Mulheres na História do Cinema: Esther Eng

Mulheres na História do Cinema: Esther Eng

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Esther Eng foi a primeira cineasta a produzir filmes em língua chinesa nos Estados Unidos e a primeira chinesa a realizar filmes sonoros em Hollywood. Seu trabalho, marcado por um forte senso de identidade e notável consciência feminista, aborda temas transnacionais e interculturais, além de representar o sentimento nacionalista e antiguerra de uma China ameaçada pelo Exército Imperial Japonês, na década de 1930.

Juventude e primeiras influências de Esther Eng

Norte-americana com ascendência chinesa, Esther Eng (nascida Ng Kam-ha em 24 de setembro de 1914) é natural de São Francisco, uma dentre dez filhos de pais que imigraram de Taishan, no condado de Guangdong, na China, para os Estados Unidos, onde trabalhavam como comerciantes.

A ópera cantonense era uma popular forma de entretenimento durante a infância e juventude da cineasta: elencos integralmente constituídos por mulheres, que interpretavam papéis masculinos e femininos, excursionavam por Chinatown.

Acredita-se que o florescimento da indústria de filmes sonoros cantonenses tenha despertado o interesse de Eng pelo cinema. Ela chegou a trabalhar em uma sala de cinema local, onde poderia assistir aos filmes gratuitamente.

Ao mesmo tempo, as ofensivas de tropas militares japonesas durante o incidente de 28 de janeiro de 1932, em Xangai — um conflito entre a República da China e o Império do Japão — inspiraram um movimento anti-imperialista entre os chineses, com produções cinematográficas exibidas nos Estados Unidos, consolidando o interesse artístico e o sentimento antiguerra de uma jovem Esther Eng.

A cineasta Esther Eng.
A cineasta Esther Eng. (Imagem: reprodução)
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Em 1935, aos 21 anos de idade e com o apoio do pai, Eng criou a Kwong Ngai Talking Picture Company, estabelecida na própria casa da família. Foi também quando adotou o nome “Esther Eng”, já que seu nome de nascença era de difícil pronúncia.

Apesar de inexperiente, ela alugou um estúdio em Sunset Boulevard, Los Angeles, local onde realizou seu primeiro filme, “Heartaches” (Xinhen, no título original, 1935), dirigido por Frank Tong e parcialmente filmado em cor pelo diretor de fotografia Paul Ivano. Esther Eng é creditada como co-produtora, junto a Bruce Wong.

“Heartaches” é uma trágica história de amor entre uma cantora de ópera cantonense, interpretada por Wai Kim-fong, e um piloto em treinamento nos Estados Unidos. Para forçar o piloto a servir na resistência chinesa, ante às ofensivas do Império Japonês, ela recusa seu amor. Quando ele retorna aos Estados Unidos, após a batalha de Xangai, está casado com outra mulher, o que afeta a cantora a ponto de adoecê-la.

Wai Kim-fong em cena de “Heartaches” (1935).
Wai Kim-fong em cena de “Heartaches” (1935). (Imagem: reprodução)

Embora seja um drama romântico, o filme também é sobre a resistência em tempos de guerra, retratando o amor como um ato altruísta e de autosacrifício frente às necessidades da nação. Em sua estreia para comunidades chinesas na Califórnia, “Heartaches” foi um sucesso, encorajando Eng a arriscar nos mercados chineses e do sudeste asiático. A cineasta e a protagonista Wai Kim-fong embarcaram, então, para Hong Kong.

Década de 30 em Hong Kong

Calorosamente recebida em território chinês — o hotel teria lhe organizado uma festa de boas-vindas com representantes de diversas companhias cinematográficas e revistas —, Esther Eng decidiu permanecer em Hong Kong. Ela produziu e dirigiu seu próximo filme, “National Heroine” (Minzu Nuyingxiong, 1937), com roteiro de Yu Gai-ping.

Novamente estrelado por Wai Kim-fong, sua protagonista se alista ao exército chinês para provar que mulheres também são capazes de integrar a resistência. Para torná-lo mais comercial, o filme conta com números musicais e um tom cômico em algumas cenas, tendo sido exibido em todo o país.

Esther Eng
Esther Eng tinha apenas 22 anos ao filmar “National Heroine” e consolidar-se como cineasta. (Imagem: reprodução)

Na segunda metade da década de 30, mulheres chinesas de fato juntaram-se à resistência, chegando a assumir funções até como pilotas. Os filmes seguintes de Esther Eng refletiram, assim, tanto os acontecimentos históricos da época, como a situação de mulheres chinesas na sociedade.

Seus filmes seguintes foram “100.000 Lovers” (Shiwan qingren, 1938), uma comédia romântica cuja estreia ocorreu no Dia Internacional da Mulher, “Jealousy” (Duhua fengyu, 1938), “Woman’s World” (Nüren shijie, 1939) e “Husband and Wife for One Night” (Yiye fuqi, 1939). “Woman’s World”, livremente traduzido como “Mundo das Mulheres”, conta com elenco integralmente feminino. São 36 personagens de variadas profissões, que representam diferentes estratos sociais de Hong Kong.

