The Sandman: narrativas que podem aparecer na primeira temporada da série

The Sandman: narrativas que podem aparecer na primeira temporada da série

A série The Sandman, inspirada na obra-prima em quadrinhos, do escritor britânico Neil Gaiman, finalmente saiu dos domínios do Sonhar e estreará ainda em 2022 pelo serviço de streaming Netflix. Esperada há anos pelos fãs do autor e causando imenso furor na divulgação do elenco, ocorrida em 2021, a primeira temporada abrangerá o volume um da edição definitiva, publicada pela Panini, intitulada Prelúdios e Noturnos.

O primeiro volume da HQ conta com oito histórias em que Morpheus, também conhecido como Sonho dos Perpétuos, enfrentará diversas provações após ser aprisionado por ocultistas e passar setenta anos sob o domínio do grupo, liderado pelo ambicioso Roderick Burgess. Confira, a seguir, as narrativas presentes na primeira parte do quadrinho e que, possivelmente, serão abordadas ao longo dos onze episódios da série The Sandman, da Netflix.

[CONTÉM PEQUENOS SPOILERS DE PRELÚDIOS E NOTURNOS]

Sandman é uma história sobre histórias, que vale-se dos mitos para determinar suas próprias criações. Na obra, os leitores encontram um conteúdo vasto, plural e multicultural, repleto de referências às diversas mitologias existentes e à cultura pop, incluindo menções à músicas, filmes e obras literárias clássicas. Mesmo Morpheus e suas batalhas pessoais sendo o foco do enredo, a maioria das situações se desdobram de suas interações com os demais personagens que, muitas vezes, ganham revistas inteiras para contarem suas próprias histórias, tornando o quadrinho uma fonte riquíssima de narrativas que se mesclam e ganham vida própria ao longo da jornada de cada um.

“Apesar do aspecto do Sonho ter raízes na mitologia clássica e na articulação de Joseph Campbell de temas míticos e religiosos comuns, é importante notar aos leitores contemporâneos de Sandman e leitores de Gaiman em geral que ele baseou conscientemente seu trabalho nisso, numa veia do gênero conhecido em alguns cantos como ‘fantasia recursiva’. A fantasia recursiva se baseia em personagens, conceitos e ambientes já conhecidos (…),
mas a definição é específica a trabalhos que lidam com elementos de precursores ficcionais já existentes. Com frequência, isso envolve obras usando famosos personagens de domínio público, como Frankenstein, Drácula ou Sherlock Holmes, mas é a interessante camada de realidade, incluindo aquela que é ficcional dentro do contexto de ‘realidade’ da fantasia, que mais frequentemente está em jogo.” (BISSETE; GOLDEN; WAGNER, 2011, p. 63)

Outro ponto importante da grandiosa obra de Neil Gaiman é a inserção de conteúdos sociológicos e filosóficos; a própria essência dos Perpétuos, a família formada pelos irmãos Sonho (Morpheus), Morte, Desejo, Desespero, Delírio, Destino e Destruição, demonstra a atenção do roteiro em transcender a arte dos quadrinhos, sendo estes personagens as personificações antropomórficas de aspectos que regem a humanidade em suas individualidades, bem como nas relações interpessoais travadas ao longo da vida.

Primeiro volume de Sandman, quadrinho de Neil Gaiman

Espera-se que a série aborde momentos importantes de Prelúdios e Noturnos, da mesma forma brilhante que o quadrinho o faz, uma vez que o arco de abertura de Sandman serve não apenas para situar os leitores no contexto da obra, como também para fomentar análises e discussões sobre temas que rondam o nosso consciente e inconsciente. Discussões sobre sexualidade, raça, gênero e classe por vezes aparecem inseridas nas histórias, mostrando que desde a década de 80 a obra de Gaiman se preocupa em transmitir aos leitores pautas importantes para a construção social, individual e coletiva.

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O embate entre Morpheus e Roderick Burgess: situando os leitores no universo de Sandman

Na história “O Sono dos Justos”, que abre o primeiro arco de Sandman, os leitores são apresentados a Roderick Burgess, líder da seita ocultista Ordem dos Antigos Mistérios, cuja missão primordial é tentar invocar e aprisionar a Morte, a fim de extrair dela os seus poderes e, sobretudo, conseguirem a vida eterna.

