Frankenstein: o monstro do machismo na vida e na obra de Mary Shelley

Frankenstein: o monstro do machismo na vida e na obra de Mary Shelley

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Autora do clássico livro de horror Frankenstein: ou o Prometeu Moderno, a inglesa Mary Shelley (nascida Mary Wollstonecraft Godwin) foi pioneira no até então pouco explorado gênero da ficção científica, por abordar elementos das ciências naturais em sua narrativa tão plural e envolvente.

A obra, que narra as incursões de Victor Frankenstein pelo mundo das ciências ocultas e naturais a fim de dar vida ao seu “humano perfeito”, tem papel fundamental na literatura feminista, uma vez que foi silenciada e teve seus créditos passados para o marido de Mary, Percy Shelley, mas ainda assim conseguiu sobreviver sob a luz de sua autora e tornou-se um marco numa época em que o cenário literário era predominantemente dominado por homens.

  1. A Criadora

Filha de William Godwin, um filósofo adepto de pautas iluministas e liberais e de Mary Wollstonecraft, também filósofa, escritora e uma das mais célebres e conhecidas feministas de seu tempo, cuja obra influencia diversas mulheres até os dias de hoje, recebeu educação empoderadora desde muito cedo, mesmo não tendo muito contato com a mãe biológica, que falecera dez dias após seu nascimento. O pai não mediu esforços para que os estudos de Mary fossem diversificados e pouco tradicionais. Muito culta, Mary lia de clássicos da filosofia e da política, por intermédio do pai e do que fora deixado pela mãe, passando por poesias, obras sobre ciência e livros sobre mitologia. E foi esta última que acendeu a fagulha da criação de sua mais famosa obra, Frankenstein:

Mary Shelley, autora de Frankenstein

“Segundo a mitologia, Prometeu foi um titã que roubou o fogo dos deuses, ato que o fez sofrer a sina cruel de ter o fígado comido por uma águia todos os dias, durante trinta mil anos. Na variante das Metamorfoses, de Ovídio, Prometeu criou um homem do barro e de partes de animais e lhe conferiu vida com a centelha do fogo celestial que roubara da carruagem do sol. Essa versão da história de Prometeu era a preferida de Mary na infância, visto que seu pai a publicara em uma coletânea de mitos clássicos”

(BRITO, Márcia Xavier de. O Prometeu Moderno e o Monstro – prefácio à edição de “Frankenstein”. DarkSide Books, 2017. Pág. 3 e 4)

Nascida de um desafio instigado pelo poeta inglês Lorde Byron, no ano em que Mary, acompanhada da meia-irmã Claire Clairmont, do marido Percy Shelley e do amigo e médico John Polidori, passavam o verão na casa de Byron na Suíça, surge na mente de Mary Shelley um rascunho do que, anos depois, viria a ser a versão oficial de Frankenstein. Todos deveriam escrever, segundo o poeta, uma história de fantasmas. Mal sabia ele que dali sairia, além do clássico da autora, a primeira aparição de um vampiro em carne e osso, criado por Polidori: Lorde Ruthven, do livro The Vampyre (1819). A obra do Dr. Polidori não teve tanto destaque quanto a de Mary, pelo fato de que a autora, contadora de histórias desde a infância, levou muito a sério a tarefa dada pelo amigo e não descansou até ter um romance aterrador e consistente em mãos:

“[…] pensar uma história – uma história que rivalizasse com aquelas que nos incitaram a tal tarefa. Uma que falasse aos medos misteriosos de nossa natureza e despertasse um horror eletrizante – uma história que fizesse o leitor olhar ao redor apavorado, que fizesse o sangue gelar e acelerasse o pulsar do coração. Caso não conseguisse fazê-lo, minha história de terror não seria digna desde nome.”

(SHELLEY, Mary. Introdução à edição de 1831. DarkSide Books, 2017. Pág. 27)

  1. As Criaturas

Ao ouvir uma conversa entre Percy e Byron acerca de teorias sobre correntes elétricas e corpos que poderiam voltar a ser animados muito após a morte, Mary, que já possuía no seio familiar a curiosidade inata por tais temas, buscou conhecer a fundo as descobertas de Benjamin Franklin, Erasmus Darwin, Galvani e Alessandro Volta. Com a mente borbulhando de novidades, conjecturou a possibilidade da existência de uma criatura, cujos membros vindos de diversas pessoas, pudesse voltar a respirar e levar uma vida como a de um ser humano gerado no ventre. E esta mesma curiosidade passa da vida real ao papel, para Victor Frankenstein, a criatura primordial de Shelley.

Nascido em uma família tradicional e cercado de cuidados, Victor Frankenstein sempre fora adepto de leituras diversas, mas ao alcançar a adolescência se interessa por temáticas das ciências ocultas, como a alquimia e a necromancia, arte na qual o praticante pode ter contato com os mortos e, a partir disto, prever o futuro. Quando adulto, matricula-se na Universidade de Ingolstadt, na Alemanha, e lá dá início aos seus estudos sobre filosofia natural, com a ajuda de um professor mentor que, sem saber, coloca todo o futuro de Victor numa montanha-russa de tragédias.

