[CINEMA] Sem Teto, Nem Lei: uma reflexão acerca da solidão feminina no pós-guerra

[CINEMA] Sem Teto, Nem Lei: uma reflexão acerca da solidão feminina no pós-guerra

Alguns amantes de cinema já devem ter ouvido falar em Agnès Varda, cineasta radicada na França cuja carreira é marcada por produções com protagonismo feminino e conteúdo inclusive militante, como por exemplo o longa “Uma canta, a Outra Não”. A diretora nos traz em Sem Teto, Nem Lei (no original: Sans Toit Ni Loi, 1985) – conhecido também como Os Renegados – uma reflexão acerca da solidão feminina.

Com adendo de gênero, por considerar que a condição da mulher numa sociedade patriarcal perpassa opressões específicas, é a partir da evolução (ou não) de Mona (protagonista) que vamos percebendo o olhar feminista de Agnès no cinema. A diretora, como um nome dos mais importantes da Nouvelle Vague, traz a tona todo significado da corrente existencial que pairava na década de 60 na França.

Sem Teto, Nem Lei
Agnès Varda. Imagem: reprodução.

Mona (Sandrine Bonnaire) é a representação de todos os jovens pós-guerra, de grande bagagem filosófica que abrem mão de uma padronização e quase mecanização da vida. Poderia dizer que o filme trata de sustentar escolhas, não há futuro pré-determinado. Mona, assim como o espectador é a sua ação, como a maioria dos personagens retratados nessa escola cinematográfica. Mona é mais uma fora do eixo e há muita semelhança entre sua marginalização e os criminosos do diretor de cinema Godard (“Band a Part”, “Pierrot Le Fou”) ou com a efervescência adolescente de Truffaut (“Les 400 Coups”).

Não optando por uma narrativa linear e vagando entre teor documental e fílmico, o filme começa com uma imagem da protagonista já morta. Não se sabe ainda sua trajetória, mas logo de início seu fim.

Sem Teto, Nem Lei

Após essa pequena introdução, Varda vai nos mostrando a história de Mona, uma andarilha solitária que sobrevive a partir de acolhimentos aleatórios durante suas viagens, onde convive com personalidades que representam diversos estilos de vida. Esse é o ponto chave, demonstrar que as escolhas da protagonista não a fazem menos digna de respeito, que as pessoas que passam pela sua vida.

Mona é o próprio desajuste e não se encaixa. Ao mesmo tempo que a protagonista se recusa fazer parte de uma realidade, ela representa todo o empoderamento da autossuficiência da mulher, da libertação do medo. Se existe um norte que ela segue é o da insubmissão. Mona não agradece ou se curva, segundo a própria cineasta ela “Não é uma vítima. Não tem uma ideologia, quer apenas as pessoas longe do seu pé”.

Sem Teto, Nem Lei

A liberdade da protagonista coloca em cheque todo um idealismo burguês de propriedade e família. Através de Mona refletimos todos laços materiais ou de afeição. Eles tem mesmo significado? Refletimos se que realmente somos ou estamos todos sozinhos fazendo o próprio destino.

Mesmo depois da explosão existencialista no cinema de Varda, ainda recorre essa corrente filosófica. Não há romantização da condição da protagonista, como também dos que passam pela sua vida. Agnes coloca a condição de Mona como essência da liberdade e da verdade. É dada uma pergunta que não tem resposta universal, e existencialmente falando, parte de cada indivíduo.

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Boatos que é sergipana e que faz cinema e audiovisual, boatos também que quando crescer quer ser uma mistura de Marcia Tiburi e Diane Arbus, mas por enquanto só vê série e lê textão, mas são só boatos.
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