Desejo e Desespero: duas faces de uma mesma moeda em “Sandman”

Desejo e Desespero: duas faces de uma mesma moeda em “Sandman”

Desejo e Desespero são personagens de “Sandman“, série de histórias em quadrinhos criada por Neil Gaiman e publicada entre 1989 e 1996 pela Vertigo, selo da DC ComicsEntre tantas peculiaridades, começamos este especial dizendo que não é possível falar de Desejo, que se destaca por suas artimanhas ao longo de toda a série, sem pensar em Desespero, personagem quase invisível aos nossos olhos. AVISO: o texto  a seguir contém spoilers das edições de Sandman!

Entre os Perpétuos, que representam aspectos e conceitos essenciais ao equilíbrio do universo, as irmãs gêmeas são as mais novas, criadas apenas um pouco antes de Delirium, caçula dos sete irmãos. Assim como os demais, são superiores a deuses e outras entidades, pois possuem seus próprios reinos, poderes e responsabilidades, tudo para que o universo siga seu fluxo até que tudo deixe de existir. Também como os outros Perpétuos, possuem personificações diversas ao longo do tempo, mas com características marcantes que as tornam reconhecíveis em qualquer época ou lugar.

Desejo em Sandman
Desejo em “Sandman” (Imagem: reprodução)

Em “Sandman”, Desejo não tem gênero definido e aparece ora como homem, ora como mulher. As impressões sobre seu gênero são dúbias e o que se destaca é a sua androginia, não apenas pelas artes, mas também nas falas de seus interlocutores. No entanto, neste especial vamos nos referir a Desejo no gênero feminino, pois é a forma mais recorrente ao longo da série.

Além de não se satisfazer com apenas um gênero, Desejo é referenciada também pela sua beleza extenuante. Ela possui agradável odor de pêssegos, apesar estar sempre fumando um cigarro. Com estatura média, cabelos pretos e a pele pálida, tem a peculiaridade de projetar duas sombras: uma nítida, negra como uma sombra qualquer, e outra ondulante, como o calor visto em dias extremamente quentes.

Desejo tem uma beleza tão estonteante que um retrato, pintura ou outra representação jamais chegará aos seus pés. Quem a vê se apaixona imediatamente, mas de um jeito doloroso, que cega e machuca. É a mais lasciva e sensual entre os Perpétuos, na mesma intensidade em que é egocêntrica e egoísta. Seu sorriso é cínico, irônico e suas atitudes são cruéis, independente de quem seja seu alvo.

O reino de Desejo se chama Limiar e é representado por uma imensa estátua a sua própria imagem, feita de carne, sangue, ossos e pele. O Limiar é colossal, porém vazio e, obviamente, o único lugar onde Desejo poderia habitar é o coração. Aliás, um coração de vidro é o seu símbolo, utilizado na galeria dos Perpétuos para invocá-la.

Desespero em Sandman
Desespero em “Sandman” (Imagem: reprodução)

Desespero, por sua vez, é o oposto de sua gêmea. Ela é gorda, também tem a pele pálida, mas a sua é fria e pegajosa, com aparência escamosa. Seus cabelos são pretos como os de sua irmã, mas com aspecto sujo e desgrenhado. Seus olhos são da cor de um céu cinza e úmido e a sua voz é quase como um sussurro gelado de tristeza e pesar. Ela não exala nenhum cheiro, mas sua sombra tem um toque almiscarado. Sempre carrega seu símbolo, um anel em forma de gancho como um anzol, e costuma utilizá-lo para se autoflagelar na esperança de aplacar qualquer sentimento.

Aparentemente vazio, seu reino se mostra repleto de névoa e ratos, que correm por ele e até pelo seu próprio corpo, mordiscando-a, enquanto o nada toma conta de tudo. E há também inúmeros espelhos. Em cada um deles, cujas ligações terminam em um espelho na Terra, Desespero observa pessoas que beiram a loucura de tão desesperadas. Mais que isso, ela enxerga também o pior da humanidade: em mais de uma passagem aparecem assassinos, abusadores e pedófilos, por exemplo. E ela caminha por entre os espelhos, sem de fato encará-los, pois não sabe lidar com a inquietação de tantas almas degradadas.

Desejo e Desespero em Sandman
Desejo e Desespero em “Sandman” (Imagem: reprodução)

A primeira aparição de Desejo e Desespero acontece na edição #10, no arco Casa de Bonecas. Logo fica claro que Desejo pretende interferir, como de costume, na vida de Sonho, seu irmão mais velho que acaba de retornar após décadas de aprisionamento. E Desespero, à princípio, parece participar das artimanhas, mais por sua ligação com a irmã do que pelo interesse em ver Sonho sucumbir.

Na edição #16 deste arco, Sonho confronta Desejo e confessa saber de suas intenções, ainda que sem entender os motivos. No diálogo, ele declara que os Perpétuos são servos dos vivos, e não seus mestres, fato que Desejo parece desconsiderar. Ela defende, com arrogância, que a sua única razão de existir é fazer com que coisas desejem coisas e, desta forma, não é necessário se justificar: “desejar” já é motivo suficiente.