“É difícil conceber a variedade dos sentimentos que me impulsionaram, como um furacão, no primeiro entusiasmo de sucesso. Vida e morte pareciam para mim fronteiras ideais que deveria, primeiramente, transpor, despejando uma torrente de luz em nosso mundo sombrio. Uma nova espécie abençoar-me-ia como criador e origem; muitas personalidades felizes e excelentes deveriam a mim a própria existência. Nenhum pai poderia reivindicar a gratidão de seu filho de maneira tão completa quanto eu reivindicaria a deles.

Após essas reflexões, pensei que se era capaz de animar matéria inerte, poderia, com o decorrer do tempo (embora agora creia impossível), restabelecer a vida onde a morte aparentemente entregou o corpo à corrupção.”

(SHELLEY, Mary. “Frankenstein: ou o Prometeu Moderno”. DarkSide Books, 2017. Pág. 69)

Muito ambicioso e orgulhoso, Frankenstein quer a qualquer custo colocar em prática o que os mestres alquimistas e cientistas que tanto venera postularam. Ao ouvir de seu professor que o elixir da vida e o reviver da matéria morta nunca haviam sido de fato comprovados, Victor mergulha de cabeça em um busca insana por pedaços de corpos em perfeito estado e cria seu “humano perfeito”; mas logo se arrepende, ao ter o primeiro contato com o que ele chama de “demônio”.

Frankenstein
A influência da obra de Shelley na contemporaneidade: Victor Frankenstein (Harry Treadaway) e A Criatura (Rory Kinnear), da série Penny Dreadful.

O segundo ato do livro se desenrola após o nascimento do Monstro (Nota: muitos confundem Frankenstein, o criador, com a sua criatura abandonada, que não possui nome e é entregue à própria sorte quando Victor percebe o tamanho dos problemas que viriam por conta de sua ousadia). Frankenstein é uma história que choca, fala sobre loucura e sobre até onde o indivíduo é capaz de ir para que seu ego seja perfeitamente alimentado.

Facilmente comparados a versões bíblicas de Deus e Adão, Victor vê em sua criação as corrupções de sua própria alma vaidosa e o tempo todo é colocado a refletir acerca do que fora e do que ele próprio se tornara com este “parto” tão dolorido. Criador e Criatura podem ser lidos como consciente (Victor) e subconsciente (Monstro), este o tempo inteiro vindo à tona, rondando seu mestre e fazendo-o perceber que não há dissociação entre ambos: são a mesma pessoa, principalmente no que diz respeito aos defeitos de conduta.

Frankenstein ou o Prometeu Moderno, Darkside Books

“Lembre-se de que sou sua criatura. Deveria ser seu Adão, mas em vez disso, sou um anjo caído a quem afastou da alegria sem, no entanto, ter cometido nenhuma falta. Em todo lugar vejo a felicidade que somente a mim é irrevogavelmente negada. Fui benevolente e bom; a infelicidade transformou-me em um demônio. Faça-me feliz e serei virtuoso novamente.”

(SHELLEY, Mary. “Frankenstein: ou o Prometeu Moderno”. DarkSide Books, 2017. Pág. 113)

A melancolia que paira por toda a obra e o resgate aos temas naturais são referências claras à primeira fase do Romantismo Inglês, na qual os poetas William Wordsworth e Samuel Coleridge versavam acerca da nostalgia trazida pelo advento da Revolução Industrial, com suas máquinas e poluições que tornavam a sociedade cada dia mais distante da felicidade dos campos e do modo de vida artesanal. Coleridge era amigo do pai de Mary e frequentava a casa da família. A autora faz citações a alguns trechos de seus poemas e também aos de Byron ao longo de romance.

Permaneci dois dias em Lausanne nesse estado mental doloroso. Contemplei o lago; as águas eram plácidas, tudo ao redor estava calmo e as montanhas encobertas de neve, ‘os palácios da natureza’ não tinham mudado. Aos poucos a paisagem calma e celestial restaurou-me e continuei a viagem até Genebra.”

(SHELLEY, Mary. “Frankenstein: ou o Prometeu Moderno”. DarkSide Books, 2017. Pág. 91)

  1. Os Monstros

Mary Shelley nasceu em 1797. Neste mesmo ano, em que perdera a mãe (Mary Wollstonecraft, autora de Reivindicação dos Direitos das Mulheres (1792), defendia a igualdade entre os gêneros e a importância da educação na vida das mulheres), que era feminista e muito influente em seu meio social; Jane Austen, autora de Orgulho e Preconceito, completava vinte e dois anos. A maioria das mulheres daquele século, principalmente as de baixa renda, sequer poderiam pensar em ter a postura que as três possuíam: mulheres fortes, cultas, donas de si e influenciadoras.

A elas restava cuidar da casa e dos filhos, passar privações e satisfazer os desejos dos maridos. E, às burguesas que não eram adeptas às pautas feministas, era destinado o conceito de Proper Lady. De acordo com a expressão, além de submissas, deveriam ter postura angelical e nada sensual, comportando-se como “damas educadas e refinadas”, a fim de que não afetassem os estereótipos que aguçavam o imaginário masculino.

