Phoebe Bridgers: melancolia e letras confessionais

Phoebe Bridgers: melancolia e letras confessionais

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Phoebe Bridgers nasceu em Pasadena, Califórnia, em 1994, e começou a compor suas próprias músicas e tocar violão aos 11 anos. Seu álbum de estreia foi lançado em 2017, intitulado “Stranger in the Alps”.

A carreira da jovem decolou após seu primeiro disco e anualmente a cantora lança algum material novo para os fãs. Em 2018, trabalhou em conjunto com Julien Baker e Lucy Dacus no EP colaborativo “boygenius”. Em 2019, lançou “Better Oblivion Community Center”, com Conor Oberst em um projeto homônimo. Esse ano, a artista lançou seu segundo álbum solo, “Punisher

Phoebe Brigders performando
Phoebe Brigders performando. (Foto: reprodução)

Os álbuns colaborativos de Phoebe Bridgers

Better Oblivion Community Center” é um trabalho conceitual, carregado de sentimentos e significados, com canções cuja temática é um centro de tratamento distópico com finalidade de solucionar conflitos emocionais e sociais. Os dois têm jeitos diferentes para compor: enquanto Phoebe escreve letras sempre autobiográficas, Conor cria personagens em suas músicas, o que gera uma combinação interessante. 

Conor Oberst e Phoebe Bridgers
Conor Oberst (vocalista, compositor e fundador da banda Bright Eyes) e Phoebe Bridgers. (Foto: reprodução)

O EP “boygenius“, lançado pela Matador Records, também se mostra bastante simples e cru: as vozes estão sempre em destaque, numa harmonia incrível; enquanto os arranjos de bateria quase não aparecem, as cordas são bem usadas para o casamento com as vozes, dando um toque bem sentimental.

É um disco bastante delicado, com letras sentimentais sobre relacionamentos, questões psicológicas e tentativas de se manter bem, temas que dialogam bastante com o que as jovens artistas vem fazendo em suas carreiras solo, além de outras compositoras desse segmento confessional, como Frankie Cosmos, Soccer Mommy, Courtney Barnett e até a nova onda da Sleater Kinney

Phoebe Bridgers, Lucy Dacus e Julien Baker
Phoebe Bridgers, Lucy Dacus e Julien Baker. (Foto: Reprodução)

Trabalhos solos

Stranger in the Alps” é um compilado de revelações pessoais. A cantora relata que sempre escreveu canções autobiográficas e que não faria sentido cantar músicas compostas por outras pessoas.

Uma das primeiras letras que ela compôs, aos 16 anos, foi sobre uma melhor amiga que teve que sair da escola onde estudavam juntas. Phoebe sempre pende para um lado obscuro e triste, o que pode transformar suas músicas em um turbilhão de sentimentos para quem as ouve.

Phoebe no clipe de "Motion Sickness"
Phoebe no clipe de “Motion Sickness”. (Foto: Reprodução)

A influência de Elliott Smith é bastante significativa nos trabalhos de Bridgers, ela inclusive gosta de imaginar suas músicas como pequenas fotos, assim como Elliott dizia. Além dessa comparação sinestésica, a presença da melancolia e de vocais bastante marcados e melódicos é um identificador para suas músicas.

Seria plausível imaginar que a compositora se sinta vulnerável por sempre expor sua vida nas letras, mas Phoebe afirma que nunca se sentiu assim e que geralmente escreve suas músicas meses depois do acontecimento que as inspira. É como se a ideia ficasse maturando em sua cabeça antes de ir definitivamente para o papel.

Phoebe em apresentação no Paste Studios, Nova Iorque
Phoebe em apresentação no Paste Studios, Nova Iorque. (Foto: Reprodução)

Com mais maturidade, principalmente musical, Phoebe estava trabalhando em seu novo álbum há algum tempo e decidiu lançá-lo antes do previsto. Punisher” começou a ser desenvolvido logo após o lançamento de seu disco de estreia. A capacidade quase natural de Bridgers a pender a esse tal lado obscuro, destacando temas delicados e sensíveis, é ainda mais explorada agora. 

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Phoebe relata que um dos temas mais abrangentes do álbum reflete grande parte dos relacionamentos que a cerca: o alcoolismo. O pai da cantora é alcoólatra, ela já namorou vários homens que tinham o mesmo problema, além de ter alguns amigos viciados também. Bridgers diz que é difícil pensar em seus próprios problemas quando se tem alguém assim do seu lado, já que o foco acaba sendo sempre a questão da bebida, além de uma espécie de complexo de salvador que aflige essas relações.

Capa do álbum "Punisher", de Phoebe Bridgers
Capa do álbum “Punisher”.

Quanto mais você ouve “Punisher”, mais você se sente imersa no sentimento e na melancolia das canções. As incertezas sobre felicidade, relacionamentos e a vida de modo geral, incluindo até o fim do mundo (como na canção I Know The End), se intensificaram durante a pandemia do Covid-19 e acreditamos que o álbum não poderia ser lançado em um momento melhor. Com imensa expressividade, “Punisher” tem potencial para ser um dos melhores álbuns de 2020.

Apresentação feita por Phoebe Bridgers em seu banheiro durante a quarentena.
Apresentação feita por Phoebe em seu banheiro durante a quarentena. (Foto: reprodução)

O caso Ryan Adams

Em junho deste ano, diversas mulheres vieram a público relatar abusos físicos e psicológicos que sofreram com o cantor Ryan Adams. Phoebe conheceu o artista quando tinha 20 anos e ele trabalhou no primeiro EP da cantora. Antes de conhecer a história dos abusos de outras mulheres, Phoebe imaginou que estava em um dos piores relacionamentos que já havia tido.

Quando começaram a se relacionar amorosamente, Ryan se tornou obsessivo e abusivo emocionalmente e teria inclusive pedido que Phoebe e ele fizessem sexo por telefone com hora marcada para que ela sempre provasse onde estava; quando a cantora demorava para responder, ele ameaçava suicídio. 

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Mandy Moore, ex-esposa de Ryan, relata que o cantor teria até mesmo dificultado outros contratos musicais, abusando de sua influência no meio. Adams também está sendo acusado de assediar menores de idade, mas é claro que negou tudo em suas redes sociais, como praticamente todos os outros abusadores que conhecemos. 

A melancolia em destaque

A principal marca de Phoebe é a presença da melancolia em suas canções. É interessante destacar que isso não significa que a artista romantize transtornos mentais como a depressão, mas sim que ela diz de uma tristeza inerente ao ser humano, a insegurança acerca da felicidade, a saudade e a nostalgia de momentos sem volta ou até que ainda não aconteceram. Na maioria das composições, Phoebe rejeita a estrutura de um amontoado de palavras que rimam para colocar frases complexas cheias de sentidos.

A cantora e compositora Phoebe Bridgers
A cantora e compositora Phoebe Bridgers. (Foto: reprodução)

Esse tipo de composição, o qual estamos chamando de confessional, é importante não pelo fato de fazer denúncias sobre a realidade ou outras violências de forma explícita (embora ainda o faça), mas no sentido de permitir com que as ouvintes se identifiquem com aquele sentimentalismo. Portanto, é possível se sentir sugada para um movimento de introversão que às vezes não nos é sempre permitido. São temas cotidianos que nos tocam significativamente e fazem a música valer a pena.

Confira alguns clipes do último lançamento da artista:


Edição e revisão por Isabelle Simões.


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Autora

Estudante de Psicologia, pesquisadora na área de gênero e representação feminina. Riot grrrl, amante de terror, sci-fi e quadrinhos, baterista e antifascista.
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