Anna Karina e a Nouvelle Vague: influências que atravessam gerações

Anna Karina e a Nouvelle Vague: influências que atravessam gerações

Compartilhe

Desde os anos 60, os filmes da nouvelle vague francesa influenciam gerações, seja pelo modo que os personagens se vestem, seja pelo modo singelo e inovador de fazer os filmes. No último mês de 2019, uma das maiores estrelas do movimento veio a falecer em Paris, Anna Karina tinha 79 anos e veio à óbito devido a um câncer. A atriz fez seu último filme em 2011. 

Nouvelle Vague e a reinvenção do cinema

O movimento nouvelle vague é considerado um dos mais importantes do cinema, sem ele não teríamos o cinema arte como conhecemos, nem os filmes cult que tanto aclamamos. Traduzindo ao pé da letra, nouvelle vague significa “nova onda”, ou seja, era um movimento de reinvenção do cinema, uma reação que veio para quebrar as regras cinematográficas que estavam em voga na época, principalmente a hollywoodiana. 

Os filmes que compõem o movimento retratam conteúdos do cotidiano, muitas vezes dando até a impressão de que não têm um assunto ou uma história específica, como se fosse um filme sobre nada. Nessa imersão cotidiana, os longas-metragens enchem as pessoas que os assistem de questionamentos sobre a própria vida e não se propõem a dar alguma resposta, portanto, são filmes reflexivos e de introspecção. Muitas vezes, o conjunto dos fatores que compõem a obra podem incomodar a espectadora que está acostumada com a fórmula hollywoodiana de ação e romance, deparando-se com uma situação parecida com a que vive diariamente. 

Tabus e outras questões psicológicas da sociedade e da época são trazidas em histórias com pouca linearidade, idas e vindas no tempo, filmagens com ângulos inusitados e pouco explorados anteriormente, e produções de baixo orçamento que ganham um apelo intelectual. As gravações eram majoritariamente feitas nas ruas ou nas casas dos envolvidos com a produção, devido à pouca verba que se tinha para locações e estúdios, e os personagens geralmente eram figuras à margem da sociedade, como prostitutas, bêbados e foras da lei. 

Jean-Luc Godard, renomado diretor e um dos precursores da Nouvelle Vague.
Jean-Luc Godard, renomado diretor e um dos precursores da Nouvelle Vague. Anna Karina atuou em diversos filmes seus. (Foto: reprodução)

A revista Cahiers du cinéma (“Cadernos de cinema”, em tradução livre) também foi um fator de grande influência para que o movimento acontecesse, uma vez que a maioria dos diretores escreviam críticas e matérias para a revista e puderam usá-la como propagadora de seus filmes. Grandes nomes do movimento são: François Truffaut, Jean-Luc Godard, Agnès Varda, Eric Rohmer, Jacques Rivette e Claude Chabrol.  

Uma das maiores atrizes do movimento: Anna Karina

Assim como o destaque dos diretores, o movimento nouvelle vague tem atrizes que se destacaram em papéis de mulheres com personalidade forte – que nos arriscaríamos em classificar como pró manic pixie dream girl –  personagens incontroláveis, insubmissas mas apaixonadas, intensas mas calmas. Tem até quem diga que os filmes do movimento inseriram um ideal de feminismo na época, explorando a liberdade sexual e o lugar da mulher fora do padrão de bela, recatada e do lar. Uma dessas atrizes foi Anna Karina, nome adotado por Hanna Karin Blarke Bayer, que veio a falecer em 14 de dezembro de 2019.

De origem dinamarquesa, Anna mudou-se para França aos 18 anos, onde começou sua carreira como modelo. Em 1959, ainda aos 18, conheceu Godard, com quem se casou em 1961. Com o diretor, iniciou a carreira de atriz estrelando “Le Petit Soldat” (“O Pequeno soldado”) em 1960 (filme que foi censurado e lançado somente em 1963) e atuou em mais outros seis de seus filmes: “Uma mulher é uma mulher” (1961), “Banda à parte” (1964), “O demônio das onze horas” (1965), “Viver a vida” (1962),  “Alphaville” (1965) e “Made in the USA” (1966). Atuou em diversos outros filmes, além de ter sido diretora, roteirista e atriz em “Vivre Ensemble” (1973). Voltou à direção em 2011 com o filme “Victoria”, sendo também sua última atuação.

Anna Karina em Le Petit Soldat (1963)
Cena de “Le Petit Soldat” (1963), primeiro filme de Anna Karina. (Imagem: reprodução)
Leia também:
>> “Garotas & Sexo” é uma investigação profunda e honesta sobre a sexualidade feminina
>> A realidade fictícia de Agnès Varda: um cinema terno, subversivo e feminista
>> Mulheres na História do Cinema: Kinuyo Tanaka

Alguns filmes estrelados por Anna Karina 

Uma mulher é uma mulher“, no original “Une Femme est Une Femme”, é um longa de Gordard produzido em 1961 e estrelado por Anna Karina, Jean-Claude Brialy e Jean-Paul Belmondo. O filme traz a história de Angela (Anna Karina), uma dançarina de um clube de striptease que mora com seu companheiro Emilie (Jean-Claude Brialy) e deseja ter um filho. Emilie não se mostra muito interessado no desejo de Angela e tenta terceirizar a “tarefa” ao seu melhor amigo, Alfred (Jean-Paul Belmondo), o que abala os sentimentos e a relação que os três têm. 

