[Festival do Rio 2025] O cinema de horror feminino no Brasil

[Festival do Rio 2025] O cinema de horror feminino no Brasil

A seleção de filmes do Festival do Rio 2025 nos mostrou que o cinema de gênero está a toda no Brasil, em grande parte graças ao trabalho de diretoras. Foram vários os filmes — longas e curtas — que se aproximaram do thriller e do cinema de horror.

Sendo assim, esses filmes trazem não apenas a exploração de gêneros cinematográficos ainda pouco presentes no nosso cinema, como também a força do protagonismo feminino, oferecendo uma abordagem do horror a partir da experiência de mulheres.

DIU, de Camila Schincaglia

O curta-metragem de Camila Schincaglia trata do horror corporal vivido por mulheres diante da saúde reprodutiva. Em poucos minutos, o filme procura traduzir em tela o ponto de vista do corpo sobre a negociação que existe entre a escolha por ter o controle do próprio corpo e os procedimentos invasivos que envolvem justamente a perda desse controle.

Sendo assim, DIU mescla a narração desses embates e imagens de automutilação, fazendo o cruzamento dessas experiências com o seu impacto psicológico e físico. 

Além de abordar a agência e o controle de mulheres sobre o próprio corpo, o filme também mostra a relação da contraparte masculina, que seria, por sua vez, quem tem a vantagem em uma relação desigual.

DIU é uma importante adição ao cinema brasileiro. O curta nos mostra que o nosso audiovisual está pronto para explorar, cada vez mais e sem medo, os mais diversos gêneros cinematográficos, além de contribuir para narrativas impulsionadas pela perspectiva feminina.

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Cena de um filme de suspense com um garçom entregando o cartão na mesa de um casal em um restaurante sofisticado, com iluminação suave e ambiente elegante.
DIU (2025) | Reprodução

#SalveRosa, de Susanna Lira

O longa de suspense dirigido por Susanna Lira acompanha uma mulher que guarda segredos sobre a própria filha. A dupla de protagonistas é interpretada por Karine Teles e Klara Castanho — que venceu o troféu Redentor de Melhor Atriz no Festival do Rio. No filme, mãe e filha vivem uma relação tensa, marcada pela carreira de sucesso de Rosa como influenciadora infantil.

Dora se apresenta, a princípio, como uma mãe zelosa e dedicada, mas exerce um controle por vezes exagerado sobre a menina. Seu comportamento misterioso e ambíguo sustenta as tensões que se acumulam até a revelação de seus segredos. Com a atuação magnética de Karine Teles, Dora se torna uma figura ao mesmo tempo amedrontadora e cativante — quase como uma vilã de novela.

Klara Castanho também está excelente, conseguindo se fazer pequena em cena quando o filme pede, além de entregar ansiedade e desespero nos momentos dramáticos, com grande intensidade. 

A narrativa parece, num primeiro momento, seguir tipos já conhecidos, como o da mãe tóxica ou narcisista, ou casos de manipulação parental. Há exemplos próximos na televisão, como a série The Act, sobre o caso de Gypsy Rose e sua mãe, ou a adaptação de Objetos Cortantes, da HBO. Mas em #SalveRosa, o longa ultrapassa essas referências ao mergulhar com mais profundidade no thriller psicológico e no suspense adulto.

O roteiro alcança esse efeito ao abordar um problema real e extremamente atual no Brasil: a necessidade de maior monitoramento e regulação da presença de crianças em ambientes digitais, além dos perigos que essa exposição e o próprio mercado representam.

Um thriller feminino aclamado no Festival do Rio 2025

O filme venceu o prêmio do júri popular no Festival, sinalizando uma ótima recepção do público. Trata-se de um thriller envolvente que amplia o espaço do cinema de gênero no Brasil e se destaca pelas grandes interpretações de suas protagonistas e de todo o elenco. Além disso, a direção de arte, o figurino e a fotografia contribuem de forma criativa para a construção do tom do filme.

#SalveRosa estreia nos cinemas em 30 de Outubro de 2025

Menina observando objetos em uma sala decorada com tema de arco-íris e nuvens, na presença de uma mulher ao fundo, em ambiente de gravação ou estúdio infantil.
#SalveRosa (2025) | Reprodução

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Virtuosas, de Cíntia Domit Bittar

Um filme sobre mulheres que buscam ser perfeitas perante Deus e seus maridos só poderia ser de horror. O longa explora, por meio da ficção, um movimento que tem ganhado força no Brasil dentro das religiões neopentecostais: o das chamadas “mulheres virtuosas”.

Dirigido por Cíntia Domit Bittar, Virtuosas foi produzido e ambientado em Santa Catarina — um dos estados mais conservadores do país. Segundo a diretora, durante o Festival do Rio 2025, o filme vem enfrentando boicote da imprensa catarinense.

A trama acompanha quatro mulheres que participam de uma espécie de retiro — ou “jornada”, como é chamado — liderado por Virgínia, interpretada por Bruna Linzmeyer. Figura enigmática, Virgínia exerce controle sobre as demais, seja por influência ou intimidação. Durante a estadia nesse lugar isolado, acontecimentos estranhos e lendas populares alimentam a paranoia, enquanto a líder tenta manter o domínio sobre o grupo.

Essa dinâmica se sustenta até o terceiro ato, quando um mal-entendido desencadeia uma série de consequências que levam o filme a territórios inesperados e o entregam de vez ao horror e ao suspense.

Virtuosas dialoga com outras obras brasileiras que exploram o imaginário religioso e a repressão feminina por meio da fabulação, como Medusa (2021), de Anita Rocha da Silveira, e Divino Amor (2019), de Gabriel Mascaro. Ainda assim, o longa se destaca por sua ambientação e atmosfera, que constroem uma tensão crescente até culminar em um desfecho digno de Bong Joon-ho.

Cena de uma apresentação ou evento com várias mulheres segurando microfone e um bebê, todas vestidas com roupas em tons pastéis em um cenário com iluminação suave.
Virtuosas (2025) | Reprodução

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Historiadora e Mestre em Cinema e Audiovisual. Pesquisando estética, identidade e como desafiar os padrões. Nerd desde do berço e apaixonada por arte, cinema e educação.
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