Só o som salva: um passeio pelos filmes de cantoras brasileiras para arejar a quarentena

Só o som salva: um passeio pelos filmes de cantoras brasileiras para arejar a quarentena

Leitoras e leitores sabem muito bem disso: distanciar-se da sua realidade, ser transportado para outra e, por algumas horas, esquecer da sua. Às vezes vem de tal forma que todos os minutos possíveis (almoço, espera, ônibus), serão dedicados a voltar àquele lugar e lá ficar, deslizando os olhos com calma por cada palavra para não sair de lá. Os fãs de música também: são minutos que nos enchem de vida, relembram eventos que vivemos, ajudam a curar dores, letras e acordes tão bem manipulados que nos transformam naqueles instantes. O sucesso das lives não mentem!

Esses instantes alcançaram outra dimensão na quarentena. Com muitos em casa, outros só indo e voltando do trabalho, todos fomos invadidos por muitos sentimentos e por conta disso, sentindo falta daquela vida a que estávamos tão habituados. Instantes que, se quiser, podem virar passeios pelas histórias incríveis de grandes cantoras brasileiras, topa?

Clementina de Jesus

Filmes de cantoras brasileiras para arejar a quarentena
Clementina de Jesus (Imagem: Hipólito Pereira 30/11/1984 / Agência O GLOBO)

Considerada a rainha do canto negro do Brasil e uma das maiores partideiras brasileiras, Clementina de Jesus é, contudo, desconhecida por muitos brasileiros. Sua revelação se deu apenas aos sessenta e três anos de idade. A escritora Conceição Evaristo, imortal por aclamação popular, ajuda a explicar o porquê: “Tudo para as mulheres negras chega de uma forma mais tardia, no sentido de alcançar tudo o que nos é de direito. É difícil para nós chegar nesses lugares.”

Para aqueles que ainda não a conhecem, ela cresceu ouvindo a mãe cantar jongos, partidos-altos, corimás, lundus, cantos de reisado e folias, o que definiu como sua voz grave, potente e ancestral iria se expressar. Cantou a oralidade e o improviso, como um verdadeiro elo, transmitindo a cultura da nossa herança africana.

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O documentárioClementina de Jesus – Rainha Quelé(2011, 56 minutos) é uma (breve) viagem por alguns anos de sua vida, com curiosidades, relatos de compositores e cantores, imagens e gravações. Eles revelam não só a emoção que ela transmitia e os encantos da sua voz, como seu distanciamento das famosas “divas do rádio” com um repertório de músicas afro-brasileiras tradicionais, mas também sua luta contra o machismo e a discriminação racial.

Cada imagem e causos dela, roubam um sorriso do espectador. Tanto para aqueles que já tiveram o prazer de conhecê-la ou para os que ainda não, a vontade ao final dos 56 minutos é ir correndo ouvi-la. Talvez esse passeio não seja o suficiente para você. Se não for, Clementina de Jesus ganhou uma biografia, criada a partir de um projeto de fim de curso de um grupo de estudantes entusiasmados: Quelé, A Voz Da Cor.

O trailer do documentário está no YouTube, já o conteúdo completo está disponível gratuitamente no Vimeo.

Clara Nunes

O documentário “Clara Estrela” (2017, 71 minutos) é narrado em primeira pessoa, a partir de depoimentos dela em rádio, televisão e jornais e as imagens são todas de arquivo, algumas pouco conhecidas. Certas apresentações são exibidas quase inteiras e quem assiste só não fecha os olhos para curti-las, por que não quer perder seus vestidos brancos, seus compridos colares e cabelos esvoaçantes, todos balançando. Solar.

Filmes de cantoras brasileiras
Capa do álbum “Brasil Mestiço” (Imagem: Reprodução)

A diretora Susanna Lira, que também dirigiu os documentários “Torre das Donzelas“, um retrato sobre as mulheres presas políticas na época da ditadura militar e “Damas do Samba“, que resgata o papel das mulheres no samba, relatou que além da intensa pesquisa, havia uma preocupação em abordar os assuntos que Clara Nunes considerava importantes, pautas atuais, mesmo ela tendo falecido há mais de trinta anos.

O documentário mostra seu papel ao abrir a indústria fonográfica para outras mulheres, a importância de encontrar sua identidade para se expressar (inclusive sua religiosidade) e a absoluta consciência da responsabilidade do espaço que ocupava: “A partir do momento que você vende muito disco, vai pra rádio, televisão e tem um grande número que veem e te ouvem, esses espaços devem ser ocupados com muita consciência, sempre em busca de uma situação melhor pra quem vive nesse país, essa é minha cobrança em cada música que canto e em cada show que faço”.