Quando ele se apossa do Grimoire Magdalene, livro que conta com uma série de feitiços e invocações, junta o seu grupo de cultistas, e finalmente iniciam o ritual visando aprisioná-la – mas eles não contavam que acabariam prendendo Morpheus e seus três objetos de poder, que concentram parte de sua essência: o elmo, a algibeira de areia dos sonhos e o rubi, que tempos depois são roubados e extraviados. Ele não cede às ordens e pedidos de Roderick e acaba passando setenta anos aprisionado, libertando-se, então, muito fraco e com sede de vingança.

“Gaiman diz que uma das sementes de todo o conceito de Sandman foi que a palavra ‘sonho’ tem mais de um significado: pode ser as cenas que passam pela sua mente adormecida, ou as esperanças e aspirações, ou as histórias que contamos a nós mesmos para dar sentido ao mundo.”(CAMPBELL, 2015, p. 100)

Ao longo do tempo em que esteve preso, o mundo dos vivos e o Sonhar, local governado por Morpheus, sofrem muitas consequências; pessoas com problemas de sono profundo ou insônia passam a ter a rotina estranhamente alterada, ora entrando em coma, ora agindo como zumbis, perambulando despertos. Já o reino do Sonhar, local para onde vão e onde se criam todos os sonhos, começa a se desfazer, obrigando Morpheus a encontrar seus pertences com ainda mais urgência para reerguê-lo.

Cena do quadrinho Sandman

“O Sono dos Justos” é uma excelente história introdutória. Ela serve para apresentar os poderes de Morpheus e toda a magnitude de sua existência, uma vez que Lord Magus, como Roderick Burgess era chamado em seu círculo ocultista, também é um personagem poderoso. Logo, é através dela que veremos os desdobramentos do sumiço dos objetos de Morpheus e o dano psicológico que ele sofreu em decorrência da prisão; Gaiman insere de forma sutil a compreensão de que o personagem, mesmo sendo uma criatura que está acima dos deuses, pois ele próprio foi quem os criou, também tem sua parcela de humanidade.

Cena da história "O Sono dos Justos", de Sandman

Outros personagens importantes que retornarão nos arcos seguintes, como é caso de Unity Kinkaid em “A Casa das Bonecas”, também aparecem no início de Sandman, o que funciona como um “efeito borboleta” na narrativa; muitos deles serão peças fundamentais no desenvolvimento do quadrinho e da própria narrativa de Morpheus.

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As Três

Após os desdobramentos de “O Sono dos Justos”, Morpheus necessitará de ajuda para encontrar seus sigilos de poder na história “Anfitriões Imperfeitos”: voltando ao Sonhar e encontrando a terra completamente arrasada nas mãos de Lucien, o bibliotecário, e dos atrapalhados irmãos Caim e Abel (cujas aparições são breves, mas também servem de introdução à personalidade e importância dos personagens adiante), pede ajuda às Três, também chamadas de Hécate, Fúrias, Graças, Moiras, Parcas, dentre tantas outras nomenclaturas, a depender da mitologia.

As Três em Sandman, uma tríade feminina de bruxas,

As personagens formam uma tríade feminina de bruxas, inspirada nas facetas mitológicas da Donzela, a Mãe e a Anciã, que trocam de papéis demonstrando que são uma só. Em Sandman, elas também aparecem em outros arcos e, neste primeiro contato, servem de oráculo para Morpheus; a ele são concedidas três perguntas, uma para cada bruxa, e assim ele começa a ter pistas de onde seus objetos podem ter parado, sendo que foram espalhados pelo universo de outras histórias da DC Comics.

As Três são inspiradas nas facetas mitológicas da Donzela, a Mãe e a Anciã.

O arquétipo das Três, em Sandman, serviu também como base para personagens importantes de outra obra do autor: O Oceano no Fim do Caminho. Nela, as Hempstock, que cuidam do personagem principal e o ajudam a enfrentar a criatura maligna Ursula Monkton, são também aspectos da tríade feminina e fundamentais na narrativa (inclusive, uma provável antepassada delas ou, quem sabe, até mesmo a faceta da donzela, chamada Lettie, aparece também em um livro anterior de Gaiman, O Livro do Cemitério, como o fantasma de uma menina bruxa que fora afogada e enterrada fora do cemitério em que Nin, o protagonista, mora, por não poder ser sepultada em solo sagrado).

