Stevie Nicks: revolução, memória e potência feminina

Stevie Nicks: revolução, memória e potência feminina

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Stevie Nicks é a única mulher a ser incluída duas vezes no Rock n’ Roll Hall of Fame: em 1998, com a Fleetwood Mac, e em 2019, por sua carreira solo. É praticamente impossível encontrar um ouvido que não reconheça os acordes e as letras de “Landslide” ou “Dreams” – mais ainda quem não reconheça a voz característica dessas duas músicas. A trajetória da musicista é símbolo de revolução, memória e potência feminina.

Os primeiros anos de Stevie Nicks

Nascida no Arizona em 1948, Stephanie Lynn Nicks aprendeu a cantar ensaiando duetos com o avô. Ensaiar os acordes do violão, em seguida, foi mais do que natural na vida da pequena Stevie, passando grande parte da sua adolescência aprimorando as músicas que aprendia e envolta no que chamou, depois, de “seu pequeno mundo musical”. Foi ao completar 16 anos, quando ganhou um violão especial, que Nicks escreveu sua primeira canção, “I’ve Loved and I’ve Lost, and I’m Sad But Not Blue”.

Stevie Nicks na infância.
Stevie Nicks em seus primeiros anos. (Imagem: reprodução)

Mudando-se constantemente por conta do emprego do pai, Stevie Nicks participou de sua primeira banda ao viver em Arcadia, na California – uma banda focada em harmonias vocais e estudos de folk-rock chamada Changing Times. Após isso, a mudança para Atherton, outra cidade da California, coloca Lindsey Buckingham em seu caminho. Até então era apenas colega de escola, mas posteriormente Buckingham se tornaria seu grande parceiro musical (e companheiro amoroso).

O início da parceria musical com Buckingham

Esta parceria tomaria forma ainda em 1967. Lindsey era membro da banda de rock psicodélico Fritz – e dois membros estavam largando o grupo para irem à faculdade. Stevie, então, é convidada a compor a banda como vocalista principal. A Fritz acaba por abrir shows de Jimi Hendrix e Janis Joplin entre 1968 e 1970, experiência que inspirou diretamente a performance de palco intensa e marcante de Nicks.

À época, Stevie frequentou a San Jose State University, com intenções de se tornar uma professora de inglês. Porém, antes da conclusão, e apegada aos cuidados da mãe e do pai, ela pede a benção para largar a faculdade e buscar carreira na música profissional.

Em 1972 a Fritz se separa. Stevie e Lindsey se mantém como um duo, experimentando em gravações caseiras, até assinarem com a Polydor Records. É sob a marca da gravadora que lançam o álbum “Buckingham Nicks“, primeira assinatura oficial da parceria entre os dois. No entanto, o disco chega com pouca força comercial e a gravadora abandona o contrato.

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Stevie Nicks e Lindsey Buckingham ao fundo.
Stevie Nicks em apresentação, com Lindsey Buckingham ao fundo. (Imagem: reprodução)

No período pós-Buckingham Nicks, Stevie precisou trabalhar em diversos empregos temporários para conseguir se manter – em um deles, dividia o turno como garçonete e como empregada na casa do produtor Keith Olsen, onde morou com Lindsey durante um breve tempo.

Pouco tempos depois, os dois passam a dividir um apartamento com outro produtor, Richard Dashut. Buckingham consegue um emprego como guitarrista na tour de 1972 dos Everly Brothers, enquanto Stevie ficou para trás trabalhando em novas músicas e composições. Foi nesse período de isolamento em que ela compôs duas das mais famosas de suas músicas: “Rhiannon”, após ler a novela “Triad” da autora Mary Leader; e “Landslide”, inspirada na paisagem de Aspen e no relacionamento conturbado e em vias do fim com Lindsey.

A chegada e o sucesso na Fleetwood Mac

É em 1974 que Stevie Nicks aterrissa na Fleetwood Mac. Keith Olsen, ao receber Mick Fleetwood, que estava em busca de um novo estúdio, toca uma das músicas do álbum “Buckingham Nicks”. Meses depois, próximo ao fim do ano, quando Bob Welch decide deixar a guitarra da Fleetwood Mac, Mick lembra de Buckingham e o convida a entrar na banda. Lindsey, por sua vez, recusa: ele afirma que ele e Stevie são um combo e que ele não entraria sem a companheira. A banda aceita, decidindo que incorporar o duo poderia trazer bons frutos.

Fleetwood Mac com Stevie Nicks e Lindsey Buckingham.
Fleetwood Mac, agora com Stevie Nicks e Lindsey Buckingham. (Imagem: reprodução)

E tais frutos chegaram mais cedo do que esperavam. Ao lançar seu álbum homônimo em meados de 1975, a Fleetwood Mac finalmente alcançou sucesso profissional e reconhecimento mundial. “Rhiannon” e “Landslide”, as composições de Nicks para o álbum, se tornaram hits avassaladores. A última alcançou rapidamente a marca de mais de três milhões de execuções – à época, um número assustador –, enquanto a primeira foi ganhando ainda mais força teatral ao ser performada no palco por Stevie como um exorcismo pela intensidade.

