Joni Mitchell: uma imortalidade controversa

Joni Mitchell: uma imortalidade controversa

Talvez, durante a sua infância, Joni Mitchell não tenha imaginado a grandeza que aguardava por ela em sua carreira. Consagrando-se como uma cantora, poeta e compositora como nenhuma outra, a artista teve de superar diversas barreiras ao longo de sua jornada. Sua vida pessoal e profissional foi afetada pelo sexismo da época em que estava inserida. 

A dualidade de ser mulher em um período onde a desigualdade de gênero era tão marcada dividiu sua vida e carreira de diferentes formas. Joni Mitchell arrancou de sua vivência a inspiração para escrever canções profundas que atingem até hoje a todos que as escutam.

Uma pintora solitária

Joni Mitchell pintora
Foto: Joni Mitchell pintando. (reprodução)

Oh, I am a lonely painter

I live in a box of paints

I’m frightened by the devil

And I’m drawn to those ones that ain’t afraid

(Eu sou uma pintora solitária

Eu vivo em uma caixa de pinturas

Estou aterrorizada 

E sou atraída por aqueles que não têm medo)

Antes de descobrir seu futuro na música, Joni Mitchell já estudava a pintura. Pintar era a arte que ela seguia, e ela acabou sendo atraída para a música como um hobby, uma tentativa de descobrir coisas novas e se reinventar como pintora. A música começou para a artista apenas como uma forma de lazer, que futuramente viria a desencadear seu sucesso. 

Mesmo depois de seguir a carreira na música, Mitchell nunca deixou de pintar. Na verdade, o processo criativo dos álbuns e dos quadros muitas vezes se entrelaçava. A capacidade de Joni de criar imagens se expandiu das pinturas para as letras e melodias de suas músicas. 

Capa do álbum "Clouds" com autorretrato de Joni Mitchell.
Capa do álbum “Clouds” com autorretrato de Joni Mitchell (1969).

Mas a sua jornada pela arte foi marcada por experiências conturbadas em sua vida pessoal. Quando estava na faculdade ela engravidou. A cantora passou então a ser vista como motivo de escândalo para sua família, como eram todas as jovens que engravidavam fora do casamento. Em uma época onde ela não poderia nem considerar fazer um aborto, Joni acabou entregando sua filha para a adoção, pois estava em uma situação onde não tinha condições de criar a menina. 

Ela reencontraria sua filha muitos anos depois, já durante a vida adulta. O álbum ‘’Blue’’ foi o resultado de todas as angústias que marcaram a vida de Mitchell até aquele ponto, e a música ‘’Little Green’’ foi escrita a respeito de sua filha, onde relata o período onde decidiu entregar a criança para a adoção, enquanto mostra de forma carinhosa e melancólica a relação das duas. 

Child with a child, pretending

Weary of lies you are sending home

So you sign all the papers in the family name

You’re sad and you’re sorry but you’re not ashamed, little green

Little green, have a happy ending

(Criança com uma criança, fingindo

Cansada das mentiras que você manda para casa

Então você assina todos os papéis no nome da família

Você está triste e arrependida, mas não está envergonhada, verdinha

Verdinha, tenha um final feliz)

Joni Mitchell pelas lentes do fotógrafo Guido Harari em 1991.
Joni Mitchell pelas lentes do fotógrafo Guido Harari em 1991.
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Estando muito fragilizada e com problemas financeiros, Joni acabou casando com o homem de quem pegaria o sobrenome ‘’Mitchell’’. O casamento durou pouco mais de um ano, e o marido insistiu que ambos formassem uma dupla musical. Entretanto, ele controlava toda a carreira de Joni, bem como sua vida financeira. Assim, a artista começou a escrever para fugir da realidade na qual se encontrava. 

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Para Joni, a poesia aparecia nos momentos de sua vida em que ela se sentia mais perturbada. Suas músicas são desabafos e confissões a respeito do mundo ao seu redor. Elas mostram uma mulher confinada por diferentes dilemas, sejam eles pessoais, sociais ou ambos. 

O primeiro casamento de Joni se mostrou bastante sufocante, tanto para sua vida pessoal quanto artística. A primeira música de seu primeiro álbum, ‘’Song to a Seagull’’, chamada ‘’I Had a King’’ fala sobre o fim dessa relação. 

And the rooms have an empty ring

He’s cleaned with the tears

Of an actor who fears for the laughter’s sting-

I can’t go back there anymore

You know my keys won’t fit the door

You know my thoughts don’t fit the man

(E os quartos têm um anel vazio

Ele está limpo com as lágrimas

de um ator que teme a picada do riso

Eu não posso mais voltar lá

Você sabe que minhas chaves não vão encaixar na porta

Você sabe que meus pensamentos não vão encaixar no homem)

Joni começou a perceber que sua carreira não iria para frente por conta de seu marido, e decidiu desmanchar a dupla. Assim que a parceria profissional acabou, o casamento se aproximou de seu fim.

Despejando na música as suas angústias, Joni compôs a marcante ‘’Both Sides Now’’ onde reflete sobre o amor e a vida olhando por duas perspectivas, antes e depois de perceber que seus sonhos infantis haviam sido dissipados pela realidade como se fossem frágeis nuvens.

