[CINEMA] Happy End: a ausência de interesse pelo outro no mundo atual (Mostra SP)

[CINEMA] Happy End: a ausência de interesse pelo outro no mundo atual (Mostra SP)

O mais recente filme de Michael Haneke, Happy End terá sua estreia dia 27 de outubro na 41 ͦ Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que se inicia no dia 18 de outubro até 1º de novembro. [NÃO CONTÉM SPOILER]

O longa conta com um elenco impecável, com destaque para Isabelle Huppert, que continua nos apresentando um trabalho forte e cada vez mais maduro, representando, como de costume, a força da mulher e seu papel imprescindível na sociedade. Isabelle e Michael já trabalharam quatro vezes juntos, sendo que a última parceria foi em “Amor”, de 2012. Deste longa, também está em Happy End o ator Jean-Louis Trintignant, aqui fazendo o papel de George Laurent.

A história de Happy End não é fácil de se resumir. O filme apresenta um recorte sobre uma abastada família francesa que vive em Calais, cidade portuária do norte do país, conhecida por ser a porta de entrada dos que chegam à França pelo Canal da Mancha – Calais é a cidade francesa mais próxima da Inglaterra.

Happy End

A família Laurent vive aparentemente desconectada da realidade que a cerca, morando confortavelmente em uma espécie de petit château na cidade de Calais, onde são proprietários de uma empresa gerenciada pela filha do patriarca George Laurent (Jean-Louis Trintignant), Anne (Isabelle Ruppert) e o único filho dela, Pierre (Franz Rogowitz).

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Junto a eles moram o irmão de Anne, o médico Thomas (Mathieu Kassovitz), sua segunda esposa, Anaïs (Laura Verlinden) com o bebê recém-nascido do casal, e a filha do primeiro casamento de Thomas, Eve (Fantine Harduin), cuja mãe morreu recentemente. Além deles, vivem na casa uma família de imigrantes que trabalham para a família como empregados domésticos.

Happy End provoca a sensação de que algo não estava lá, uma certa ausência que persistiu durante toda a sessão e que serviu como fio condutor nos guiando pela história. Essa ausência se apresenta, de modo geral, nos poucos diálogos e na falta de elementos pretéritos que expliquem fatos ou situações apresentados na história, marca presente em muitos trabalhos de Michael Haneke.

Mas é na falta de um elo emocional e empático entre os membros daquela família, além de certa frieza e indiferença entre essas pessoas e uma severa dificuldade de comunicação e entendimento entre elas, e delas para com o mundo, que essa sensação se fez mais presente.

Happy End

A ausência é o elemento mais gritante no filme. E isso nos faz pensar se é a ausência de empatia que nos assola como um todo. É natural que em nossos núcleos familiares tenhamos grande dificuldade em nos comunicar e muitas vezes em nos fazer compreender. Acredita-se que essa dificuldade em maior ou menor grau se dá pelo fato de que somos seres humanos com particularidades individuais, muitas vezes dividindo questões em comum. Portanto é muito natural que a solução e entendimento de um sobre determinadas questões sejam diferentes da solução e do entendimento de outro para as mesmas questões, mesmo um e outro estando unidos por laços sanguíneos, emocionais e psicológicos. É a partir desse momento que começam as dificuldades.

Desde sempre formamos uma sociedade dividida por grupos que compõem a vida em coletividade: grupo familiar, grupo profissional, grupo de amigos, até chegar aos grupos de facebook e redes sociais nos dias de hoje. Quando em grupos, lidamos com códigos que nos conduzem a acreditar que todos somos iguais, ou seja, que todos dividimos as mesmas opiniões, sensações e pensamentos a respeito de um determinado assunto, situação ou evento.

Mas nem sempre é assim, por óbvio. E é exatamente nesses desacordos, quando nos diferenciamos de nosso grupo, que surgem os conflitos. Afinal, esperamos que entre os membros de um mesmo grupo todos pensem e se comportem da mesma forma. E isso não é possível.

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Não estamos habituados a entender o diferente, e aqui não estamos falando de casos isolados: o que abordamos é a diferença de pensamento e de atitude entre membros de um mesmo grupo. Quando nos deparamos com aquilo que não entendemos, banimos pessoas ou nos refugiamos em nossos pensamentos e até na busca por outros grupos que nos representem.

Happy End

A comunicação é e sempre foi a maneira que os seres humanos utilizaram para expressarem sua individualidade no coletivo. As regras já serviram pra a humanidade de muitas formas, desde para controlar e regular uma sociedade, até para determinar comportamentos e atitudes. Dentro do núcleo familiar a regra varia de acordo com a cultura e hábitos das pessoas que o compõem.

Portanto, para nos comunicarmos é necessário que aceitemos cada um dos indivíduos de um grupo pela sua individualidade de pensamento e busquemos um denominador comum na solução de uma questão. Precisamos ter empatia pelo outro, precisamos querer nos comunicar e superar regras que nos encaixem em algo pré concebido. Do contrário, caminhamos da individualidade para o individualismo, que nos conduzem para o isolamento e completa alienação do outro e do mundo.

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Happy End levanta muitas outras questões interessantes, mas toca numa questão muito séria que é a ausência de interesse pelo outro. As pessoas têm cada vez menos a capacidade de existirem como indivíduos na coletividade e que vivem cada vez mais voltadas para si. Happy End é interessante e vale ser visto. Não acreditamos que seja o melhor filme de Michael Haneke, pois repete fórmulas já vistas em seus outros longas, porém com menos potência.

  • Para ver os horários de exibição do filme, acesse o site da Mostra

  • Informações sobre ingressos, pacotes e permanentes, acesse aqui.

Autora:

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Mulher, mãe, profissional e devoradora de filmes. Graduada em Psicologia pela Universidade Metodista de São Paulo, trabalhando com Gestão de Patrocínios e Parceiras. Geniosa por natureza e determinada por opção.
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