Black Mirror – 4ª temporada: entretenimento da violência e protagonismo feminino

Black Mirror – 4ª temporada: entretenimento da violência e protagonismo feminino

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A tecnologia fascina e amedronta. De um lado, oferece oportunidades fantásticas à experiência de humana. De outro, revela oportunidades desconhecidas e aterrorizantes. Desde sempre o desconhecido causa temor. Mitos foram inventados para suprir o que não se compreendia. E por trás, havia do constante medo de que a própria natureza humana não fosse completamente boa ou má e colocasse em risco a sua própria sobrevivência. “Black Mirror” traz os dois lados da inovação. Destaca os aspectos positivos e negativos da tecnologia. Revela que os riscos não estão nas máquinas, mas nas mãos que as operam. Tudo o que pode ser bom pode também ser mau. Este é o espelho oculto do desenvolvimento.

Do mesmo molde das temporadas anteriores, a 4ª temporada de Black Mirror apresenta seis episódios aparentemente desconexos. O choque da acusação da realidade talvez tenha se tornado mais sutil agora. O público já foi anestesiado. É menos impactante, embora traga perspectivas interessantes. Alguns episódios entretêm mais que outros. Alguns oferecem reflexões mais complexas. Alguns somente podem ser compreendidos adequadamente quando realizada uma análise da série por completo. De certo modo, todos fazem referências a uma cultura de entretenimento pela violência. Não obstante, todos os episódios são protagonizados por mulheres, o que concede importância à temporada.

[CONTÉM SPOILERS]

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Cultura de entretenimento misógino

Uss Callister,  primeiro episódio, introduz a problemática do entretenimento misógino na cultura do estupro. O tema principal é o prazer da simulação, mas pode-se trabalhar outras questões também, tais como a exposição do corpo feminino, a subutilização da capacidade feminina, liderança masculina através da humilhação e as mulheres como recompensa ao êxito masculino.

Robert Daly (Jesse Plemons) é o desenvolvedor de um jogo de simulação. Todos desconhecem, porém, que ele mantém uma versão do jogo em que cria clones virtuais de todas as pessoas que ousaram desagradá-lo.  Através da simulação de seu filme favorito, ele conquista o que sua covardia o impede de fazer na realidade. O fraco e obsessivo Daly torna-se um capitão arrogante, que manipula sua tripulação sob ameaça. Até que ele insere uma cópia da inteligente Nanette (Cristin Miloti), que busca um jeito de romper com o tormento infinito.

Comumente, a indústria cinematográfica retrata a violência contra a mulher como ferramenta de aumento do ego masculino. A recusa feminina é encarada como uma violência ao desejo masculino e não como exercício de autonomia. Em resposta, o homem ressentido acha-se no direito de usurpar a escolha feminina seja através do estupro fático ou imaginado. Pela metáfora da série, castra-a, retirando o poder sobre suas próprias genitálias. Não é, por certa perspectiva, o que se vende na pornografia?

Da mesma forma que Westworld, questiona a liberdade de uma realidade imaginada. A imagem feminina é vendida como um brinquedo ao prazer masculino em uma cura ao que ele não poderia fazer na realidade – mas que faria, muitas vezes, não houvesse uma punição, que, mesmo nesta realidade, existe, através do o que eles chamam de polícia cibernética. A legalidade, porém, nem sempre dá conta da realidade, motivo pelo qual é preciso romper com a promoção da violência.

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Controle sobre os corpos femininos na 4ª temporada

Arkangel aborda a cegueira para o mal e a questão do controle. Marie (Rosemarie DeWitt) é uma mãe zelosa com a filha Sara (Brenna Harding). As dificuldades enfrentadas no parto refletiram-se no zelo com que cuida, praticamente sozinha, de sua filha. Durante os primeiros anos de Sara, Marie possui apenas a ajuda de seu pai e da tecnologia que permite afastar Sara de todo o mal.

O programa implantado na criança possibilita que a pessoa em posse de um aparelho semelhante a um tablet controle a visão do outro indivíduo. Assim, Marie pode impedir que Sara veja o que lhe cause dor. Também pode ver exatamente o que Sara vê. Em uma sociedade movida pelo medo, essa parece ser uma boa resposta. Todavia, evitar a dor tem seu custo. Criar indivíduos alienados impede que eles enfrentem o mal.

É importante ressaltar os toques dado pela diretora Jodie Foster quanto ao relacionamento de Marie com seu pai. Afinal, parte dessa relação é o que implica no extremismo de Marie. Ainda, é parte do contexto de uma mulher que dedica sua vida quase exclusivamente à maternidade em um grau tamanho que chega a viver a vida pelos olhos da filha.

Na medida em que Sara cresce, Marie tenta lhe dar a liberdade. Chega um instante, porém, em que Sara tenta dominar seu próprio corpo, o que causa a revolta. O domínio do corpo e da sexualidade por uma personagem que não sabe lidar com o mundo, em função do contato distorcido que teve com a dor, torna-se o estopim para a violência.

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Crimes ocultos

Crocodile não apresenta propriamente uma perspectiva inovadora. A ideia central já foi vista em outros momentos, o que culmina na pergunta: até onde Black Mirror pode inovar sobre a inovação? No entanto, ainda que mediano, é interessante. Traz uma protagonista feminina criminosa em busca da impunidade e trabalha a memória.

