[CINEMA] O Motorista de Táxi: sobre alienação e pequenos atos libertadores (Mostra SP)

[CINEMA] O Motorista de Táxi: sobre alienação e pequenos atos libertadores (Mostra SP)

O Motorista de Táxi (no original: Taeksi Woonjunsa), dirigido por Jang Hoon (“Secret Reunion”, “The Front Line”) apresenta uma narrativa envolvente e bem humorada. Apesar de não apresentar nada de inovador, é um belo filme que ilustra bem a força do cinema coreano. Uma ótima dica para quem pretende conferir os filmes da 41 ͦ Mostra de Cinema Internacional de São Paulo, que acontece entre os dias 18 de outubro até 1º de novembro. [NÃO CONTÉM SPOILER]

Em maio de 1980 ocorria na Coreia do Sul, mais precisamente, na cidade de Gwangju, o Movimento Democrático de Gwangju. Em Seul, um taxista enfrenta vários problemas financeiros e se faz passar por um colega de profissão assumindo a corrida solicitada para um jornalista alemão que pretende ir até Gwangju. Porém, o taxista nada sabe a respeito do que se passa por lá, uma vez que nenhum veículo de comunicação do país tem permissão de divulgar a real situação da cidade.

Em 26 de novembro de 1979, o ditador Park Chun-hee é assassinado após 18 anos de mandato. Assume em seu lugar o presidente Choi Kyu-hah, que perde o controle da situação para o general do exército, Chun Doo-hwan, que toma o poder em um golpe de estado em 12 de dezembro. Entre 18 a 27 de maio de 1980, o povo inicia um levante contra Chun Doo-hwan e sua Lei Marcial, mas a represália do general provoca um massacre na população de Gwangju. Os número oficiais desse massacre são controversos: segundo números oficiais do governo sul coreano, 144 civis, 22 soldados e 4 polícias foram mortos, e 127 civis, 109 soldados e 144 polícias ficaram feridos. Segundo a Associação de Familiares Atingidos pelo 18 de maio, pelo menos 165 pessoas morreram e outras 65 estão ainda desaparecidas, presumivelmente mortas.

O Motorista de Táxi nos traz uma reflexão sobre o nosso olhar e envolvimento em situações que muitas vezes determinam o curso de uma cidade, de um estado ou de um país, afetando toda a população. Na Seul de 1980, capital de um país afundado numa crise política e próximo de uma guerra civil, os fatos acontecidos até aquele momento não são de conhecimento de todos cidadãos do país, tampouco do mundo.

O Motorista de Táxi

O povo se divide entre aqueles que lutam e acreditam na democracia e aqueles que estão alheios à situação e envolvidos em suas lutas pessoais.  A verdade é algo que muitas vezes está além do que vemos e é importante que as pessoas abandonem sua segurança e seus problemas para enxergar além do que está sendo mostrado, sobretudo em tempos de comunicação massiva, onde a publicidade está amalgamada com o noticiário.

O taxista de Seul (como é conhecido) não tinha a menor ideia do que se passava em seu país, e precisou ir até Gwangju para entender que na Coreia do Sul havia uma ditadura em curso que abusava de poder e de armas pesadas contra a população, na defesa de interesses próprios e da continuidade de seu projeto de poder.

Vemos esse cenário acontecendo atualmente aqui e em outros lugares do mundo: abuso de poder, violência, força excessiva, informações desencontradas, meios de comunicação dominados por governos ou até envolvidos em esquemas com esses mesmos governos. E sabemos que muitas pessoas vivem alheias ao que as rodeiam, não somente pela falta de informação, seja ela boa ou ruim, verdadeira ou falsa, mas porque normalmente nos condicionamos a acreditar naquilo que faz sentido para nós e que vem de fontes que, de certa forma, nos representam em seus posicionamentos e discursos.

O Motorista de Táxi

Mas, para além disso, alguns indivíduos não conseguem perceber que tudo que os rodeiam têm relação e influência direta na forma em que vivem.  Se refugiam em suas lutas pessoais e em seus problemas cotidianos, se comportando de forma até alienada. A verdade muitas vezes está a um passo de nós, e para compreender o nosso mundo e aquilo que nos cerca, uma simples ida ao supermercado pode ser bem reveladora sobre como vivem as pessoas em seu entorno.

A questão é: o que fazemos quando entramos em contato com aquilo que até então ignoramos, ou fingimos não existir? Talvez a tomada de consciência nos leve a uma dimensão onde a inércia, que existe na ignorância, dê lugar ao ímpeto pela ação, ou seja, pelo desejo de agir em prol de algo maior que nosso próprio umbigo. Esse ímpeto pode nos levar a ações pequenas e a outras que nos exijam como heróis. Seja como for, a verdade sem filtro, nua e crua pode ser bem libertadora e surpreendente.

O Motorista de Táxi

Caso queria conferir outros títulos interessantes do cinema coreano que estão disponíveis com facilidade na internet, sugerimos: Mother (Joon-Ho Bong 2010) e Old Boy (Park Chan-wook 2005), mas a lista é grande!

  • Para ver os horários de exibição do filme, acesse o site da Mostra

  • Informações sobre ingressos, pacotes e permanentes, acesse aqui.

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Mulher, mãe, profissional e devoradora de filmes. Graduada em Psicologia pela Universidade Metodista de São Paulo, trabalhando com Gestão de Patrocínios e Parceiras. Geniosa por natureza e determinada por opção.
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