Poly Styrene: feminismo, ativismo negro e resistência no punk

Poly Styrene: feminismo, ativismo negro e resistência no punk

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Neste dia (03), há 63 anos, nascia Marianne Joan Elliott-Said, mais conhecida como Poly Styrene. Filha de uma assessora jurídica britânica (com origens escocesa-irlandesa) que a educou sozinha, e um aristocrata somali, Poly sempre teve muito interesse pela história do passado de sua família, diferente dos punks que apoiavam o esquecimento e libertação de fatos findados. Poly era uma das únicas participantes não-brancas das gigs Punks Contra o Racismo, por isso sua história é fundamental na música e no ativismo negro.

Poly Styrene com um de seus figurinos conceituais em 1991.
Poly Styrene com um de seus figurinos conceituais em 1991. (Foto: Ian Dickson/Redferns)

Início da carreira

Aos 16 anos, Poly saiu de casa com a intenção de conhecer comunidades hippies e outros estilos de vida que a atraiam, indo de cidade em cidade. Infelizmente teve que interromper sua experiência depois de contrair septicaemia e ter que voltar para casa. Mesmo com a volta antecipada, a experiência fez com que Poly se tornasse bem mais confiante e afirmasse que ficar nos palcos havia se tornado bem mais fácil depois disso.

Em 1976, com 18 anos, lançou seu primeiro single pela GTO Records chamado “Silly Billy”, como Mari Elliott, produzido por Falcum Stuart, na época seu companheiro e futuro empresário e produtor da banda X-Ray Spex. A música, com uma pegada jazz reggae, fala sobre gravidez na adolescência e mesmo que “Billy you silly to mess with this filly” não seja uma das melhores letras de Poly, a iniciativa de usar o tema da gravidez indesejada, sendo abordado na sua primeira canção lançada, é revolucionário. 

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Capa do primeiro single de Poly Styrene, lançado como Mari Elliott.
Capa do primeiro single de Poly Styrene, lançado como Mari Elliott (Foto: reprodução)

X-Ray Spex

No mesmo ano (1976) a banda X-Ray Spex é formada, fato que manteria o nome da lendária vocalista negra para a história. A banda se manteve ativa até 1979 e teve outras retomadas anos depois. Juntos, lançaram 4 singles e um álbum de estúdio chamado “Germfree Adolescent“.

X-Ray Spex - Poly Styrene
Capa do primeiro álbum de estúdio da X-Ray Spex. (Foto: reprodução)

Musicalmente falando, o diferencial do conjunto era a saxofonista Lora Logic. que em 1977 deixou o grupo e formou o Essential Logic, sendo substituída por Steve Rudi. É completamente inusitado pensar na presença de um sax numa banda punk, mas era inevitável que todo mundo que ouvia gostava.

Politicamente, a presença de Poly era muito poderosa. Como frontwoman e vocalista, era ela quem expressava a real intenção da banda, com suas composições que criticavam o capitalismo e o consumismo. 

Logic e Styrene tomando frente dos palcos.
Logic e Styrene tomando frente dos palcos. (Foto: reprodução)

No documentário “She’s a Punk Rocker (UK)“, dirigido por Zillah Minx, Poly relata que estar na banda e compor era bastante divertido para ela. Sem pensar muito sobre uma sequência de acordes rebuscada, Poly criava a linha vocal e apresentava a música para os companheiros de banda. Diz que era prazeroso porque podia realmente se expressar no palco e se vestir como bem entendesse.

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Em uma das músicas mais famosas de X-Ray Spex, Poly literalmente manda a escravidão se foder (“Oh Bondage, Up Yours!”), ironizando a sujeição ao consumismo e a escravidão: “Bind me, tie me/Chain me to the wall/I wanna be a slave/To you all”. (Tradução livre: “Prenda-me, amarre-me/Acorrente-me na parede/Eu quero ser uma escrava/A todos vocês“).

Sem dúvidas, essa é umas composições principais quando se levanta bandeira contra todas as opressões do mundo colonizador, racista e patriarcal. É importante salientar que o que torna a figura de Poly memorável  é exatamente o teor político de suas letras e performances.

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Em “Art-I-Ficial“, Poly expõe a problematização de ser mulher em uma sociedade consumista, onde o que importa é o visual e a performance de feminilidade:

I know I’m artificial, but don’t put the blame on me/I was reared with appliances in a consumer societ/When I put on my make-up, the pretty little masks not me/‘Cause that’s the way a girl should be in a consumer society” (Tradução livre: “Eu sei que sou artificial/Mas não coloque a culpa em mim/Eu fui criado com eletrodomésticos/Numa sociedade de consumo/Quando eu coloco minha maquiagem/A bela pequena máscara, não eu/Esse é o modo que uma garota deve ser/Numa sociedade de consumo“).

