HAIM: heterogeneidade e pessoalidade em Women In Music Pt. III

HAIM: heterogeneidade e pessoalidade em Women In Music Pt. III

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O primeiro vislumbre do que seria o terceiro álbum de Haim, banda composta pelas irmãs multi-instrumentistas Este, Danielle e Alana, veio em outubro de 2019: logo após o lançamento de “Now I’m In It”, Danielle relatou nas redes sociais o período em depressão que inspirou a composição.

Embora seja a vocalista principal e normalmente aquela que mais está em evidência, Danielle é também bastante introvertida. Em “The Wire”, música do álbum de estreia da banda, ela canta sobre ser “ruim em comunicação” e como, para ela, “é a coisa mais difícil”. Sempre quieta em entrevistas, eram as irmãs que normalmente respondiam às perguntas dos jornalistas, o que por anos alimentou incansáveis memes criados pelos fãs.

Mas quando Danielle compartilhou nas redes algo tão pessoal sobre si mesma e uma de suas composições, muito mais que sua postura e relação com público e mídia começava a mudar. Ouvindo o álbum completo, lançado na última sexta-feira (26), fica evidente o amadurecimento lírico das irmãs, que se antes cantavam majoritariamente sobre relacionamentos e decepções amorosas, agora vão muito além.

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Haim - Reto Schmid
Danielle, Alana e Este por Reto Schmid/Divulgação.

“Women In Music Pt. III” leva este nome como ironia à pergunta frequente entre entrevistadores sobre como é ser uma “mulher na música”. Embora muitas vezes relegadas ao pop — por serem mulheres, não há dúvidas, caso contrário os críticos seriam incapazes de identificar referências e variedades musicais —, Haim carrega influências, sobretudo, do rock.

Mas se nos dois primeiros álbuns eram bastante notáveis as influências de nomes como Joni Mitchell, Tom Petty, Prince e, provavelmente a mais eminente, a banda Fleetwood Mac, “Women In Music Pt. III” é heterogêneo e multidimensional, com um quê de UK Garage em “I Know Alone”, funk e R&B em “3am”, dub em “Another Try”, americana em “Leaning on You”, além do jazzy sax em “Los Angeles” e “Summer Girl”.

Em entrevista recente para o portal de notícias do Grammy, Alana afirma que era intenção que o álbum soasse como se aqueles que o escutam estivessem na sala enquanto elas gravavam as músicas, e que por isso soa tão “live” (como numa gravação ao vivo). Danielle completa dizendo que parte fundamental do trabalho era realizada em um estúdio privado, onde sentiam-se mais confortáveis.

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 Haim - Women In Music Pt. III (capa de Paul Thomas Anderson)
A capa do álbum foi clicada por Paul Thomas Anderson na Canter’s Deli, em West Hollywood, local onde as irmãs fizeram seu primeiro show com a Rockinhaim, banda que formavam com os pais.

As antigas referências continuam lá, é claro. O som de Tom Petty pode ser reconhecido em “I’ve Been Down”, outra música a abordar a depressão, comentando mudanças de humor, insônia, a dificuldade em reconhecer a si próprio, “assistir muita TV e olhar para o teto”. Ao final da canção, porém, reconhece-se a necessidade de ajuda, algo que Danielle salientou também em seu texto divulgado nas redes sociais.

A influência de Joni Mitchell é gritante já nos primeiros segundos de “Man From the Magazine”, música sobre a misoginia na indústria musical que expõe a pergunta ofensiva de um entrevistador: “você faz as mesmas expressões na cama?”, sobre o famoso bass face de Este; além de um vendedor de uma loja de instrumentos musicais, que entregou a Danielle um violão para iniciantes e, de maneira provocativa, a convidou a tocar alguns acordes.

As irmãs já comentaram, em entrevistas passadas, terem recebido 10 vezes menos que um artista de gênero masculino para tocar em um festival. Também não é incomum que sejam questionadas sobre quem escreve suas canções, deixando implícita a certeza de que há homens envolvidos no processo. “Você não sabe como é / espera que eu lide com isso / até que esteja perfeitamente entorpecida / mas você não sabe como é” [trecho de “Man From the Magazine”].

