The Act: abuso físico e mental e um homicídio reativo

The Act: abuso físico e mental e um homicídio reativo

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Contando com a ilustre atuação de Joey King, indicada ao Emmy Awards 2019 como melhor atriz protagonista em minissérie ou filme, e Patricia Arquette, “The Act“, dirigida por Nick Antosca, é uma das séries mais marcantes e desconfortáveis que você vai ver. 

Baseada em fatos reais e com um final que surpreende, a vida de Dee Dee (Patricia Arquette) e Gypsy Rose (Joey King) é relatada intensamente na série, fazendo a espectadora passar por uma montanha russa de sentimentos. Dee Dee e Gyspsy são mãe e filha e se davam muito bem segundo depoimentos de vizinhos, entrevistas e registros da época, mas não é o que constatamos assistindo à série e lendo um pouco sobre o caso, quando nos aproximamos do que era a verdadeira rotina das duas. 

Logo no primeiro episódio de “The Act” percebe-se o afeto tenso que permeia a relação das duas: a mãe sendo sempre rude, mas disfarçando através do tom de voz calmo e suave, e a filha se mostrando dependente dos cuidados da mãe, mas, como toda adolescente, tentando se descobrir e se desvincular desses cuidados cada vez mais. 

Dee Dee (Patricia Arquette) e Gypsy Rose (Joey King)
Dee Dee (Patricia Arquette) e Gypsy Rose (Joey King) em “The Act”. (Imagem: reprodução)

O abuso físico e mental exercido pela mãe

Algumas reportagens sobre o caso informam que Dee Dee tinha um transtorno factício imposto a outro, sendo uma variante da Síndrome de Münchhausen, a Síndrome de Münchhausen por Procuração (relativa ao outro). A síndrome foi originalmente descrita em 1977 por Sir Roy Meadow, que a definiu como um tipo de abuso infantil em que o cuidador atrai as atenções para si mesmo ao provocar e induzir a existência de doenças nas crianças.

Portanto, Dee Dee mentia sobre o estado de saúde da filha e esta começa a descobrir algumas mentiras, como sua falsa alergia à açúcar e sua capacidade de andar tranquilamente sem precisar da cadeira de rodas. As descobertas são pontos fundamentais de abalo da relação entre elas, afinal, Gypsy, que já estava tentando ser uma jovem independente, fica ainda mais rebelde e revoltada com o excesso de cuidado da mãe.

Pode-se perceber que, como Dee Dee não conseguiria controlar sua filha para sempre apenas com palavras e repreensões, ela se apoiava em decisões médicas. Foi o que aconteceu quando Gypsy descobriu que poderia comer todo o açúcar que quisesse: seus dentes ficaram gravemente danificados e a mãe, junto ao dentista, decidiu que iria arrancá-los. 

As curiosidades infantojuvenis são muito bem trabalhadas na série, como maquiagem, beijos, corpo e sexualidade. É interessante a delicadeza com que retratam a relação de Gypsy com seu corpo ao perceber que não é tão doente quanto imagina. Ao mesmo tempo, é crítico e perigoso o modo como a idealização de um príncipe encantado que irá salvar a donzela em perigo presa na masmorra afeta a imaginação e a realidade da garota. Basicamente o objetivo da vida de Gypsy é encontrar este príncipe salvador. O que acontece é que ela se entrega totalmente ao primeiro homem que lhe dá atenção, carinho e a promessa de uma vida melhor e assim as coisas vão se complicando.

A articulação do crime em “The Act”

Gypsy começa a se relacionar com Nick (Calum Worthy), um jovem com múltiplas personalidades que jura proteção e amor infinito à jovem. Depois de se relacionarem por dois anos apenas online, o primeiro encontro do casal é feito em um cinema e, como “The Act” mostra, não ocorreu como Gypsy planejava, mas nada destrói o sonho da garota em fugir com seu príncipe encantado. 

Dee Dee está ficando cada vez mais debilitada com a idade avançando e a descoberta do diagnóstico de diabetes. Diferente do Sistema Único de Saúde, a insulina nos Estados Unidos é paga e custa caro, o que possivelmente faz com que a mãe não queira fazer o tratamento adequado para a doença, piorando cada vez mais. 

Falando em dinheiro, é importante lembrar que era a suposta doença de Gypsy que sustentava as duas, já que milhões foram arrecadados para ajudá-las. As duas iam a diversos eventos filantrópicos, recebiam inúmeras cartas e declarações sobre como davam esperança às pessoas e eram aclamadas por serem exemplo de união e força.

É interessantíssimo entender como a relação praticamente doentia entre mãe e filha começou e este é mais um ponto que “The Act” relata majestosamente. Acontece que a avó materna de Gypsy sempre se disse mais capaz de cuidar da criança do que Dee Dee, que desde sempre acreditou que havia algo de errado com a recém nascida. Em certo momento, a criança cai de um brinquedo pula-pula e aí oficialmente tem início a série de falsos adoecimentos e problemas da criança. 

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Em todas as consultas médicas era a mãe quem relatava os sintomas da filha e quando a criança abria a boca, Dee Dee prontamente a apertava ou a olhava com reprovação na tentativa, geralmente bem sucedida, de controlar o que ela dizia. 

Quando Gyspy e o namorado planejam, então, por um fim à masmorra da princesa e decidem matar Dee Dee para viverem felizes para sempre, a garota fica inicialmente muito empolgada para viver seu sonho de romance longe das amarras da mãe, que compreendia cada vez menos a filha, tentando afastá-la de qualquer conhecimento relacionado ao sexo e às descobertas comuns da adolescência. No dia da morte, é interessante como fica retratada a tensão no ar. Gypsy está visivelmente nervosa e aflita, mas em momento nenhum impede seu namorado de executar o plano. No entanto, ambos pegam um táxi e fogem.

Imaginando, então, que supriria tranquilamente qualquer falta da mãe e que a nova vida com seu príncipe seria perfeita, Gypsy tenta se convencer de que fizeram o certo, mas “The Act” retrata as diversas decepções que tem com o namorado e as lembranças da noite do crime, que a atormentam quase diariamente. 

The Act
Nick (Calum Worthy) e Gyspy (Joey King) são fugitivos após o crime (Imagem: Brownie Harris/Hulu)

Outro ponto interessante de “The Act” é que Nick, após o assassinato de Dee Dee, diz que os dois são como Bonnie e Clyde, mas Gypsy não sabia como o caso do casal fora da lei teminou. Já presos, Nick diz a ela que descobriu qual era o fim do romance: “Eles morrem juntos”, diz ele. Gypsy se desespera.

Gyspy foi condenada a 10 anos de prisão e cumpre a pena uma cadeia na cidade de Vandalia, Missourio. Nick foi condenado por homicídio doloso e cumpre prisão perpétua sem liberdade condicional.

Nicholas Godejohn e Gypsy Rose
Nicholas Godejohn e Gypsy Rose Blanchard sob custódia (Imagem: reprodução)

Edição realizada por Gabriela Prado e revisão por Isabelle Simões.


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Autora

Estudante de Psicologia, pesquisadora na área de gênero e representação feminina. Riot grrrl, amante de terror, sci-fi e quadrinhos, baterista e antifascista.
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