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As Três formam o time de personagens femininas bem construídas por Gaiman e, junto à primeira aparição da Morte, são também um ponto alto na narrativa do primeiro arco. Na série, veremos ainda mais mulheres representando o universo de Sandman: Lucien será Lucienne, interpretada pela atriz Vivienne Acheapomg, assim como Lúcifer será interpretado por Gwendoline Christie.

Constantine

Já em “Sonhe um Breve Sonho Comigo”, os leitores têm a primeira aparição de John Constantine. Na série, haverá a mudança deste personagem para Johanna Constantine, antepassada do famoso personagem, interpretada por Jenna Coleman.

John Constantine na história “Sonhe um Breve Sonho Comigo”

narrativas de Sandman que podem aparecer na primeira temporada da série

Na trama, a personagem Hettie Maluquete avisa a John que Morpheus voltou, após um período desaparecido, e que precisa falar com ele. Dias depois, Morpheus o encontra e os dois saem à procura da algibeira, que estava sob posse de John, mas que fora comprada e, em seguida, guardada em outro local e que Constantine não sabia que havia sumido.

Esta história, mais uma vez, é importante como introdutória do personagem e para os leitores conhecerem um pouco mais do seu passado, fora da persona “casca grossa” e do âmbito de detetive do oculto. A graça da escrita de Gaiman é justamente acrescentar camadas e mais camadas psicológicas em seus personagens e deixá-los multifacetados, logo, mais parecidos com os seus leitores.

A visita de Morpheus ao inferno

Ao descobrir que seu elmo está no inferno, Morpheus desce ao reino das trevas em “Uma Esperança no Inferno” e lá conversa com Lúcifer, a fim de recuperar o objeto facilmente. No entanto, é informado que o local se tornara um triunvirato, sendo comandado por Lúcifer, Belzebu e Azazel, e após conversarem brevemente, Morpheus descobre que seu elmo está com Choronzon, um dos demônios do lugar.

A visita de Morpheus ao inferno

Choronzon não cede fácil ao pedido do Rei dos Sonhos e o desafia para um duelo, em outra dimensão: Morpheus terá, então, que entrar em seu jogo argumentativo, sendo criativo e ágil, para que não pague um grande preço – se tornar escravo no inferno por toda a eternidade.

Cena do quadrinho Sandman, de Neil Gaiman.

Passagem marcante de Prelúdios e Noturnos, quadrinho de Neil Gaiman.

Esta é, de longe, a passagem mais marcante de Prelúdios e Noturnos, uma vez que Morpheus, ainda cansado pelos anos de prisão, terá de arriscar as últimas forças para talvez sair ileso das garras de Choronzon.

No curta-metragem abaixo, feito por estudantes da Universidade Tecnológica Federal do Paraná como trabalho final do curso de Tecnologia em Design Gráfico, em 2013, há a animação (com spoilers) da cena em que Morpheus duela com o demônio:

John Dee, o rubi e o fim do mundo individual

Ao longo das primeiras seis histórias de Prelúdios e Noturnos, as narrativas mesclam-se com vislumbres do arco de John Dee, o Doutor Destino, vilão preso no Asilo Arkham, que após enlouquecer é visitado pela mãe, já idosa, que o encontra em um estado físico e mental decrépitos. Após o falecimento dela, Dee recebe, junto a um amuleto, o rubi de Morpheus. Ele, então, decide fugir, apropriar-se do poder do objeto e causar o fim do mundo, espalhando infortúnios por todos os cantos.

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O enredo de Dee é aprofundado nas histórias “Passageiros”, “24 Horas” e “Som e Fúria”, em que Morpheus, ainda não recuperado totalmente, terá de enfrentar um oponente completamente fora de si e capaz de causar um mal irreversível.

John Dee, o rubi e o fim do mundo individual

O destaque, dentre as três histórias, é a intitulada “24 Horas”. Nela, Dee encontra um restaurante e faz os clientes de refém por um dia, brincando com suas vidas e fazendo atrocidades com eles. É interessante analisar a história pelo ponto de vista da garçonete, Bette Munroe, escritora de contos que quer algum dia trabalhar apenas com isto, e vê no trabalho uma fonte de inspiração para o seu hobby.

As histórias de Bette são sempre curtas e com um final feliz, pois, segundo ela, “histórias longas sempre terminam em morte”. O que ocorre com ela e com os demais personagens, durante a passagem de Dee, é o total oposto, o que torna a passagem uma desconstrução constante acerca do ideal que ela tinha para si e para os outros. Aos poucos, com a ajuda de uma pitada de loucura, os personagens mostram seus segredos e obsessões mais íntimos, causando seus “fins do mundo” pessoais, para o deleite de Dee. Uma legítima história de horror.