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Com o avanço da Segunda Guerra Mundial, entretanto, Esther Eng se viu forçada a retornar aos Estados Unidos. Seu retorno se deu em outubro de 1939, mas ela continuou a manter contato com membros da indústria cinematográfica de Hong Kong, através de cartas, enquanto começava a trabalhar junto à Grandview Film Company, em Hollywood.

Golden Gate Girl” (Jinmen nü, 1941), filme que co-dirigiu com Kwan Man-ching, foi seu primeiro após o retorno ao país natal. O longa conta a história de um romance entre uma jovem estudante fascinada por ópera cantonense e um cantor da ópera local. Curiosamente, o filme é conhecido por ser a estreia de Bruce Lee nos cinemas, aos três meses de idade, no papel de uma garotinha recém-nascida — seu pai excursionava pelos Estados Unidos na época da gravação do filme.

Bruce Lee aos três meses de idade, em sua estreia no cinema em “Golden Gate Girl”.
Bruce Lee aos três meses de idade, em sua estreia no cinema em “Golden Gate Girl”. (Imagem: reprodução)

A versão dublada em inglês de “Golden Gate Girl” serviu como publicidade para o One Bowl of Rice Movement (algo como “Movimento por Uma Tigela de Arroz”), que visava arrecadar alimento e angariar fundos para as vítimas da guerra na China.

Período pós-guerra e mudança na carreira de Esther Eng

Com o envolvimento dos Estados Unidos na guerra, não havia muitas oportunidades para a realização de filmes no país. Esther Eng, então, concentrou sua atuação na indústria de distribuição de filmes. Ela havia fundado com o pai, anos antes, a Golden Gate Silver Light Company, que comprava os direitos de filmes cantonenses e os distribuía na América do Norte e América Latina.

Após o fim da guerra, a cineasta finalmente retornou a Hong Kong, com o objetivo de procurar novos filmes para distribuição e, também, novas oportunidades como diretora. No pós-guerra, entretanto, faltava equipamento necessário às gravações, e os custos de produção eram altos e inviáveis.

Eng chegou a iniciar um novo projeto, um filme sobre guerrilheiros da resistência contra o Japão Imperial. A pré-produção de “Guerilla Heroes” (Youji yingxiong, no título original) já estava encaminhada, e as gravações prestes a começar. O projeto, entretanto, fora interrompido (especula-se que por problemas financeiros e conflitos entre a cineasta e demais membros da equipe).

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Após esta última tentativa em Hong Kong, Esther Eng, ainda muito jovem, continuou a realizar seus filmes nos Estados Unidos. Apesar de sua significância, seu trabalho não foi bem recebido pela indústria e público mainstream. Lésbica assumida — iniciou um romance com Wai Kim-fong quando ambas partiram para Hong Kong; a relação durou até fins da década de 30 —, Eng desafiava estereótipos de gênero ao se vestir e adotar cortes de cabelo considerados masculinos, e a imprensa frequentemente focava em sua aparência, vida pessoal e romântica em vez de em seu trabalho como cineasta.

Esther Eng
Esther Eng desafiava estereótipos de gênero ao se vestir e adotar cortes de cabelo considerados masculinos. (Imagem: reprodução)

No início da década de 50, Esther Eng mudou radicalmente sua área de atuação: mudou-se para Nova York com a atriz Siu Fei-fei e, juntas, abriram um restaurante chinês em Manhattan. Anos mais tarde o restaurante seria vendido, e ela abriria um ainda maior, inicialmente chamado Han Palace e eventualmente renomeado para Esther Eng Restaurant. Agora empresária, Eng chegou a ter ao menos mais um restaurante de sucesso.

A ex-cineasta retornou brevemente à sua posição como diretora de cinema, a convite da atriz Siu Yin-fei, no filme “Murder in New York Chinatown” (Niuyue tangrenjie suishi an, 1961). Embora tenha filmado algumas cenas, por razões desconhecidas não seguiu no projeto, sendo creditada como “location director” pelo material já filmado.

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Esther Eng e Siu Yin Fei
Esther Eng e Siu Yin-fei durante gravações de “Murder in New York Chinatown” (1961). (Imagem: reprodução)

A brusca mudança em suas áreas de atuação de forma alguma compromete o pioneirismo de Esther Eng nos cinemas Hollywoodiano e asiático. Uma profissional de caráter transnacional e intercultural, ela foi um expoente do cinema antiguerra de sua época, com forte senso feminista ao abordar questões sobre gênero e identidade como poucos naquele período.

FONTES:
  • LAW, Kar. In search of Esther Eng: border-crossing pioneer in chinese-language filmmaking. In: Chinese Women’s Cinema: Transnational Contexts. New York: Columbia University Press. 2011.
  • WEI, Louisa S. Women’s Trajectories in Chinese and Japanese Cinemas: a chronological overview. In: Dekalog 4: On East Asian Filmmakers. London: Wallflower Press. 2011.

Edição/revisão por Isabelle Simões.


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Laysa Leal é bacharel em Cinema e Audiovisual com foco em roteiro, direção de arte e crítica especializada. Apaixonada por artes visuais, tem formação profissionalizante em fotografia e atua também como fotógrafa. Não dispensa uma boa música e está sempre pelo circuito de shows e festivais, uma das poucas ocasiões em que prefere o frenesi à quietude de museus e galerias de arte ou ao conforto de salas de cinema.
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