Sorry, Baby e as “coisas ruins” que nos acontecem

Sorry, Baby e as “coisas ruins” que nos acontecem

“Algo de ruim aconteceu com Agnes. Mas a vida continua… para todos ao seu redor, pelo menos”. A sinopse de Sorry, Baby captura bem o tom do filme: curta, e carregada de um humor resignado e melancólico. O longa-metragem de dramédia é a estreia na direção da atriz Eva Victor, que além de responsável pelo roteiro também interpreta a protagonista Agnes.

O filme começa com o título “Ano do bebê”, introduzindo a história com a visita de Lydie (Naomie Ackie) à melhor amiga. Entendemos que Agnes vive sozinha e distante da cidade, que é uma professora universitária, e que dentre as brincadeiras e intimidades das duas existe uma preocupação inicialmente não dita.

Agnes (Eva Victor) e Lydie (Naomie Ackie) em Sorry, Baby
Agnes (Eva Victor) e Lydie (Naomie Ackie) em Sorry, Baby

Logo entendemos que “algo de ruim” aconteceu com Agnes, e apesar das poucas pistas iniciais, Sorry, Baby nos mostra tudo que precisamos saber. A audiência, sobretudo feminina, entende facilmente que Agnes sofreu uma violência sexual.

Pouco depois, somos apresentadas ao agressor: o antigo professor orientador de Agnes, que a chamou para receber os comentários sobre a tese na casa dele.

A coisa ruim que aconteceu ganha nome e forma, mas Sorry, Baby, faz um bom trabalho em se afastar de qualquer tipo de imagem gráfica e se focar nas sensações do antes, do durante, do depois. Este é o filme: o que se passa com Agnes, pelos olhos dela mesma.

A construção episódica

A história de Sorry, Baby não é linear. Contada em episódios como “Ano do bebê”, “Ano da coisa ruim” e “Ano do sanduíche gostoso”, ela nos leva pela vida de Agnes num período de poucos anos desde o seu doutorado até se tornar uma professora universitária.

Construindo a memória como uma colcha de retalhos, o filme adota o ponto de vista único e exclusivo da personagem de Eva Victor. Experienciamos suas sensações e pensamentos, com seu humor inteligente e a sempre presente melancolia.

Agnes (Eva Victor) em Sorry, Baby
Agnes (Eva Victor) em Sorry, Baby

À medida que somos apresentadas aos eventos da vida de Agnes, o formato episódico da trama faz cada vez mais sentido. A memória é sempre subjetiva, e episódios traumáticos fragmentam o tempo.

A história é contada de forma clara, apesar de não linear, mas a associação dos anos a episódios específicos demonstra essa relação subjetiva com o tempo, tornando a nossa experiência de espectadora muito similar com a não linearidade da memória de Agnes.

Em Sorry, Baby buscamos com ela os retalhos da memória e os fragmentos que causam dor, tentando extrair algum sentido dali. Afinal, Agnes é o filme: o humor inteligente, o desejo de seguir, as memórias que persistem.

O longa trata de um tema pesado fazendo uso de uma delicadeza que causa uma série de sentimentos ambíguos. Como na vida, Agnes ri de nervoso, tem crises inesperadas e incertezas, mas também um humor sutil. Somos levadas a sentir tudo isso, junto da protagonista.

Entre a ficção e a realidade do trauma

Violência sexual é um tema relativamente comum no cinema. Tematizando gêneros inteiros como rape revenge, abuso é revisitado de formas que variam no grau de importância na trama e no nível gráfico escolhido.

Sorry, Baby se destaca dos outros filmes por abraçar o ponto de vista da vítima de forma muito humana e tridimensional. Agnes é muito mais do que o que sofreu, e acompanhamos como o mundo continua girando enquanto ela se esforça para processar o trauma.

Um bom sanduíche, um gato, relacionar-se, retornar à própria tese carregada de lembranças ruins. Entre trancos e barrancos, sentimos os pequenos prazeres que vão aos poucos ganhando mais força, sem apagar o que aconteceu.

Agnes (Eva Victor) em Sorry, Baby
Agnes (Eva Victor) em Sorry, Baby

Sorry, Baby nos mostra que seguir pode ser tão dolorido quanto inevitável, mas que o caminho nunca é linear.

O filme é muito habilidoso ao unir uma melancolia resignada diante das coisas horríveis que o mundo guarda à esperança e à vontade de seguir adiante. O humor se apresenta diante do absurdo porque, para além de vítima, Agnes é sobretudo humana.

O olhar feminino

Eva Victor escreve, dirige e estrela Sorry, Baby, Mia Cioffi Henry assina a fotografia, Lia Ouyang Rusli a trilha sonora, e uma série de outras mulheres integrou a equipe técnica do filme.

O olhar fluido (Eva Victor é não-binária) e feminino é um guia em todas as camadas da história, sensível à experiência da protagonista e das mulheres na audiência.

Agnes (Eva Victor) em Sorry, Baby
Agnes (Eva Victor) em Sorry, Baby

A escolha de focar na jornada de Agnes e dispensar qualquer exibição gráfica humaniza a experiência feminina de forma que muitos filmes falham em fazer.

Sorry, Baby é apenas a estreia na direção de Eva Victor, mas esperamos ansiosamente por mais trabalhos da atriz e diretora. O filme, no momento, não se encontra disponível no streaming.

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Bia é uma pesquisadora e escritora formada em economia. Obcecada por internet e cultura, adora cinema e é leitora assídua de todo tipo de ficção.
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