Aqui ela pontua muito bem como essa construção social não é algo que deve cair singularmente nas costas da mulher, mas sim da sociedade como um todo. 

Acompanhando a crítica à sociedade, “Identity” aborda os problemas com os padrões impostos e com a impossibilidade de se encaixar neles: “Identity is the crisis can’t you see/Identity/identity/When you look in the mirror/Do you see yourself?” (Tradução livre: “Identidade é uma crise, você não pode ver?/Identidade/Identidade/Quando você olha no espelho/Você se vê?“).

A música ainda retrata a questão da automutilação e até do suicídio como consequência dessa dificuldade em se encaixar: “When you look in the mirror/Do you smash it quick/Do you take the glass/And slash your wrists/Did you do it for fame/Did you do it in a fit/Did you do it before/You read about it” (Tradução livre: “Quando você se olha no espelho/Você o esmaga rápido?/Você tira o vidro/E corta os seus pulsos?/Você fez isso por fama?/Você fez isso num ataque?/Você fez isso antes?/Você leu isso?“).

Saúde mental e maternidade

Quando ainda estava no auge da carreira, a saúde mental de Poly começou a ser prejudicada, talvez como consequência da grande exposição pública. Em um mini documentário da BBC, sua filha Celleste Bell relata que Poly foi diagnosticada com transtorno bipolar e acabou deixando a X-Ray Spex no ano de 1979.

Após o nascimento de Celeste, Poly começou a fazer parte do movimento Hare Krishna, adotando um estilo de vida mais tranquilo. O período em que esteve fora dos palcos e das lentes tem poucos relatos na internet. O nome do pai de Celeste inclusive é raramente mencionado, assim como sua data de nascimento.

Poly e Celeste (Foto: reprodução)

Quando Celeste completou 8 anos, decidiu que moraria com a avó, porque a saúde mental de sua mãe estava piorando e afetando a vida de ambas. As duas finalmente teriam uma relação cada vez melhor a partir dos anos 2000, quando Poly se mudou para Hastings. Segundo a filha, ela havia aprendido a se cuidar e estava lidando bem com sua saúde e seu psicológico. As maneiras usadas por Poly para melhorar e intensificar seu autocuidado são questões pouco aprofundadas pela filha.

O retorno de Poly Styrene aos palcos

Após sua saída em 1979, a banda X-Ray Spex chegou a experimentar três retornos, o mais recente sendo o último show de Poly, em 2008, no Roundhouse. Enquanto estava trabalhando em seu álbum solo intitulado “Generation Indigo“, foi diagnosticada com câncer de mama e faleceu um mês após o lançamento do projeto, aos 53 anos.

Poly Styrene em 2011. (Foto: reprodução)

Atualmente, Celeste mantém o arquivo de sua mãe, transformando-o em material biográfico para os fãs. Escreveu e publicou “Day Glo: The Poly Styrene Story” em 2019 e desde 2017 está trabalhando no filme biográfico “Poly Styrene: I Am A Cliché. Enquanto este último ainda não é lançado, confira o documentário da BBC dos anos 1979 sobre Poly e X-Ray Spex (áudio em inglês):

https://www.youtube.com/watch?v=O3VfugdCTTU

Ao saber um pouco mais sobre a história de Poly, qualquer pessoa é capaz de perceber que a música não é apenas um conjunto de barulhos, mas é algo político. Ter Poly, uma mulher negra nos microfones, cantando letras que criticavam a sociedade e gritando palavras de ordem, foi fundamental para termos hoje em dia mulheres negras que trilham o mesmo caminho e, independente do gênero musical, usam suas músicas como protesto.

É claro que a quantidade de artistas negras precisa ser cada vez maior, mas ocupar espaços majoritariamente masculinos e brancos é uma vitória. A história de Poly também nos faz refletir sobre o peso psicológico de ser uma mulher negra artista em uma sociedade machista e racista. Será que ela sofreria tanto e teria o mesmo diagnóstico de bipolaridade se vivesse em outra realidade?

Chrissie Hynde, Debbie Harry, Viv Albertine, Siouxsie Sioux, Poly Styrene e Pauline Black
Chrissie Hynde, Debbie Harry, Viv Albertine, Siouxsie Sioux, Poly Styrene e Pauline Black. Foto tirada em 1980 por Michael Putland.

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Psicóloga, mestranda e pesquisadora na área de gênero e representação feminina. Riot grrrl, amante de terror, sci-fi e quadrinhos, baterista e antifascista.
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