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Desespero e Destruição em Sandman
Desespero e Destruição em “Sandman” (Imagem: reprodução)

Na edição #31 do arco Espelhos Distantes, vemos que Desespero também tem problemas com o irmão. Ela fala sobre Sonho não se importar com a família, segundo ela, um dos motivos que levou Destruição a partir. E talvez aí resida a pista sobre o porquê de Desespero participar dos atos de Desejo. Ainda assim, e apesar de não ser a mais carismática entre os Perpétuos, Desespero se mostra um ser cativante, a sua maneira. Ela nutre especial carinho por Delirium e demonstra sentir muita saudade de Destruição. Inclusive, lamenta não ter acompanhado a caçula em sua busca pelo irmão desaparecido, ocasião na qual perdeu a oportunidade de revê-lo.

Na edição #41, Desespero relembra os momentos que viveu com Destruição, durante a Peste Negra. Sabendo que ele é um poço de ternura, fica difícil entender a ligação entre os dois, em um primeiro momento. Mas então Neil Gaiman esclarece tudo com a sutileza de sua narrativa: afinal, haveria melhor sentimento para relacionarmos à destruição do que o próprio desespero?

Desejo em Sandman
Desejo em “Sandman” (Imagem: reprodução)

Se durante toda a série as interferências de Desejo pareceram apenas simples provocações entre irmãos, na edição #65 do arco Entes Queridos descobrimos, enfim, que tudo foi sadicamente planejado. Ela se revela a verdadeira vilã de Sandman, em um arco que surpreende por mostrar uma Desejo sem escrúpulos, que envolve a todos em intrigas – e até abusos – que desencadeiam os eventos que culminam no desfecho da jornada de Sonho.

E se Desejo não mede esforços para tornar realidade os seus anseios, de uma forma um tanto mórbida, Desespero tem plena consciência de que as coisas são como são e ponto. Um dia a sensação de desesperança chegará para todos e não há nada a fazer.

Neil Gaiman
Desejo e Desespero em “Sandman” (Imagem: reprodução)

No entanto, não é apenas de maldades que vive Desejo. Em um dos únicos momentos em que a personagem parece de fato se importar com algo que não seja si mesma, ela sofre ao ver que o destino de Sonho está se encaminhando conforme o esperado – e por ela desejado. Apesar de não verbalizar, seu lamento é notado através do isolamento no Limiar, momento em que também remove o símbolo da galeria, demonstrando não estar disponível para os demais Perpétuos. Se este ato sugere redenção, não sabemos. É mais provável que Desejo lamente não mais possuir o seu joguete favorito…

Noites Sem Fim
Desejo em “Noites Sem Fim”, de Sandman (Imagem: reprodução)

Além de Sandman, na graphic novel “Noites Sem Fim” temos mais uma dose da verdadeira essência das personagens. Em “O que eu experimentei do Desejo”, os traços inconfundíveis de Milo Manara dão vida a um conto sobre o ato de desejar. Sobre querer algo com tanta força a ponto de não desejar mais nada, mas, principalmente, sobre ter consciência de que alguns desejos nos levam à perdição.

Em “15 retratos de Desespero”, desenhado por Barron Storey e Dave McKean, quinze fragmentos sobre este sentimento aterrador nos faz refletir sobre a miséria da alma humana. Com imagens aparentemente sem sentido, somadas a trechos de textos desconexos, percebemos que é na incompreensão de nós mesmos que o desespero faz morada (e também sentido).

Desespero
Desespero em “Noites Sem Fim”, de Sandman (Imagem: reprodução)

A construção brilhante destas personagens tem inúmeras nuances, às vezes discretas, outras dolorosamente impactantes. A dualidade marcante de Desejo e Desespero vai muito além das aparências ou da forma como encaram o mundo. Se Desejo é a personificação gritante de tudo aquilo que desejamos ter e ser, Desespero nos marca pela paciência e pelo silêncio ensurdecedor.

Como em um ciclo sem fim, não conseguimos desvendar se sucumbimos de desespero por aquilo que desejamos e não podemos ter ou se, por sucumbir aos nossos desejos mais profundos, acabamos envoltas em desespero. De qualquer forma, as gêmeas de Neil Gaiman mostram que não importa quem somos, a partir de uma mísera fagulha de desejo podemos nos tornar o ápice de uma mesquinhez desesperadora, dando início a uma onda de ações que podem arruinar qualquer um inclusive a nós mesmos.


Edição realizada por Isabelle Simões.

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No momento gamer casual. Em tempo (quase) integral Comunicadora, Relações Públicas e Pesquisadora. Pisciana e sonhadora, meio louca dos signos, meio louca dos gatos. Fã de tecnologia, games, e-sports e outras nerdices.
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