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Haim
Este, Danielle e Alana por Reto Schmid/Divulgação.

Questões particulares às outras irmãs, Este e Alana, são também exploradas em “Women In Music Pt. III”. A baixista, Este, sofre de diabetes tipo 1, e as complicações trazidas pela doença já ameaçaram sua carreira e a levaram a recorrer, também, a antidepressivos. Alana perdeu a melhor amiga em um acidente de carro, em 2012, pouco antes de sair em turnê para divulgar “Days are Gone”, o primeiro álbum da banda.

“Hallelujah” é sobre dificuldades, perdas, mas principalmente sobre cumplicidade e apoio mútuo entre as três. “Conheci dois anjos, mas estavam disfarçados”, canta Danielle, referindo-se às irmãs. Este entra mais a frente: “Rindo juntas, como se nossos pensamentos estivessem harmonizados / é assim desde 95 / dão-me orientação quando é difícil lutar / três estradas, uma luz”.

Esse formato, com cada uma cantando um trecho, é raro em suas músicas. Os versos de Alana são os mais emocionais: “Eu tinha uma melhor amiga, mas ela faleceu / uma que eu queria poder ver agora / você sempre me lembra que as memórias durarão / estes braços as alcançam”, ela canta, relembrando Sammi Kane Kraft. “SKK”, as iniciais de Sammi, permanecem em uma das guitarras de Alana há anos, como uma homenagem à amiga.

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Alana SKK - HAIM
Iniciais de Sammi Kane Kraft na guitarra de Alana durante a edição de 2018 do Rock in Rio Lisboa. Foto: Paulo Homem de Melo/Glam Magazine.

“Summer Girl”, um sample de “Walk on the Wild Side”, de Lou Reed, é uma declaração de amor e apoio ao produtor Ariel Rechtshaid, namorado de Danielle, que em 2015 foi diagnosticado com câncer de testículo — o que foi um catalisador para a depressão da musicista. Felizmente, a doença agora está em remissão. 

Não por acaso essa foi a música escolhida para fechar o álbum. Enquanto “Los Angeles”, a primeira, é uma manifestação da dúvida sobre a cidade natal, onde Danielle já não tinha certeza se gostaria de permanecer, “Summer Girl” começa com referência direta à cidade, onde queria estar em companhia de Ariel, na casa que dividem, ao seu lado na luta contra o câncer. Ela não podia, porém, desviar dos compromissos da turnê. 

Assista ao vídeo de “Summer Girl”:

É claro que “Women In Music Pt. III” não é completa novidade. Além das referências de sempre, aqui já mencionadas, também a temática amorosa é mantida em várias músicas. “Don’t Wanna” poderia tranquilamente integrar o álbum de estreia da banda — o que não é ruim. Mas a pessoalidade e a multidimensionalidade de WIMPIII o fazem especial, tornando-o um álbum experimental, ao mesmo tempo que salienta a maturidade musical das irmãs.

Ainda assim, embora muitos críticos já o classifiquem como o melhor dos três álbuns, aqui seremos cautelosas. Todos são muito bons, cada qual com suas particularidades e contexto. O segundo, “Something to Tell You” (2017), foi o que mais bebeu da fonte de Fleetwood Mac, e um trabalho com influência de tal nível não é facilmente superável. Favoritismos à parte, não há por que estabelecer uma hierarquia entre os álbuns. Contentemo-nos em apreciá-los. 


Edição e revisão por Isabelle Simões.


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Laysa Leal é bacharel em Cinema e Audiovisual com foco em roteiro, direção de arte e crítica especializada. Apaixonada por artes visuais, tem formação profissionalizante em fotografia e atua também como fotógrafa. Não dispensa uma boa música e está sempre pelo circuito de shows e festivais, uma das poucas ocasiões em que prefere o frenesi à quietude de museus e galerias de arte ou ao conforto de salas de cinema.
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