Mia (Andrea Riseborough) foi cúmplice de um atropelamento. Anos mais tarde, o fato volta a atormentá-la e culmina em outro crime. Quando Shaza (Kir Soni Sawar), que trabalha para uma seguradora, tenta contatá-la para a resolução de um acidente, a culpa ameaça Mia. Um reprodutor de memória pode implicar em uma auto condenação. E Mia não está disposta a arriscar, por essa série de erros, tudo o que alcançou.

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A (in)certeza da felicidade nos relacionamentos na 4ª temporada

Apesar da atração pela dor, os episódios que mais fazem sucesso são os que possuem um final feliz. Em Hang The DJ, Black Mirror tenta repetir a fórmula de San Junipero do amor simulado. Através de Amy (Georgina Campbell) e Frank (Joe Cole), o episódio trabalha a questão dos aplicativos de relacionamentos e da busca por um amor idealizado.

Amy e Frank aderem a um sistema de busca pelo par ideal. O aplicativo analisa a reação da pessoa a cada relacionamento para calcular quem seria a opção perfeita. Assim, o casal que se conhece num relacionamento de menos de um dia passa por diversos outros, todos com data de finalização determinada pelo aplicativo. Até que começam a se questionar os parâmetros da tecnologia. Será que vale viver tantos relacionamentos apenas pelo aprendizado? Será que o conhecimento do fim não é a sua causa? Acima de tudo, a simulação para encontrar o que é certo não é por si o impedimento de viver um relacionamento?

Apesar das reflexões e da tentativa de ser um episódio feliz, Hang The Dj apresenta alguns problemas. Não obstante a falta de profundidade das personagens, reproduz vários clichês românticos. Coloca a infelicidade do protagonismo masculino em um companheira estereotipada como fresca e completamente diversa da protagonista bonita e legal. Enquanto isso, a infelicidade da protagonista feminina é causada pelo fato de o homem belo e legal com quem está não ser o homem mediano por quem se apaixonou no começo.

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A presa e o predador em Black Mirror

O quinto episódio da temporada, intitulado Metalhead, trabalha com as possibilidades violentas do avanço tecnológico. Sim, é um tema já retratado em outros episódios. Mas a reflexão é realizada sobe uma perspectiva sutilmente diferente.

O retorno ao passado é invocado pela filmagem em preto e branco. Faz referências aos filmes de ficção científica que retratam cenários pós-apocalípticos. Em sua narrativa, a protagonista foge de máquinas que se voltam contra os humanos. O que antes era brinquedo, bicho de estimação tecnológico a serviço do ser humano, torna-se ameaça. Em contrate, a busca por brinquedos antiquados. A simplicidade metafórica menos ameaçadora.

Metalhead explora a inversão dos papéis. O ser humano, que supõe estar no topo da cadeia alimentar com toda a sua capacidade de raciocínio, vê-se, então, no papel de presa. Em uma comparação com os porcos na lama, é ele agora quem vive sob o medo de virar apenas um corpo mórbido para o predador – sua própria inocente invenção.

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Um museu de atrocidades

O último episódio, um dos melhores da temporada, reúne uma série de inovações já apresentadas. Em Black Museum, a discussão está expressamente na utilização da tecnologia para entreter pela dor. E aborda, ainda, o racismo enraizado na cultura e, principalmente, no entretenimento.

Rolo Haynes (Douglas Hodge) mantém um museu de objetos utilizados em histórias de violência. Entre eles, destacam-se uma máquina para sentir a dor e um transfusor de consciência. Quando a misteriosa Nish (Letitia Wright) aparece para visitação, são essas as histórias que ele lhe conta.

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Na primeira, um objeto utilizado para aumento da empatia gera o amor pela dor. Quando a carga de dor experimentada é muito grande, o ser humano torna-se insensível à dor alheia e passa a experimentar a sensação de gozo pelo sofrimento do outro. A Exigência de cada vez mais dor conduz à ânsia pela violência.

Na segunda, a mente a consciência de uma mulher em coma é transportada primeiro para a de seu marido, com quem possui dificuldades na convivência, e depois para um brinquedo. No inocente objeto ela está viva, mas capacidade de expressão é restringida. Pode ver o mundo ao redor, mas não pode falar. Um modo perfeito de calar os que sofrem.

Ambas as tecnologias são unidas com o propósito de entreter por um sofrimento “ético”. Quando um homem negro é incriminado e morto, sua consciência é utilizada para aprazer sádicos e racistas. E quem pode gritar por aqueles que não são ouvidos?

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Entre problemas e reflexões da 4ª temporada

A quarta temporada da série produzida pela Netflix entretém, mas pouco inova. Apesar dos pontos importantes, também apresenta problemas nas narrativas e nos propósitos apresentados de reflexão acerca da sociedade moderna. Ainda assim, deve-se ressaltar o esforço de trazer protagonistas femininas diversas, de discutir a relação entre violência e tecnologia, inclusive com abordagens sobre sexismo e racismo.

Em uma sociedade de violência estrutural, diferentes problemáticas se conectam. Conforme a sociedade se desenvolve tecnologicamente, novas ferramentas de opressão também se desenvolvem. A opressão, então, ganha novos contornos e novas modalidades. Desse modo, é preciso analisar os espaços não vislumbrados, os aspectos aparentemente inocentes. São neles que se escondem a violência não escancarada que precisa ser combatida.


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Mestra em Teoria e História do Direito e redatora de conteúdo jurídico. Escritora de gaveta. Feminista. Sarcástica por natureza. Crítica por educação. Amante de livros, filmes, séries e tudo o que possa ser convertido em uma grande análise e reflexão.
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