A realidade fictícia de Agnès Varda: um cinema terno, subversivo e feminista

A realidade fictícia de Agnès Varda: um cinema terno, subversivo e feminista

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Em 1981, Agnès Varda filmou “Documentira”, que parece insinuar que é um documentário mentiroso, um paradoxo entre realidade e ficção. Aqui, ela pregunta: É a vida que imita a arte ou a arte que imita a vida? Essa pergunta já ouvimos várias vezes, já fizemos. Alguém já respondeu para mim, por exemplo, que sim, que o cinema retrata a realidade e é por isso que as minorias não são representadas de maneira diversa: negros/as são pobres e ladrões, homossexuais são pervertidos/as e loucos/as, mulheres são submissas e dependentes dos homens. Mas, essa é realmente a realidade do mundo que vivemos ou só uma parte dela?

A obra de Agnès Varda não responde à perguntas que diferenciam realidade da ficção. Pelo contrário. “Documentira” é uma ficção que poderia ser realidade. Será que é? A cineasta não se cansa de criar essa confusão e fazer o/a espectador/a pensar: que linha tênue separa os dois lados dessas questões? Afinal de contas, existe um pouco de ficção na vida real que criamos para cada um/a de nós. Ou não?

A obra de Varda sempre foi importante para o cinema mundial, apesar de não ser tão lembrada como deveria, uma retificação que parece estar tomando forma nas recentes homenagens que a diretora já recebeu e vai continuar recebendo este ano. Antes de usar a câmera para captar movimentos, Varda era fotógrafa. Mas ela nunca limitou-se a apenas retratar o objeto, buscava sempre dar um novo significado a ele. Como? Impregnando suas próprias impressões.

Não é fácil explicar como ela consegue esse feito. É preciso ver seus filmes. O primeiro deles, “La Pointe Courte” (1956) foi precursor da Nouvelle Vague, um movimento de rebeldia de alguns cineastas franceses que pretendia mais liberdade de expressão e de técnica. Mas nas salas de aula ouvimos muito mais sobre Andre Bazin, François Truffaut, Jean Pierre Melville e seus companheiros, que sobre essa adorável senhora belga, radicada na França e que está a ponto de completar 90 anos.

Agnès Varda sempre foi ligada a movimentos sociais. No seu documentário autobiográfico “As Praias de Agnes(2008) podemos testemunhar sua relação com o feminismo, por exemplo. Na obra, ela conecta o íntimo com o coletivo, ou seja, mistura questões que estavam na crista da onda em determinado ponto da sua vida, com suas próprias inquietudes pessoais que a levaram a ir pra luta.

Em outro de seus filmes, “Uma Canta, a outra não” (1977) ela mostra a história de duas mulheres diferentes, Pauline “Pomme” (Valérie Mairesse) e Suzanne Galibier (Thérèse Liotard) e suas experiências de amizade, solidão, das escolhas que fazem, do que partilham com outras mulheres. No final, Varda conclui com a célebre frase da filósofa francesa Simone de Beauvoir: “Ninguém nasce mulher: torna-se mulher”.

Já “Sem Teto, Nem Lei” (1985) conta a história de Mona Bergeron (Sandrine Bonnaire) que decide deixar seu emprego, família e sua casa para viver como uma andarilha, sem dar satisfação a ninguém. Mona parece querer livrar-se de todas as amarras sociais.

Agnès Varda gosta de mostrar pessoas comuns, talvez porque também se considere uma delas. Assim foi em “Os Catadores e eu” (2000), um documentário onde ela acompanha catadores/as que vão até as lavouras da França para pegar as “sobras” do que não foi colhido. É isso o que Varda faz. Ela cata histórias e as transforma em algo novo, íntimo, desafiador, interessante, instigante.

Atualmente ela volta com um novo documentário road movie em “Visages Villages” (2017), co-dirigido com o fotógrafo e grafiteiro urbano JR, pelas pequenas cidades francesas atrás das pessoas comuns. A obra ganhou os prêmios da sessão oficial do Festival de Cannes na França, e o de melhor documentário no Festival de Toronto, no Canadá.

Aos 89 anos, a cineasta insiste em reinventar a vida com leveza. Ela busca despertar vínculos e sentimentos de fraternidade e ternura entre as pessoas. É através das pessoas comuns e sua relação com elas que Varda produz as melhores sensações em quem assiste a seus filmes.

O cinema de Agnès Varda é livre. Não ficou rica, nem perto disso. Ela orgulha-se de sempre ter feito o que quis, da forma como quis, mesmo quando recebia pedidos para algumas produções. Quando recebeu a notícia de que ia ganhar um Oscar pela sua obra ela achou estranho, quis recusar e disse que esse prêmio deveria ser para quem é famoso e rico, e que ela é uma cineasta à margem da indústria. Mas decidiu aceitar porque entendeu que as pessoas gostam do seu cinema e acham a homenagem justa. Como não achar? Há mais de 60 anos essa simpática senhora conquista fãs que gostam de um cinema leve, radical, honesto e surpreendente.

Esse é um bom momento para conhecer ou rever seus filmes e aproveitar a 41ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que acontece de 19 de outubro até 1º de novembro, apresentando 11 obras da cineasta que também será homenageada com o prêmio Humanidade. Agnès Varda ainda é e sempre será real.

  • Para informações sobre as obras de Agnès Varda que serão exibidas na Mostra Internacional de Cinema em São Paulo e os horários, acesse o site da Mostra

  • Informações sobre ingressos, pacotes e permanentes, acesse aqui.


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Apaixonada por tudo relacionado ao cinema e ao audiovisual. Gosta principalmente de ver mulheres fortes e felizes nas telonas e nas telinhas. Por isso, depois de trabalhar muitos anos em televisão, decidiu estudar mais sobre o assunto e fez um doutorado no tema pra ajudar na reflexão do papel da mulher no cinema, e poder dividir opiniões e pensamentos com mais apaixonadas/os como ela.
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