Entretanto, como a artista canta na música, algo se ganha e algo se perde, e Joni definitivamente ganhou um lugar de honra no cânone dos grandes músicos da história através de suas canções intimistas.

Mundos compartilháveis

No documentário A Woman of Heart and Mind, Joni Mitchell contou que mesmo estando apaixonada, em um momento de sua vida ela decidiu não se casar. O motivo, relatou a cantora, foi a sensação de que teria de escolher entre o casamento e a música. Suas avós tiveram sonhos frustrados, e ela decidiu viver o sucesso por essas duas mulheres que nunca conseguiriam. 

Considerando todas as décadas através das quais a carreira de Joni passou, é possível dizer que ela viveu um sonho não só por suas avós, mas por muitas outras mulheres que foram confinadas a uma vida em uma sociedade sexista e que as impedia de ter uma carreira. Como canta em ‘’Urge for Going’’, ela teve o ímpeto de seguir em frente e o fez. 

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Joni Mitchell em 2019.
Joni Mitchell em 2019. Foto: Mark Seliger (reprodução)

Embora tenha começado sua vida artística com a imagem de uma jovem delicada e feminina que cantava músicas melancólicas que tocavam os corações de quem as escutavam, Joni mudou muito ao longo de sua carreira. Ela procurou transitar incessantemente por diferentes gêneros musicais.

No entanto, ser um objeto de adoração pública a incomodava profundamente, e essa perturbação a levou a se isolar por um tempo, e até afundar na depressão. Segundo a própria cantora ‘’there is no growing into gracefully in the pop world’’ (“não há como crescer graciosamente no mundo do pop“, em tradução livre).

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Porém, nem todas as mudanças radicais pelas quais Joni passou agradaram a mídia e o grande público. Em uma entrevista em 1979 a cantora falou sobre como sentia que era pressionada a mudar, e ao mesmo tempo a continuar a mesma, e também sobre como notava que o público queria adorá-la sem conhecê-la.

‘’Você tem duas opções. Você pode permanecer a mesma e proteger a fórmula que te deu seu sucesso inicial. Eles vão te crucificar por permanecer a mesma.

Se mudar, eles vão te crucificar por mudar. Mas permanecer a mesma é chato. E a mudança é interessante.

Então das duas opções, eu prefiro ser crucificada por mudar.”

Joni Mitchell em entrevista à Rolling Stone em 1979.

Essa pressão sobre as artistas femininas permanece até hoje, e pode ser percebida nos trabalhos de diferentes mulheres da atualidade. Joni também tentou abordar temas políticos e sociais em suas canções, como a música “Sex Kills“, por exemplo. Toda a sua história poderia transformar a artista em um nome que marcou um novo espaço para grupos oprimidos no mundo da música. Mas a realidade é bem diferente. 

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Se Joni abriu caminho para que mulheres pudessem se expressar e se reinventar com sua arte, e se ela tentou inserir temas políticos em suas canções, seu histórico com blackface (do qual ela nunca se desculpou) parece ser um fato impossível de ignorar, levando em consideração a relevância que a artista têm, tendo sido imortalizada como uma das cantoras e compositoras mais marcantes das história da música. A forma como ela defende a prática do blackface quase como parte de um ativismo e de um processo criativo, coloca em xeque a pertinência social que ela mesma buscou inserir em sua música. 

A história de Joni com o blackface começou quando ela decidiu se ‘’fantasiar’’ como um homem negro para uma festa de Halloween. Depois disso, ela criou um personagem negro que usava em suas obras, a quem batizou de ‘’Art Nouveau’’. Ele aparece na capa do álbum ‘’Don Juan Reckless Daughter’’.

Don Juan Reckless Daughter’
Capa do álbum Don Juan Reckless Daughter, lançado em 1977.

O tema foi discutido pelo professor Kevin Hylton em uma matéria da BBC a respeito da questão. Para ele, a prática de Joni Mitchell só reflete o seu privilégio. Embora ela tenha sido defendida por diferentes artistas (especialmente na época em que tudo aconteceu) que afirmam que Joni não pretendia soar ofensiva, para Hylton, apesar das intenções da cantora, ‘’nenhuma performance de blackface pode ser neutra nos termos do impacto que ela causa para as comunidades afetadas’’. 

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Joni se defendeu afirmando que em diversas ocasiões experienciou como era ser um homem negro, e por isso sentia uma afinidade. Se há décadas atrás essa atitude era facilmente ignorada pela grande mídia, na atualidade ela não é tolerada. Joni Mitchell se defende se justificando com base em suas intenções, mas o público engajado em causas sociais não vai olhar os dois lados em situações como essa. 

Joni ocupa um espaço inegável como uma artista que compôs melodias e escreveu letras com uma profundidade inigualável. Ela escreveu em Song to a Seagull ‘’Humans are hungry for worlds they can’t share’’ (“Humanos estão famintos por mundos que eles não podem compartilhar”, em tradução livre), e o mundo onde as pessoas podem se omitir do peso de algumas atitudes é um mundo que nem todos podem compartilhar.


Edição, revisão e arte em destaque por Isabelle Simões.

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Escrito por:

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Formada em Jornalismo. Gosta muito de cinema, literatura e fotografia. Embora ame escrever, é péssima com informações biográficas.
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