disse Carrie.

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O traje de escrava que Carrie foi obrigada a usar em “O Retorno de Jedi”

Durante a década de 1980, a atriz participou de diversos filmes além de “Star Wars”, como “Hannah e suas irmãs” (1986), de Woody Allen, e “Meus vizinhos são um terror” (1989), de Joe Dante, tendo contracenado com Tom Hanks no último. Uma grande paixão de Carrie sempre foi a literatura, tendo encontrado um refúgio para seus problemas na escrita. Em seus livros relatou os problemas com drogas e confessou sofrer com o transtorno de bipolaridade. A sua autobiografia “Wishful Drinking” de 2008 foi transformada em documentário pela HBO. Entre as histórias, conta ter começado a usar cocaína durante as gravações de “O Império Contra Ataca” para aguentar o ritmo das filmagens. Somado a seus problemas emocionais, a atriz passou por diversas clínicas de reabilitação.

O transtorno bipolar é um distúrbio mental no qual a pessoa pode oscilar entre ânimo (mania ou hipomania) elevado e depressão. As mudanças comportamentais alteram a conduta e podem afetar o convívio social e levar a atos inconsequentes. Em casos mais graves, o paciente pode se tornar agressivo e pensar em tentativas de suicídio.

Carrie decidiu expor sua condição para incentivar outras pessoas com o mesmo problema a procurarem ajuda especializada. Pelo seu ativismo e humanismo cultural, a Universidade de Harvard concedeu em 2016 um prêmio à Carrie Fisher por falar com franqueza e trazer o assunto a público com criatividade e empatia.

A atriz sempre buscou comentar assuntos relacionados ao comportamento da mídia e criticar interesses sexistas da indústria hollywoodiana.  Em 2011, durante uma entrevista no programa da apresentadora norte-americana Oprah Winfrey, declarou ter visto sua mãe, que emplacou musicais de sucesso como “Cantando na Chuva” em 1952, ser chamada cada vez menos para filmes conforme sua idade avançava. As duas viviam uma relação de altos e baixos, mesmo assim eram próximas.

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Debbie e Carrie
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Mãe e filha em 1972

Carrie Fisher morreu no dia 27 de dezembro de 2016 devido a um ataque cardíaco. Sua mãe, Debbie Reynolds, teve um AVC e faleceu apenas um dia após sua filha. Duas estrelas que marcaram suas épocas se foram em uma semana trágica para todos os amantes de cinema. Mas o legado que fica é o da resistência. Antes de sua morte, Carrie já havia encerrado as gravações de Star Wars episódio VIII, que tem estreia prevista para o final deste ano, no qual voltou a interpretar sua personagem mais famosa, a Princesa (agora General) Leia. Ou, como pediu para ser dito, morreu no dia 27 de dezembro de 2016 sufocada ao luar com seu próprio sutiã.

 

 

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Acadêmica de jornalismo, feminista, problematizadora e apaixonada por cultura pop. Sonha em viajar o mundo, atualmente viaja nos pensamentos.
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