O filme aborda a questão da maternidade e o tabu da vida de Angela, já que é uma mulher que trabalha com striptease e deseja ser mãe. Embora naturalize o desejo pela maternidade da protagonista, é interessante pensar que na época as duas coisas não pareciam ser muito aceitáveis juntas, além do preconceito que envolvia a questão do corpo feminino como ferramenta de trabalho. Por outro lado, o filme traz uma crítica do senso comum ao feminismo, como se as mulheres fossem impossibilitadas de performar feminilidade e se igualem aos homens ao lutarem por igualdade e pelo fim do patriarcado.

Cena de "Uma mulher é uma mulher", de Jean-Luc Godard, com Anna Karina.
Cena de “Uma mulher é uma mulher”. Tradução livre: “Nós devemos boicotar as mulheres que não choram. Mulheres modernas são estúpidas. Uma mulher que não pode chorar é estúpida. Essas mulheres modernas, que tentam imitar os homens.“.  (Foto: reprodução)

Outra questão importante abordada é relativa ao próprio relacionamento que dita a trama. Angela e Emilie romantizam a relação ao ponto de acreditarem que seu amor nunca acabará, o que acaba pesando para os dois, que tem planos de vidas diferentes. A participação de Alfred como possível pai biológico para o filho de Angela incita também um breve caso de poliamor, mais um tabu quando se lembra que o filme foi feito na década de 1960.

Filme de 1962 e também dirigido por Godard, “Viver a vida” (“Vivre sa vie”, no original) traz a história de Nana (Anna Karina), uma jovem que sonha em ser atriz mas trabalha numa loja de discos. Nana tem problemas financeiros e encara a prostituição como meio complementar de renda, antes de aceitá-la oficialmente como profissão ao ser expulsa do local onde morava. Com questionamentos filosóficos acerca da vida e a questão sentir-se desejada vs sentir-se feliz, Nana é mais uma personagem que explora a ideia de liberdade sexual feminina e o corpo sexualizado como fonte de renda. 

Nana (Anna Karina) em "Viver a Vida", filme da nouvelle vague francesa.
A personagem Nana em “Viver a vida” (Foto: reprodução)

A questão da prostituição incide no questionamento sobre o lugar social do que muitos chamam de profissão mais antiga do mundo, é como se houvesse algum prestígio que superasse o estigma. O final surpreendente traz a reflexão sobre a marginalização das prostitutas e como suas vidas e seus corpos eram banalizados, e ainda são. 

"Viver a Vida", de Jean-Luc Godard
O lugar marginalizado em que se encontra Nana. (Foto: reprodução)

Um filme da nouvelle vague que flerta com a ficção científica e também estrelado por Anna Karina é “Alphaville“. Godard cria uma atmosfera instigante acerca da missão de Lemmy Caution (Eddie Constantine), um agente secreto disfarçado de jornalista que deve analisar o controle realizado pelo supercomputador Alpha 60 sobre os habitantes da cidade futurista de Alphaville e destruí-lo, assim como destruir os planos de seu criador Dr. Von Braun para impedir uma guerra intergaláctica. A cidade é uma crítica à sociedade moderna, proibindo qualquer tipo de demonstração de emoção, choros, poesia e arte, além de manter as mulheres classificadas com números.

Natasha (Anna Karina) e Lemmy Caution (Eddie Constantine) no filme "Alphaville"", de Gordard.
Natasha e Lemmy em “Alphaville”. (Gif: reprodução)

Alpha 60 controla até mesmo as palavras que podem ser ditas e limita completamente qualquer tipo de liberdade de expressão dos cidadãos de Alphaville. É nesse cenário limitante e opressivo que o agente Lemmy se apaixona por Natasha (Anna Karina), filha do Dr. Von Braun.

Com cenas chocantes e toda a possibilidade que a ficção científica oferece para criticar a sociedade e o uso da tecnologia, pensando em uma sociedade alternativa, o clássico de Godard é um levante contra a racionalidade moderna exacerbada e o autoritarismo travestido de avanço tecnológico.

Aos 79 anos, por decorrência de um câncer, Anna Karina deixa um legado poderoso e influenciador para diversas gerações. O estilo de suas personagens, vestimentas e frases celebres são referenciadas por adolescentes e mulheres que viram a dinamarquesa se tornar a representante da nouvelle vague e do estilo cult francês. A artista deixará saudades.


Edição e revisão por Isabelle Simões.

Compartilhe

Autora

Psicóloga, mestranda e pesquisadora na área de gênero e representação feminina. Riot grrrl, amante de terror, sci-fi e quadrinhos, baterista e antifascista.
Veja todos os textos
Follow Me :