Revelação: pessoas que nem sempre enxergam sua realidade na tela

Revelação: pessoas que nem sempre enxergam sua realidade na tela

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Junho foi o mês da representatividade LGBTIA+ por todo o mundo. É claro que as grandes empresas do streaming não ficaram de fora ao celebrar essa visibilidade. A Netflix disponibilizou em seu catálogo o documentário “Revelação”, que já no trailer nos deixou com aquela sensação de que assistir deveria ser uma obrigação de quem está comprometida com as bandeiras coloridas, principalmente a azul, rosa e branca, carregada pelas pessoas transexuais.

Pois bem, é isso. De uma maneira simples e clara, o documentário é sobre pessoas trans. Bacana, você pensa, mas qual é a grande inovação? A grande sacada é que traz pessoas trans falando sobre si mesmas, pensando sobre si mesmas e, principalmente, jogando na nossa tela o absurdo que era sua representatividade até bem, bem, pouco tempo atrás (e ninguém está dizendo que agora é perfeito).

Com base em filmes, séries e programas norte-americanos vemos o quanto as pessoas trans, durante todo o século XX e o desenvolvimento milionário da indústria do entretenimento – inclusive e talvez principalmente Hollywood – foram mostradas como aquelas e aqueles que não deveriam estar ali ou, no máximo, eram aqueles seres estranhos, exóticos talvez.

Veja o trailer do documentário “Revelação”:

A localização geográfica é nos Estados Unidos. Em “Revelação” é contada a história de pessoas americanas em sua diversidade e fica para nós, habitantes do sul global, aquele velho questionamento: e sobre nós? (Lembrando que só nos primeiros meses deste ano foram registrados 38 casos de homicídios contra pessoas transexuais no Brasil). Neste sentido, colonialismos à parte, o documentário nos deixa com uma ideia nos minutos finais, mas que serve bem para começar qualquer tipo de reflexão: não adianta apenas algumas pessoas chegarem aos holofotes, se toda uma comunidade ainda vive no limbo, ou seja, não adianta nada mudar a representatividade nas telas se, no mundo real, a vida dessas pessoas continua a mesma.

Mais de 20 pessoas entrevistadas. Todas elas do mundo da cultura e do entretenimento. Algumas como Laverne Cox (Orange is the new black), Jamie Claiton (Sense8), MJ Rodriguez (Pose) Chaz Bono (Becoming Chaz) são muito famosas, mundialmente falando, por suas carreiras e militância. Já outras entrevistadas e entrevistados ainda não tem, ou já tiveram, carreiras tão bombadas. De qualquer forma, sem tentar encaixar nenhum deles ou delas dentro de classificações, pois é isso que a sociedade já tenta fazer com essas pessoas, fica a homenagem à essas pessoas que, em busca da sua própria sobrevivência, tomaram decisões, seguiram caminhos não convencionais e agora revelam suas histórias para o mundo.

Laverne Cox, Mj Rodriguez, Lilly Wachowski no documentário da Netflix "Revelação"
Laverne Cox, Mj Rodriguez, Lilly Wachowski e mais falam sobre a evolução da representação trans. (Imagem: reprodução)

Aqui, cabe fazer um comentário sobre o título. O original é “Disclosure”, o que numa tradução livre poderia ser “abertura”. Porém, para qualquer pessoa falante de português, não teria o peso da “revelação” dessas pessoas. Sim, isso, a revelação de si. Neste sentido, temos uma das falas do documentário: a necessidade de pessoas trans estarem sempre se revelando para as outras pessoas. Como se fosse uma verdade individual que todos deveriam saber e ainda assim, correndo o risco de sofrer alguma violência, pois a pessoa que “recebe” a revelação pode – no senso comum – se sentir enganada, ultrajada. Cá entre nós, pessoas cisgêneras, imagina o cansaço? De guardar seus próprios medos, angústias, falta de confiança só porque algum privilegiado por aí pode se sentir traído se não souber dessa verdade única e particular.

Mais do que baseado nas histórias particulares, “Revelação” traça a narrativa da representatividade de pessoas trans nas mídias nos séculos XX e XXI. De maneiras caricatas, de maneiras violentas, de maneiras tristes. Os estereótipos reforçam preconceitos na sociedade de uma maneira geral, mas também o quanto influenciaram na vida daquelas pessoas em relação aos seus amigos, familiares e, principalmente, na visão que tinham (e ainda tem) sobre si mesmas.

Yance Ford no documentário "Revelação"
Yance Ford em “Revelação”. Foto: Ava Benjamin Shorr/Netflix

Os exemplos são inúmeros. Cenas, roteiros, personagens, atores/atrizes, direção, produção, etc. E aqui, cabe um parêntese sobre a invisibilidade (ou má representatividade) trans dentro de produções voltadas para a comunidade LGBTIA+. É o caso das temporadas antigas de “The L Word” – infelizmente ainda precisamos falar sobre Max – ou pessoas da própria comunidade como Ryan Murphy, com sua série “Nip/Tuck” (2003 – 2010) (“Estética” no Brasil) que, segundo algumas pessoas entrevistadas, trazia um grande incômodo.

Neste ponto, é impossível não mencionar que essas vivências estão perpassadas de vários tipos de preconceitos – como racismo, xenofobia -, mas que o machismo da sociedade nunca deixa de estar presente. Basta dizer que mulheres trans são muito mais objetificadas que homens trans (esses, pouco visíveis, no senso comum são “mulheres muito masculinas”) e, seja na vida real ou na ficção, recorrem às situações de prostituição como sobrevivência.

Angelica Ross em "Revelação", documentário da Netflix
Angelica Ross em “Revelação”. Foto: Ava Benjamin Shorr/Netflix

O documentário “Revelação” é uma bomba de desconstrução do imaginário social sobre as pessoas trans. Sua vida intima, suas personagens, carreiras, histórias, dores e amores. E ainda por cima, com uma sensibilidade única, nos mostra que essa mudança é possível.  Usando, como um dos exemplos, Oprah Winfrey e sua mudança de atitude ao entrevistar pessoas trans nos últimos anos. Ou seja, nos mostra uma realidade incômoda, mas ao mesmo tempo, nos mostra que a mudança e evolução são possíveis.

O início de tudo é com Nomi Marks, interpretada por Jaime Clayton dizendo: “Sabe aquela sensação quando você está no cinema e todo mundo está rindo de algo, mas você não entende?” E é assim que essas pessoas, de acordo com seus próprios relatos, se sentiam e ainda sentem. Porém, ainda de acordo com elas (e ainda bem!), durante muito tempo foram invisibilizadas, só que não mais.


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Lésbica, feminista, produtora de conteúdo, fluente em inglês e memes brasileiros. Sua trajetória pode ser seguida de uma adolescente emo para uma hipster meio torta, sempre bebendo muito café. Ativista dos direitos humanos, é fundadora do grupo “Féministas” que envolve feminismo e religião. Nunca nega um bom papo, mas se o assunto estiver relacionado com cultura nerd, signos ou gatos trabalha na base dos slides com muita convicção.
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