“Você nem imagina” e os diferentes tipos de amor

“Você nem imagina” e os diferentes tipos de amor

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Você Nem Imagina” tem um início bem típico de um filme de romance. Através de uma animação de visuais criativos, a narração abre com o mito das almas gêmeas de Platão. De acordo com a lenda grega, no começo dos tempos, todos os humanos tinham duas cabeças, quatro braços e quatro pernas, e viviam completos. Os deuses, pensando que isso iria prejudicar sua autoridade, interviram, separando em dois todos os seres que antes eram um. Como resultado, as pessoas passam suas vidas buscando por suas caras-metades, vagando pela Terra em solidão até encontrarem a outra metade de suas almas.

Mas nossa protagonista, Ellie Chu (Leah Lewis), não tem interesse nessa busca. Na opinião dela, as pessoas gastam tempo demais procurando por amor. Cética e antissocial, Ellie prefere evitar contato com seus colegas de classe, limitando-se a uma relação profissional: escrevendo redações para eles por dinheiro. Mesmo assim, ela não consegue evitar seu fascínio pela bela Aster Flores (Alexxis Lemire), namorada de um dos garotos mais populares da escola. Nas primeiras cenas, Ellie observa Aster durante a aula de música, ouvindo-a cantar com uma mistura de interesse e medo que diz tudo.

Ellie Chu e Aster Flores em "Você Nem Imagina"
Aster Flores (Alexxis Lemire) e Ellie Chu (Leah Lewis) em “Você Nem Imagina”. (reprodução)

Novamente: excluindo-se o gênero das protagonistas, é um início bem típico para um romance adolescente.

Mas “Você Nem Imagina” não é um romance. Dirigido e escrito pela cineasta Alice Wu, a obra é um filme sobre amor, e sobre a ideia de almas gêmeas. Ellie, que começa a história cheia de ceticismo pelo mito de Platão, vai aprender, na prática, como as conexões que as pessoas formam umas com as outras podem ajudá-las a crescer.

Subvertendo o triângulo amoroso em “Você nem imagina”

A trama central de “Você Nem Imagina” inclui um terceiro elemento, além de Ellie e Aster: Paul Munsky (Daniel Diemer), um jogador de futebol com uma certa dificuldade em se expressar, que “contrata” Ellie para escrever uma carta de amor para Aster, sob o nome dele. Ellie, relutante, concorda porque precisa do dinheiro. Mas o que era para ser só uma carta acaba se tornando uma série de correspondências, envolvendo os sentimentos dos três de forma cada vez mais profunda.

A princípio, então, estão claras as bases do triângulo amoroso. Mas o grande de trunfo do filme é a dedicação e o carinho que mostra por cada um dos protagonistas, tratando-os como pessoas completas e nunca como peças na trama. No desenrolar da história, conhecemos as famílias de Paul, Aster e Ellie; seus respectivos talentos e sonhos; e acompanhamos a busca de cada um para entender, finalmente, o que é o amor.

Cena de "Você Nem Imagina" - Netflix
Cena de “Você Nem Imagina”. (reprodução)

Neste contexto, então, todo amor é respeitado. Os sentimentos de Paul e Ellie por Aster não estão realmente em competição. Eles existem de forma independente, cada um refletindo quem eles próprios são como pessoas. Assim, se para Paul o amor é simples e direto ao ponto de parecer superficial, para Ellie ele é complexo e intimidante. Isso se manifesta na relação que cada um deles forma com Aster. No caso de Paul, um romance juvenil, singelo e, como a própria Aster diz, “seguro”; no caso de Ellie, uma conexão mais profunda e intensa.

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Mas a maior subversão do triângulo amoroso em “Você Nem Imagina” é que, no final das contas, uma das relações mais importantes do filme é a amizade que Paul e Ellie formam entre si. Esse é o laço que é responsável pelos momentos mais tocantes da narrativa, como o confronto com um grupo de bullies racistas ou a ótima montagem que inclui um jogo de pingue-pongue.

A postura defensiva e reservada de Ellie é desarmada pela gentileza e a inocência de Paul. Lewis e Diemer estabelecem uma química natural em cena, tornando a conexão emocional entre ambos verossímil e valiosa. É uma amizade que se constrói aos poucos, de forma hesitante e desajeitada, entre duas pessoas que definitivamente não são uma só, mas que, juntas, conseguem entender melhor o que as tornaria completas.

Paul e Ellie em "Você Nem Imagina".
Ellie e Paul (Daniel Diemer) em “Você Nem Imagina”. (reprodução)

Camadas melancólicas em “Você nem imagina”

Apesar do formato típico de uma rom-com adolescente, “Você Nem Imagina” é um filme marcado por fortes toques de melancolia. Ellie, como imigrante, é claramente deslocada do resto de sua cidade pequena (e majoritariamente branca). A única loja asiática fica a três horas de bicicleta. Todos os dias, ao ir para a escola, ela passa por um grupo de adolescentes que debocham do seu sobrenome, Chu, e de seu trabalho na estação de trem. Quando a mãe de Paul a vê pela primeira vez, ela pergunta: “Essa é a sua amiga chinesa?”. São inúmeras as pequenas agressões que o roteiro nos mostra, construindo com cuidado esse sentimento de isolamento cotidiano, de para sempre ser o outro.

Esse sentimento se reflete na história da família de Ellie: Seu pai, Edwin Chu (Collin Chou, em uma performance delicada e profundamente triste) é um engenheiro com doutorado, mas sua dificuldade em falar inglês o impediu de encontrar um emprego à altura de sua formação. Isso levou a família a se instalar na fictícia cidadezinha de Squahamish, onde ele se tornou engenheiro da estação de trem (sempre vazia). Após a morte da mãe de Ellie, Edwin se resignou a uma existência solitária e sem ambições, e não é de espantar que, no início do filme, a própria Ellie pareça conformada em seguir pelo mesmo caminho.

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Tudo isso funciona para trazer dimensão à personagem, deixando a espectadora investida em sua jornada como protagonista. Ellie começa o filme sem entender nada sobre amor, mas aprende mais sobre como ele funciona ao experimentá-lo sob diferentes formas, seja ele romântico, familiar ou platônico. O resultado é uma experiência de coming of age do ponto de vista de uma menina lésbica e imigrante, que entende o contexto da personagem sem limitá-la ao mesmo.

Cena de "Você Nem Imagina", filme de Alice Wu.
Cena de “Você Nem Imagina”. (reprodução)

O quanto você se esforça

“Você Nem Imagina” não é um filme perfeito (a performance de Lemire, em especial, não aproveita bem as deixas para o desenvolvimento de Aster que o roteiro proporciona), mas é um filme com um coração grande, que pulsa através de personagens e conflitos muito humanos. É uma obra que entende que as relações entre as pessoas são frágeis e hesitantes e se constroem aos poucos, de forma muitas vezes dolorosa e confusa. Acima de tudo, é uma obra delicada e acolhedora, que emociona ao mesmo tempo que faz sorrir.

Como Paul pergunta para Ellie, em um dos melhores diálogos do filme: “Não é isso que é o amor? O quanto você se esforça para amar alguém?” E “Você Nem Imagina” se esforça muito.


Edição por Isabelle Simões e revisão por Mariana Teixeira.


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Formada em História, Fernanda é escritora e trabalha com tradução, legendagem e produção de conteúdo. Gosta de games, quadrinhos e filmes. Passa a maior parte do tempo falando do seu cachorro ou do MCU.
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