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Em “24 Horas”, também é apresentada ao público a primeira personagem abertamente lésbica da série, Judy. Após discutir com a namorada, Donna, ela a espera no restaurante para uma possível reconciliação. Mesmo Bette tendo uma visão açucarada das relações humanas, faz comentários lesbofóbicos sobre a garota e a namorada, mas que caem por terra quando, mais tarde, a garçonete revela segredos extremamente sombrios sobre o seu passado.

representatividade lésbica em Sandman

Esta história, que possui gatilhos de mutilação, conteúdo NSFW e imagens de mortes muito gráficas, ganhou um vídeo feito por fãs bem fiel ao texto original e às caracterizações dos personagens. Não recomendado para menores de 18 anos, assim como toda a série Sandman (contém spoilers de “24 Horas”). Você pode assisti-lo aqui.

A primeira aparição da Morte em Sandman

Por fim, Prelúdios e Noturnos é encerrado com a tocante e talvez a mais conhecida história de Sandman: “O Som de suas Asas”. Após passar por inúmeras complicações, sentindo-se fraco, desmotivado e sem perspectiva de melhora, Morpheus encontra, pela primeira vez em anos, a Morte, sua irmã mais velha, que na série será interpretada por Kirby Howell-Baptiste, atriz britânica negra, que dará uma nova roupagem e aprofundamento de narrativa para a personagem.

“As pessoas estão acostumadas à ideia da Morte com uma foice e capa. Eu queria fazer uma Morte que desafiasse a concepção das pessoas. Queria fazer um tipo de Morte que gostaria de encontrar quando morresse.” (CAMPBELL, 2015, p. 122)

Morte é o oposto de Morpheus. Mesmo carregando o estigma do momento final de todas as criaturas vivas, ela é alegre, alto-astral e procura ver a beleza no seu oposto, a vida. Por mais que sentisse falta do irmão, Morte conversa seriamente com ele sobre a situação em que o próprio Morpheus se colocou, de autopiedade e tristeza, sendo que ele estava ali, livre para recomeçar. Assim, decide mostrar a ele parte de seu difícil ofício, como forma de ensinar ao irmão que há situações muito mais complicadas de serem enfrentadas, e de quebra se apresenta aos leitores, tornando-se uma das mais queridas personagens de Sandman.

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A primeira aparição da Morte em Sandman

Morte aparecendo pela primeira vez no quadrinho

Morte conversando com Sonho, cena de Prelúdios e Noturnos, de Sandman.

Na série, Morpheus será interpretado pelo ator britânico Tom Sturridge, cuja caracterização, apresentada nos conteúdos exclusivos que vêm sendo divulgados desde o ano passado, está muito semelhante à do personagem do quadrinho, porém de forma atualizada para os novos tempos, uma vez que a série se passará atualmente.

Além de Tom, outros atores consagrados estão confirmados no elenco: Charles Dance será Roderick Burgess, David Thewlis interpretará John Dee, Sanjeev Bhaskar dará vida a Caim e Asim Chaudhry como Abel. Confira, abaixo, a lista completa de personagens confirmados, o primeiro trailer da série e um trecho dos bastidores.

Elenco confirmado de "The Sandman".
Elenco confirmado de “The Sandman”. Imagem: divulgação.
Elenco confirmado de "The Sandman".
Elenco confirmado de “The Sandman”. Imagem: divulgação.

Fontes/créditos:

  • BISSETTE, S.; GOLDEN, C.; WAGNER, Hank. Príncipe das Histórias – Os Vários Mundos de Neil Gaiman. 1. ed. São Paulo: Geração Editorial, 2011.
  • CAMPBELL, H. A Arte de Neil Gaiman. 1. ed. São Paulo: Mythos, 2015.
  • Fotos por Laís Fernandes para o Delirium Nerd.

Sandman: Edição Especial de 30 Anos – Vol. 1

Autor: Neil Gaiman

240 páginas

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Autora:

92 textos

Formada em Letras, pós-graduada em Produção Editorial, tradutora, revisora textual e fã incondicional de Neil Gaiman – e, parafraseando o que o próprio autor escreveu em O Oceano no Fim do Caminho, “vive nos livros mais do que em qualquer outro lugar”.
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