Essa é “só” uma das suas falas impactantes. Há outras sobre momentos difíceis que atravessou, como os tempos de operária (Clara era tecelã) e o início da carreira. Em todos a sensação permanece. Solar.

Também com trailer no YouTube, o documentário está disponível no canal Curta!

Cássia Eller

Cássia Eller
Cássia Eller. (Imagem: Divulgação do álbum “Todo Veneno Vivo”)

Um corte de cabelo curto mais bonito que o outro, às vezes tingido, raspado; um sorriso tímido; olhos pequenos, assim como seus lábios superiores; roupas largas; uma rebeldia meio punk meio rock’n roll; bissexual e mãeIsso por si só, mesmo nos anos 90, era transgressor e inspirava muitas e muitos. Mas ela (como todas nós) era muitíssimo mais que aparência e atitude: dona de uma voz rouca com timbre grave e perturbadora, cantora e compositora.

No documentário “Cássia Eller” (2014, 113 minutos) em algum momento alguém diz que seus shows eram uma “catarse profunda, sorte de quem tava lá para ver” e que “a maneira que ela cantava a música dos outros era uma maneira de compor”.

A obra é um passeio pela história dessa mulher, traz gravações antigas, fotos fofíssimas dela desde criança, histórias por trás das músicas e dos álbuns e as parcerias que fez ao longo da breve vida. Há também momentos irreverentes, como cantar num trio elétrico com Margareth Menezes, e outros delicadas e tocantes, como o apoio da mãe e sua relação com a maternidade. São 113 minutos da voz imbatível do rock’n roll com boas doses de MPB!

Com trailer no YouTube, o documentário está disponível nos canais GNT e Philos.

Elis Regina

Elis Regina
Elis Regina. (Imagem: reprodução)

Talvez o mais conhecido dessa lista e o único filme, “Elis” (2016, 110 minutos) também já foi exibido como minissérie na TV aberta, acrescido de recortes  (“Elis, Viver é Melhor Que Sonhar“). A licença para incluir uma cinebiografia na lista é (infelizmente) pela falta de outras obras sobre ela e, principalmente, por retratar aquela que é considerada uma das maiores cantoras brasileiras de todos os tempos.

Embora tenha tons televisivos e recebido muitas críticas, nesse momento de isolamento social vale pela inspiração, pela lembrança, pelas saudades e por deixar (como as outras obras) uma vontade de ir correndo ouvir Elis Regina, que é de fato uma das maiores cantoras brasileiras, lembrada até os dias atuais.

Disponível no canal Globo, com trailer no YouTube.

Elza Soares

Elza Soares. (Imagem: Lívia Sá/Divulgação)

Depois do início com Clementina de Jesus, não havia outra possibilidade senão terminar com ela, Elza Soares. A mulher do fim do mundo dispensa apresentações. Felizmente, ao contrário das outras quatro extraordinárias compositoras e cantoras brasileiras, Elza vive não só nas lembranças, mas pulsa em seus álbuns (lançou mais um no ano passado, o 34° da sua carreira), em shows e nas redes sociais.

O formato desse documentário “My Name Is Now, Elza Soares” (2014, 71 minutos) difere dos demais. A diretora Elizabete Martins Campos dedicou seis anos ao trabalho, três à acompanhá-la de perto e optou por contar as perdas, as dores, os abusos e também toda sua alegria, superação e irreverência de forma intimista, com um ritmo próprio, quase sinestésico. Nas suas palavras: “Busquei um fluxo de cinema. Elza é uma artista completa e fiquei encantada com a capacidade de improvisação. Senti que isso tinha que entrar”.

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O encanto rendeu ao documentário o Grande Prêmio do Cinema Brasileiro em 2019 pelo voto popular. E se já não fossem razões bastantes para vê-lo, ele celebra a experiência e o envelhecer, na contramão da indústria. Não há dúvidas, estamos diante de uma força da natureza. Aliás, cinco grandes cantoras brasileiras. Que já fizeram muito pela música, pelo comportamento, pelo feminismo e pela questão racial. Agora, também, por alguns instantes, nesses tempos de quarentena.

Com trailer no Youtube, este documentário está disponível no streaming Prime Video.


Edição por Isabelle Simões e revisão por Mariana Teixeira.

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Nativa do Paraná, atualmente cultivada no Rio de Janeiro. Adubada por livros, séries, música brasileira e outras mulheres.
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