Areia Movediça: quando o amor se transforma em relacionamento abusivo e te consome

Areia Movediça: quando o amor se transforma em relacionamento abusivo e te consome

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A delimitação de espaços entre feminino e masculino está presente em todos espectros da sociedade patriarcal e falocêntrica. No âmbito amoroso, a separação de territórios também não é diferente da lógica da submissão da mulher ao homem. Desde os contos de fada, perpassando pelo cinema comercial em que se há predominantemente um olhar masculino, pela literatura e música, há uma tendência de se cristalizar o amor ideal como sendo o amor romântico, o “amor que rompe fronteiras”, onde quase sempre a mulher é a responsável exclusiva por sacrificar-se e anular-se enquanto sujeito em nome do zelo e da sobrevivência desse amor, como se o homem fosse um ser inimputável pelas falhas provenientes das relações afetivas ou fosse um sujeito incapaz, não podendo ser culpabilizado pelos deveres das relações amorosas.

Na série sueca “Areia Movediça“, veiculada pela Netflix, o relacionamento abusivo vivenciado pela personagem protagonista, Maja Norberg (Hanna Ardèhn), é um dos eixos centrais que sustenta o roteiro. A série é baseada no livro da autora e advogada sueca Malin Persson Giolito, publicado no Brasil pela editora Intrínseca no final deste mês de maio.

Em “Areia Movediça”, Maja é uma jovem estudante oriunda de uma família estruturada e que costuma se destacar na escola, até que conhece Sebastian Fagerman (Felix Sandman), considerado o garoto mais cobiçado da escola por ser proveniente de uma família abastada e ostentar um estilo de vida suntuoso, de carros caros, bebidas e festas elitizadas, o que lhe atribui status quo e popularidade na escola. Sebastian se interessa por Maja e eles se tornam namorados. A jovem, centrada e comedida, logo se deslumbra com o elevado padrão de vida de Sebastian e o glamour que o cerca. Segundo afirma a própria personagem, ele poderia ter qualquer garota que quisesse, mas se interessou por ela.

O relacionamento abusivo retratado em “Areia Movediça” e a dificuldade de cortar as correntes

Areia Movediça
Maja e Sebastian em “Areia Movediça” (Foto: divulgação/Netflix)

Somos, muitas vezes, doutrinadas a acreditar no amor romântico, o amor que resiste às intempéries, o amor que tem de ser eterno. Até aí, acreditar ou não, depende da subjetividade, motivações e crença de cada mulher. Mas quando a ideia do amor romântico é usada contra nós? Quando o mundo nos força a nos enxergar sempre como metades? Nunca inteiras e completas? Quando somos pressionadas socialmente a prosseguir num amor tóxico e destrutivo só porque interiorizamos a romantização do amor? Quando tentam nos convencer de que somos as únicas responsáveis por eternizar um amor em uma relação, ainda que ele nos custe nossa anulação?

A priori, percebe-se que Maja estava fascinada com o mundo de excessos e ostentação do namorado. Os pais da garota, bem como sua melhor amiga, endossavam o relacionamento como se o fato de ter conquistado o coração do jovem ricaço se assemelhasse a algo extraordinário, como encontrar o bilhete premiado, por exemplo. Ocorre que, por trás da cortina que encobria uma vida de luxo e posses, Sebastian se reduzia a um garoto infeliz, oriundo de uma família desestruturada e, portanto, desprovido de amor e atenção dos pais. A mãe havia sido expulsa de casa e nunca o procurou, já o pai, um milionário esnobe, projetava todo o ódio que nutria pela ex-mulher no pobre Sebastian.

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Areia Movediça
Cena de “Areia Movediça” (Imagem: divulgação/Netflix)

Assim, no decorrer da trama de “Areia Movediça”, o jovem passa a fazer uso problemático de álcool e drogas, ausentar-se da escola e, por conseguinte, arrastar Maja para o fundo do poço. A adolescente começa a experimentar drogas ilícitas, negligenciar as atividades escolares e viver em função e à sombra de Sebastian, imbuída, por um lado, de um sentimento de indulgência e culpa pela situação conflituosa, vivenciada entre o garoto e o pai e o descaso deste para com o filho e, por outro lado, atraída pelo encantamento que o status social, riqueza e poder econômico desperta em pessoas de personalidade ainda em formação.

“Areia Movediça” foge do tempo cronológico e linear; enquanto Maja encontra-se privada de liberdade por ter sido acusada dos crimes de homicídio doloso, culposo e cúmplice de assassinato, após o tiroteio na escola em que seus colegas e professor foram mortos, presenciamos flashbacks que narram como a história se deu e desvenda as inconsistências do atentado ocorrido na escola.

Em um dos episódios, quando Sebastian já não tem mais controle sobre suas ações e se torna cada vez mais agressivo, Maja sofre violência física e sexual do namorado, além da violência psicológica pela qual passa ao ser culpabilizada por terceiros toda vez que tenta se afastar do namorado agressor. Como se para além do papel de namorada, ela fosse compelida a desempenhar a função de mãe ou tutora de Sebastian, que é tratado sempre como um garotinho, incapaz de ter autorresponsabilidade.

Os velhos estereótipos de louca e má em torno da mulher

Areia Movediça
Maja em cena de “Areia Movediça” (Imagem: divulgação/Netflix)

Após o atentado na escola que ceifou a vida de alguns jovens, arquitetado por Sebastian, Maja é presa e acusada pelo crime, podendo ser punida com uma pena de privação de liberdade de 14 anos. Antes mesmo de pronunciada a sentença que poderia condenar ou absolver Maja, ela é condenada moralmente pela sociedade, grande mídia e pelos colegas que sobreviveram ao atentado. A partir de então, constrói-se em torno da jovem a imagem de uma mulher vulgar e irresponsável que teria seduzido Sebastian para o caminho obscuro e desvirtuado.

Segundo o depoimento de um dos seus colegas, o comportamento de Sebastian agravou-se depois que conhecera Maja, passando a beber e usar drogas sem limites, quando, na verdade, a história de Sebastian se confunde com o drama de muitos jovens riquinhos que são criados sem amor, limites e atenção por parte dos pais.

Por fim, a série de seis episódios discorre sobre temáticas diversas e delicadas, como a banalização da violência, a falta de amor e diálogo entre famílias abastadas e o quão o patriarcado está arraigado em muitos âmbitos de nossas vidas, inclusive nas relações afetivas que, por vezes, se convertem em dores e feridas profundas. Algumas nunca saram.


Edição realizada por Gabriela Prado e revisão por Isabelle Simões.


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Jornalista, pós-graduada em Comunicação, Semiótica e Linguagens Visuais, estudante de Direito, militante femimista, autora do livro A Árvore dos Frutos Proibidos, desenhista, cinéfila e eterna aprendiz na busca do aprender a ser.
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