Com o sucesso e reconhecimento, Nicks também procurou a designer Margi Kent para ajudá-la a construir seu look performático característico de palco, com nuances ciganas e boêmias misturadas ao folk rock da banda. Em contraste, também, o relacionamento com Lindsey chegou ao ápice do desgaste, levando a cantora a finalmente terminar a relação.

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O estilo de Stevie Nicks no palco.
O estilo de Stevie Nicks no palco. (Imagem: reprodução)

Durante todo o ano de 1976, Nicks se dedica às gravações de “Rumours“, próximo álbum da Fleetwood Mac, e nas gravações como backup vocal do segundo álbum de Warren Zevon. Com o lançamento de “Rumours” logo no início de 1977, a banda novamente ganha reconhecimento mundial. Com novo destaque para a composição e interpretação de Nicks, “Dreams” se torna a única música da Fleetwood Mac a alcançar a posição número 1 da Billboard Hot 100. O álbum acaba se tornando o mais vendido da banda.

Nos anos seguintes, a Fleetwood Mac lança mais dois álbuns: “Tusk” e “Mirage“. Nesse período, Nicks também trabalha em diversos duetos e novas participações como backup vocal: os destaques são as participações no álbum “Not Shy”, de Walter Egan, em que a música “Magnet and Steel” alcançou a lista a Billboard Hot 100; os duetos “Whenever I Call You Friend” com Kenny Loggins e “Gold” com John Stewart; e as participações especiais em shows da tour Hard Promises de Tom Petty and the Heartbreakers.

Stevie Nicks e Tom Petty.
Stevie Nicks no palco com Tom Petty. (Imagem: reprodução)

A carreira solo de Stevie Nicks

Entre as gravações dos discos da banda e as colaborações, Nicks havia acumulado um bom número de canções que não poderia lançar com a Fleetwood Mac: o grupo tinha um acordo de três músicas para cada compositor por álbum. Juntando-se a Danny Goldberg e Paul Fishkin, ela funda uma gravadora, a Modern Records, para o lançamento das gravações e demos de Nicks.

Seu primeiro álbum solo, “Bella Donna“, encontra aclamação crítica e comercial, chegando à primeiro da lista da Billboard 200 e emplacando quatro singles na Billboard Hot 100. A Rolling Stones, com o lançamento, decretou Stevie Nicks como The Reigning Queen Of Rock n’ Roll” (algo como “A rainha reinante do rock n’ roll”).

A carreira solo de Stevie Nicks

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O segundo álbum, “The Wild Heart“, chega em 1983 e alcança a marca de disco de platina duplo, emplacando a posição de número cinco da Billboard 200. A performance de Nicks de “Stand Black”, hit do álbum, no Saturday Night Live, torna-se icônica no mesmo ano.

Durante a tour do primeiro álbum e lançamento do segundo, Nicks evidencia também a sua lealdade às colaborações na música. Na tour ela encontra Sharon Celani e Lori Perry, que se tornariam suas backup vocals oficiais até hoje. Nas gravações do segundo álbum, ela começa sua parceria de vida com a compositora e musicista Sandy Stewart, responsável, por exemplo, pela autoria do hit “Nightbird”.

“Rock A Little” e novas colaborações

Rock A Little“, terceiro álbum solo, é lançado em 1986 após um processo longo – outro álbum, diferente, estava planejado, mas Nicks não se sentia satisfeita com a produção e decidiu começar um outro do zero. O novo álbum, no entanto, novamente encontra sucesso comercial e emplaca pelo menos três hits. Durante a tour, Stevie performa em apresentações como convidada de Bob Dylan e de Tom Petty and the Heartbreakers.

Ocupada com os shows de promoção de “Rock A Little” e problemas na vida pessoal, Nicks tem tempo limitado para conseguir contribuir plenamente com o novo álbum da Fleetwood Mac. Suas contribuições acabam sendo enviadas através de demos, para que a banda trabalhe em cima de suas composições remotamente. “Tango In The Night“, lançado em 1987, se torna o segundo álbum mais vendido da banda, com “Seven Wonders” e “Welcome to the room… Sara” como composições de Nicks na lista de canções.

Temporada fora da Fleetwood Mac e retorno à banda

De 1989 a 1991, e após a saída de Buckingham da Fleetwood Mac em 1987, Stevie lança dois discos. “The Other Side of The Mirror“, de forma solo, e “Behind The Mask“, com a banda. No entanto, após um embate com Mick – ele não permitiu que Nicks incluísse a canção “Silver Springs” na coletânea “Timespace: The Best of Stevie Nicks“, desejando lançá-la pelo valor comercial na coletânea de 25 anos da Fleetwood Mac -, Stevie rompe com a banda e sai.

