A morte e a vida de Marsha P. Johnson: uma história que não deveria parar de ser contada

A morte e a vida de Marsha P. Johnson: uma história que não deveria parar de ser contada

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Em 2017 e sem muita divulgação, foi lançado pela Netflix o documentárioA Morte e a Vida de Marsha P. Johnson” que, como o nome já deixa certo, fala sobre a vida e, principalmente, sobre a morte de Marsha P. Johnson. Em 1992, ela foi encontrada morta no Rio Hudson, em Nova York, e nos registros oficiais consta que a causa foi suicídio. Porém, a narrativa do documentário mostra que – talvez – as coisas não tenham acontecido – e isso não é novidade – da maneira que constam nos registros oficiais.

Marsha era uma mulher transexual, ativista dos direitos de pessoas LGBTI+, fundadora do grupo Street Transvestites Action Revolutionaries (S.T.A.R. ou Ação Revolucionária das Travestis de Rua – em tradução livre) e teve um papel fundamental na Revolta de Stonewall. Para quem não se lembra ou perdeu o fio da história, esta foi a primeira revolta de pessoas LGBTI+ contra a repressão policial e deu origem à parada do Orgulho Gay (como foi conhecida durante muitos anos). Marsha era uma mulheres transexuais que estava no enfrentamento direto contra a violência.

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O documentário acompanha a investigação pessoal de Victoria Cruz sobre a repentina morte de Marsha. A direção é realizada por David France, já conhecido por seu trabalho em temas relacionados a este, como a explosão do HIV. Victoria, também ativista e parte do New York City Anti-Violence Project (Projeto antiviolência de Nova York), procura uma solução para o caso. Se nos registros oficiais a causa da morte de Marsha era suicídio, para Victoria e outras pessoas que conviviam com Marsha, isso está longe de explicar o que realmente aconteceu.

A investigação de Victoria é baseada em provas documentais, testemunhas oficiais e relatos de pessoas que conheciam Marsha. Nela, é nítido que, no mínimo, as pessoas responsáveis pela investigação não estavam muito empenhadas em fazer com que a verdade viesse à tona. O que não é uma grande surpresa, afinal, quase 20 anos depois, ainda temos que conviver com a ideia de que, nem sempre, a vida (e a história) de pessoas transexuais importam.

Marsha P. Johnson: o eco de histórias ainda tão comuns

A Morte e a Vida de Marsha P. Johnson
Marsha P. Johnson (Imagem: Reprodução)

No ano passado, 2019, foram celebrados 50 anos da Revolta de Stonewall. Celebrados, e não comemorados. Afinal, num mundo onde a não heterossexualidade é – ainda – considerada como crime, pecado, desvio de comportamento e/ou qualquer outro tipo de depravação, não existe nada para ser comemorado.

O Brasil tem estatísticas como um dos países do mundo que mais comete crimes contra pessoas transexuais. Segundo dados da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), 124 pessoas trans foram assassinadas em 2019. Por agora, meados de 2020, esse número já cresceu 180% ainda segundo o Antra. Ou seja, 51 anos depois, ainda temos que conviver com os preconceitos, que não se resumem apenas aos assassinatos, mas também a violência cotidiana. Afinal, você sabia que apenas em maio de 2020 pessoas assumidamente não heterossexuais foram permitidas a doar sangue no Brasil?

Por isso, falar da morte e da vida de Marsha P. Johnson é falar da vida e da morte de muitas outras pessoas transexuais que tiveram seus nomes – e corpos – perdidos em algum canto da história contada por quem não aceita as diferenças. Falar de Marsha é uma homenagem a todas e todos aqueles que pereceram na luta pela própria identidade.

Marsha P. Johnson, de Stonewall ao fundo do Rio Holland
Marsha P. Johnson (Imagem: Reprodução)

A visibilidade de alguém que não queria ser invisível

Muito além de ser necessário falar sobre a violência contra pessoas trans na ampla sociedade, precisamos falar também sobre a invisibilidade trans dentro da própria comunidade LGBTI+. Afinal, por muito tempo a sigla se resumia a GLS (gays, lésbicas e simpatizantes) e mesmo depois da mudança para LGBTI+ (e suas derivações) tem gente que acredita que o T é de t.A.T.u. ou de tesoura.

No próprio documentário isso fica explícito quando contado, brevemente, a história de Sylvia Rivera – amiga de longa data de Marsha e também fundadora do S.T.A.R – que foi deixada no ostracismo durante muito tempo. O ressentimento, e a razão, da militante ficam claro quando, num evento em prol das causas LGBTI+, ela pega o microfone e, sob vaias, declara: “Agora vocês podem ir a bares graças ao que as drag queens fizeram por vocês. Eu já apanhei, já quebraram o meu nariz, fui jogada na cadeia, perdi meu emprego e a minha casa por conta da liberação gay e vocês me tratam assim?”.

A Morte e a Vida de Marsha P. Johnson
Marsha P. Johnson (Imagem: Reprodução)
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Portanto, o documentário e a vida de Marsha P. Johnson são álcool na ferida. Nos joga no colo uma dívida histórica com aqueles e aquelas que – literalmente – deram a cara a tapa por uma sociedade mais igualitária e o triste é perceber que, mesmo agora, esse pote de ouro parece ainda muito distante no fim do arco-íris.


Edição e revisão por Mariana Teixeira.

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Lésbica, feminista, produtora de conteúdo, fluente em inglês e memes brasileiros. Sua trajetória pode ser seguida de uma adolescente emo para uma hipster meio torta, sempre bebendo muito café. Ativista dos direitos humanos, é fundadora do grupo “Féministas” que envolve feminismo e religião. Nunca nega um bom papo, mas se o assunto estiver relacionado com cultura nerd, signos ou gatos trabalha na base dos slides com muita convicção.
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