Mary ia totalmente  contra os ideais de submissão feminina da época, não apenas por ter ousado escrever em um meio que privilegiava os homens, mas também por estar sempre conversando e debatendo de igual para igual com homens e mulheres. Era também adepta ao que hoje denomina-se relacionamento aberto e, mesmo tendo Percy como seu grande amor, flertava com outros homens e havia um consenso entre o casal para que o marido também o fizesse.

Por ter a mente muito à frente de seu tempo, era constantemente atacada e fazia parte do que denominavam por “juventude decadente”, pelo fato de não seguir padrões e aproveitar a vida como bem entendia (Lorde Byron, amigo íntimo do casal Shelley, era um dos que faziam parte do grupo de excluídos, devido às orgias que promovia em seu casarão). Um dos ataques machistas que sofreu ao publicar Frankenstein, em 1818, veio da crítica, que deu os créditos da obra a Percy, pelo fato de o prefácio ter sido escrito por ele, mas logo a verdade prevaleceu e Mary pôde dar continuidade à sua carreira de escritora.

[SPOILERS DE FRANKENSTEIN]

Na obra em questão, Mary cria Justine Moritz, personagem que, apesar de aparecer brevemente e não possuir tanto destaque, é o principal fio condutor do que vem a acontecer após o nascer da Criatura de Victor. Justine era governanta e cuidava com muito carinho de todos os filhos que vieram a nascer após o protagonista. Assim que Victor dá vida ao seu monstro e o abandona, este foge e assassina o irmão mais novo de seu criador, William.

Por conta de um mal entendido envolvendo uma corrente que estava em posse da criança e que supostamente havia despertado o desejo de Justine, a culpa pela morte por asfixia recai sobre ela que, mesmo jurando inocência, vai a julgamento e não consegue convencer o júri de que não estava envolvida na morte da William, que tanto cuidara e amara.

Victor e sua noiva, Elizabeth Frankenstein, tentam ao máximo convencê-los da inocência da mulher, mas por pressões maiores ela vem a confessar o crime que não cometeu, por pensar que seria absolvida. Para tanto, Justine foi abusada pelo seu interrogador e obrigada a dizer que havia matado William e, não tendo mais como recorrer, foi morta e deixou a família inteira ainda mais perturbada:

“ – Confessei, mas confessei uma mentira. Confessei de modo que pudesse obter absolvição, mas agora essa falsidade pesa ainda mais em meu coração que todos os outros pecados. (…) Desde que fui condenada, meu confessor assediou-me, ameaçou-me e hostilizou-me até eu quase começar a pensar ser o monstro que julgava. 7

Ameaçou-me de excomunhão e com o fogo do inferno em meus últimos momentos, caso continuasse obstinada. Cara senhora, não tenho ninguém para amparar-me; todos me olham como uma miserável condenada à infâmia e à perdição. O que poderia fazer? Em uma hora ruim, sujeitei-me à mentira e agora estou totalmente desgraçada.”

(SHELLEY, Mary. “Frankenstein: ou o Prometeu Moderno”. DarkSide Books, 2017. Pág. 102)

  1. Unindo partes

A narrativa de Frankenstein começa quando um capitão encontra Victor quase morto em um local repleto de geleiras. Muito perturbado, ele fala de uma criatura que escapou e que precisava encontrar a qualquer custo, criatura esta vista poucas horas antes pelo capitão e seus marinheiros. Todos se interessam pela pessoa de Victor que, ao recobrar a consciência plenamente, passa a contar-lhes o que havia acontecido em sua vida até ali. O capitão, prontamente, relata em seu diário, como se Victor tivesse escrevendo, os terríveis fatos que sucederam na ruína de Frankenstein. Os capítulos são curtos e sempre alertam a leitora sobre o que está por vir, instigando a continuação.

Em 6 de fevereiro de 2017 a DarkSide Books lançou uma edição de luxo da obra de Mary Shelley, que faz parte do projeto “Medo Clássico”, que conta com nomes como Edgar Allan Poe e H. P. Lovecraft. Em capa dura e com os prefácios originais escritos por Mary e Percy às edições originais, o livro também apresenta ilustrações belíssimas de Andreas Vesalius, Étienne de la Rivière e William Cowper e mais quatro contos da própria autora, também sobre imortalidade.

Frankenstein ou o Prometeu Moderno, Darkside Books

Frankenstein ou o Prometeu Moderno, Darkside Books

Frankenstein ou o Prometeu Moderno, Darkside Books


Frankenstein ou o Prometeu Moderno, Darkside BooksFrankenstein: ou o Prometeu Moderno

Editora DarkSide Books

Ano: 2017

299 páginas

Tradução: Márcia Xavier de Brito

Onde comprar: Amazon


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É estudante de Letras e fã incondicional de Neil Gaiman – e, parafraseando o que o próprio autor escreveu em O Oceano no Fim do Caminho, “vive nos livros mais do que em qualquer outro lugar”.
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