“Garotas & Sexo” é uma investigação profunda e honesta sobre a sexualidade feminina

“Garotas & Sexo” é uma investigação profunda e honesta sobre a sexualidade feminina

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A educação sexual de jovens e adolescentes foi e continua sendo um terreno de disputas acaloradas. Depois de décadas de uma educação voltada à abstinência e a pouca informação disseminada sobre sexualidade e biologia, enfrentamos agora um problema que se tornou um monstro: Os índices de estupro nas universidades americanas atingiram números epidêmicos, ao mesmo tempo que a justiça falha em responsabilizar os perpetradores. O consumo de pornografia entre jovens, além de sua crescente expansão, está se tornando natural para garotos cada vez mais novos. Problemas sociais como a disseminação de doenças sexualmente transmissíveis e as altas taxas de gravidez na adolescência ainda são questões irresolvidas.

A abordagem das escolas, dos educadores e dos pais não foi eficaz em informar os jovens das responsabilidades que a vida sexual exige, nem de guiá-los a uma sexualidade não-predatória, igualitária, prazerosa e compartilhada. No meio de todas essas questões estão os jovens e adolescentes, carentes por experiências, por aceitação e por visibilidade, e que muitas vezes encontram esse nicho de sentimentos na cultura da mídia, nas redes sociais e na pornografia.

Peggy Orenstein baseou seu livro Garotas & Sexo em conversas que teve com 100 garotas dos Estados Unidos. Variando entre localidades, classes sociais, orientação sexual e etnias, ela conversou abertamente com cada uma sobre sexualidade, cultura e relações amorosas. A primeira coisa que escritora reparou foi a grande predisposição das meninas de engajar em conversas pessoais sobre esses temas. As jovens querem falar de suas experiências, ser ouvidas e compreendidas e, no geral, estão sedentas de informação e dispostas a questionar o padrões de comportamento vigente.

Muitas delas carecem de ambientes familiares em que perguntas e informações sobre sexo sejam trocadas entre pais e filhos com honestidade, e outras que mesmo observando uma abertura entre os pais para falar do assunto, não se sentem à vontade ou não desejam ter essas conversas com os pais.

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Em Garotas & Sexo, Peggy utiliza o conhecimento e dados sobre a história social dos EUA, e aprende com o passado das políticas públicas e de educação sobre as consequências observáveis no comportamento dos jovens de hoje. Por que as garotas permanecem sendo um grupo extremamente vulnerável à violência sexual? O que nossa cultura hipersexualizada e pornificada está ensinando aos jovens e adolescentes sobre sexualidade? Como as criações da mídia influenciam o comportamento sexual dos jovens? Por que a Universidade, entre todos os lugares, é um ambiente propício para violência sexual? São essas perguntas que ela tenta responder ao conversar com as meninas sobre a cultura do álcool nas Universidades, sobre as novas “ficadas” que agora incluem sexo oral antes do beijo e do romance, e sobre a auto-estima e experiências dessas meninas, que muitas vezes estão sujeitas a uma objetificação tanto social quanto auto-criada e desenvolvida por meio da exposição às mensagens midiáticas, que atribuem o valor de uma mulher à sua aparência e comportamento.

Peggy busca exemplos na indústria da música, como Miley Cyrus, para analisar como sua imagem e sua narrativa de sexualidade — ”É minha escolha”, “Eu QUERO ser uma vadia” — imputaram comportamentos nas jovens de hoje, sem adotar uma perspectiva conservadora, mas ao contrário, bastante crítica e progressista, Peggy Orenstein observa como esse discurso se difundiu entre as garotas e se tornou o padrão de comportamento esperado. Ela oferece uma perspectiva crítica, questionando como essa liberdade em celebrar o “sim” acaba com as defesas das garotas perante situações de abuso, e como os garotos são levados a enxergar as negativas das garotas como um convite à insistência ao analisar situações reais vividas pelas garotas entrevistadas.

A autora relata em Garotas & Sexo que muitas das meninas estavam bastante conformadas com a ideia de que seu valor era condizente unicamente com sua sexualidade, expondo um duplo padrão que é imposto à elas: se você não transa, você é frígida, e se você transa, você é uma p*ta. É comum entre elas uma pressão social para que as atividades sexuais comecem logo, o que mostra que muitas garotas iniciam suas vidas sexuais sem que seu desejo e suas vontades sejam levadas em consideração. O prazer e a sexualidade feminina parecem estar em segundo plano na cultura das ficadas: o importante é garantir uma performance sexual atrativa e agradável aos garotos.

É interessante como ela faz a conexão entre a socialização dos garotos, que funciona no sentido de destruir suas sensibilidades, impedir que eles desenvolvam empatia pelas garotas, que os ensina ativamente a considerar as meninas e mulheres como seres inferiores, úteis principalmente por sua capacidade de oferecer sexo, com os números astronômicos de violência sexual que os EUA apresentam hoje. O estupro também é normalizado via cultura, em que os meninos aprendem que há poucas punições para quem violenta sexualmente, e que a vítima tem parte da culpa do ato de violência. Para as meninas, entretanto, a socialização funciona no sentido de se tornar incapaz de reconhecer situações de violência e abuso, porque durante boa parte de suas vidas elas aprendem que os sentimentos dos homens têm valor, enquanto um corpo violado de uma mulher é geralmente culpa dela mesma.

Na foto: Peggy Orenstein (Reprodução)

Peggy relata em Garotas & Sexo a dificuldade das jovens garotas em agir contra abusos e violências como sintoma dessa educação objetificada. Muitas delas feministas e adaptadas aos novos termos e discursos da luta das mulheres, ainda assim essas garotas têm poucas ferramentas emocionais para identificar situações perigosas e a reagir perante à violência sexual, justamente pelo apelo cultural de normalização de abusos.

A autora investiga e traz à tona outros modelos de educação que tratam da sexualidade com adolescentes de formas mais honestas e abertas, e compara os modelos americanos e holandeses demonstrando a importância do envolvimento da educação, de educadores, pais e mães e na criação de um diálogo que vise a conscientização e prevenção. Enquanto a política americana foi – durante as longas décadas conservadoras de Reagan e Bush – focada na abstinência e na culpabilização dos jovens que se interessavam por sua sexualidade, produzindo um campo aberto para a disseminação da pornografia, além de não diminuir os índices de contaminação e de gravidez indesejada; a Holanda desenvolveu um modelo educacional focado na prevenção e no diálogo. O resultado é que os jovens holandeses começam sua vida sexual relativamente mais tarde que os americanos, levam mais a sério a prevenção, têm índices mais baixos de gravidez na adolescência, de doenças sexualmente transmissíveis e constroem relações mais duradoras e satisfatórias.

É claro que independentemente do modelo adotado para educação dos jovens sobre sexualidade ao redor do mundo, a violência sexual ainda é uma constante a ser combatida. A crítica de Peggy Orenstein em Garotas & Sexo, entretanto, é otimista no papel da educação e de uma mudança cultural que possa endereçar os problemas que enfrentamos na questão da sexualidade atualmente. O trabalho é de base, assim como é global. Começa na educação de jovens juntamente com as gerações anteriores, e demanda um esforço conjunto, mas que têm consequências que podem, de fato, ajudar na libertação das mulheres e garotas de todo o mundo.


Garotas & Sexo

Peggy Orenstein

Editora Zahar

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Feminista Raíz
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