Street Angel“, próximo álbum solo da cantora, é lançado em 1994, após um longo tempo de produção, mas é mal recebido pela crítica e Stevie desiste da tour com apenas três meses de estrada. Ela, então, entra em uma pausa musical até 1997, quando toda a Fleetwood Mac acaba se reunindo para a tour “The Dance”. O álbum resultado das apresentações ao vivo, marcando também os vinte anos de lançamento de “Rumours”, é completamente aclamado pela crítica, rendendo três nomeações ao Grammy.

Stevie Nicks no palco.

No ano seguinte, Stevie Nicks lança um box set com demos, gravações não lançadas e material inédito sobre sua carreira solo, intitulado “Enchanted“. O álbum seguinte, “Trouble in Shangri-la“, vinha sendo trabalhado desde 1994, mas só foi lançado em 2001, com contribuições iniciais de Sheryl Crow e finais de Natalie Maines, Sarah McLachlan e Macy Gray.

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De 2002 a 2009, Stevie volta a gravar com a Fleetwood Mac. O álbum “Say You Will“, de 2003, foi o primeiro da banda com Nicks como a única mulher do grupo, sem a participação de Christine McVie. Em 2007, lança outra coletânea, “Crystal Visions – The Very Best Of Stevie Nicks“; e em 2009 um novo álbum, ao vivo, “The Soundstage Sounds“, que trouxe a versão orquestra de “Landslide” como b-side do single “Crash Into Me”, uma regravação da música de Dave Matthews Band.

Na última década, Nicks não parou com a produção. “In Your Dreams“, primeiro álbum solo de inéditas de Stevie em dez anos, foi lançado em 2011 em parceria com o produtor Dave Stewart, reconhecido como parte do duo Eurythmics. Em 2014 chega o álbum “24 Karat Gold: Songs from the Vault” . No mesmo ano, ela também retorna às tours com a Fleetwood Mac. Primeiro, com a “On with the Show” tour e, depois, entre 2018 e 2019, com a “An Evening with Fleetwood Mac”.

Os bastidores da recuperação de Stevie Nicks

Para além de sua extensa e bem-sucedida carreira musical, Stevie Nicks passou por diversos problemas com abuso de drogas e medicamentos. Foram diversos os momentos, entre um álbum ou uma tour e outro, que a cantora percebeu que havia chegado ao limite de seu corpo e de sua sanidade. Tais acontecimentos fizeram com que ela reconhecesse o problema e fosse buscar ajuda.

Dois períodos de tratamento e recuperação de Nicks foram notórios. Em 1986, entre o lançamento de “Rock A Little” e a produção de “Tango in the Night”, quando ela decidiu se internar no Betty Ford Center para tratar o abuso de cocaína – é esta a inspiração para a canção “Welcome to the room… Sara”. E, em 1993, quando ela novamente decide se internar num hospital para se desintoxicar do medicamento pelo qual havia substituído a cocaína.

Em uma entrevista, Stevie diz que o que a fez lutar e não sucumbir foi pensar que ela ficaria muito triste se partisse e alguma cantora de rock dez anos depois desejasse que ela tivesse se cuidado um pouco mais.

Stevie Nicks além da música

A cantora também mantém um fundo de caridade chamado Stevie Nicks’ Band of Soldiers, voltado para arrecadar ajuda beneficente a soldados com lesões de guerra. Uma das ações que Nicks mantém com frequência é visitar os centros médicos militares e navais dos Estados Unidos. Desta forma, ela leva música e material musical para as pessoas, para sentar e conversar. Muitas vezes, ela ainda convence seus colegas de banda e parcerias a acompanhá-la.

Stevie Nicks

Hoje é impossível não identificar as influências de Stevie Nicks não somente para vocais, estilos e composições – como observamos com Dixie Chicks, Florence Welch e até mesmo Lorde –, mas também na representatividade uma mulher tão forte e de personalidade marcante a ganhar espaço e reconhecimento em um ambiente ultramasculino, como era o cenário do folk rock.

Suas composições complexas, presença de palco e imposição vocal provam, desde a década de 1960, que a presença de mulheres na música pode trazer complexidade de temas, diversidade de apresentação e, para além de tudo, a potência de existir.


Edição por Isabelle Simões e revisão por Mariana Teixeira.


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Autora

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Jornalista, fotógrafa, feminista e lésbica cearense. Ariana torta e viciada em qualquer série, filme ou livro que tenha mulheres amando mulheres, tem voltado sua atuação à defesa dos direitos humanos e à luta por visibilidade e representatividade lésbica. Não dispensa uma pizza ou uma balinha de gengibre das que vendem no ônibus. Nas horas vagas se atreve a escrever ficção científica.
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